dias ainda serão luz

se aproximam dias novos.
chegam dias destinados
a romper o concreto
como as raízes das árvores
numa calçada da av. brasil.
a vida não é só esta tempestade
repito, a vida não é só essa chuva
caindo por uns três dias
do final do mês de maio.
"choveu o esperado para um mês todo"
disseram. eu sei. aqui também
choveu o esperado para uma vida
ou, para não exagerar, uma parte
uma boa, grossa parte
(ou o período de uma vida jovem).
porém, se aproximam dias novos.
chuvas de verão, apenas
intercaladas com longas horas
ensolaradas, amarelas, brilhantes.
não me deixei morrer
porque quis romper o concreto
com minhas raízes
com minha essência.
é desesperador, em dias
é desesperador o cárcere
e os questionamentos:
por que não eu? por que não comigo?
a inveja que se sente
observando a liberdade dos outros
por trás das janelas trancadas.
no entanto, chegam dias novos.
dias de ar puro, livre de toxinas
e amplo espaço. vêm dias
de branco e verde, e arte 
e gatos macios como almofadas
almofadas macias como gatos
corações macios como ambos.
pois a vida foi esta tempestade
e não é mais. rompeu-se o concreto
quebrou-se o vidro. os cacos feriram
deixando pequenas cicatrizes
de batalha, mas não importa
pois a liberdade não é mais um sonho.
se aproximam dias em que se reconhece
a paz, flagrada no rosto adormecido
e também no sorriso, e também nas folhas
da planta, e até no quadro torto na parede.
a paz é um beijo descompromissado
e também lençóis amassados.
ela ainda está lá, escondida, mesmo na correria
(pasme!) porque se tem certeza que tudo
que é necessário está sendo feito.
feito para o bem. feito para a paz.
o stress ainda existe, momentos ruins
há dias cinzas que não se pode escapar.
mas a liberdade dá abertura para decidir
para ficar ou sair, seguir ou voltar atrás
começar ou terminar, mudar ou permanecer.
as feridas cicatrizam depois de descansar
depois de se remover a faca.
(quantas vezes não tentamos
cicatrizar machucados
com a lâmina ainda presa na carne?)
ainda bem que dores circunstanciais
terminam assim que findas as circunstâncias
(parece óbvio, mas nem sempre é).
se aproximam dias mais bonitos
e eu me agarro às minhas divindades
as únicas às quais pertenço
as únicas que me conhecem
e em mim confiam
me guiando para a prova viva
de que a própria vida é mais
que essa tempestade infinita.
a vida ainda há de ser sol
os dias ainda serão luz.


Obra: “Separação” de Edvard Munch (1896)