engasgo

que sentimento ingrato é a raiva.
a raiva que não decide entre o choro
e um soco na parede, entre a cara feia
e uma sequência de gritos ásperos.

áspero é meu peito ressecado
enquanto meus ossos rangem
e minhas mãos tremem
tremem de raiva, tremem de medo
tremem porque é tudo o que podem
fazer por hoje. tremer. temer.

ah, se eu soubesse um jeito
de desligar esses botões psíquicos.
se eu soubesse ser pura e não ter raiva
se eu soubesse ir à missa e fazer silêncio
e respeitar autoridades sem sentir
o líquido de dentro borbulhar

fervendo.

se eu soubesse escrever poesia
sem me envergonhar de sua
miséria lírica e desespero de bêbado
que vomita na sarjeta excesso de pinga.
eu vomito excesso de raiva, vomito ódio, dor
tudo isso junto e em ebulição.

em nada e quase ninguém confio. veja:
eu quis escrever algo sobre amor
mas eu não conheço o amor direito.
a raiva, entretanto, conheço, muito bem.
ela bate à minha porta todas as noites
penetra pelas as minhas narinas.
engasgo nas chamas, repetindo um mantra:

as mesmas asas que ainda me farão voar são essas que me dão dor nas costas.