Meu amor, acho que estou morrendo.

Talvez não aconteça agora, não hoje, não sei se amanhã, ou quando, exatamente, mas acho que estou morrendo. Acho que estou morrendo como parte de um processo. Como o final de um caminho, ou o início de outro. Como o alcance de uma conquista - daquelas que não tem graça ou, se têm, acaba rápido. Acho que estou morrendo como o último gole de conhaque do seu copo. Como o último beijo que trocamos antes que eu entrasse no trem; o gosto foi-se rápido, mas o peso dos lábios sobrepostos se manteve ali. Ainda sinto uma leve pressão, mesmo agora, agora que acho que estou morrendo. Com futuro todo pela frente, as portas bem abertas desde que me mudei pra capital, te deixando para trás, mas acho que estou morrendo. Aliás, acho que estou morrendo, não de velhice ou de doença, mas de algo diferente. Não de assassinato, intoxicação, atropelamento, inanição, asfixia, susto ou pobreza de espírito. Não sei, amor, mas acho que estou morrendo.

Fui ao médico essa semana e contei a ele que ando estressada e que acho que estou morrendo. Ele me examinou pacientemente, encontrou quase tudo no lugar, só uma possível deficiência de vitaminas e uma necessidade de noites de sono melhores, disse, mas eu, eu acho que estou morrendo. Voltei para casa, preparei café, trabalhei, trabalhei duro, de olho nas oportunidades, de olho no futuro, de olho em tudo que me assombra, pensando que estava morrendo. Tal qual o cacto na mesa, aquele que eu roubei do seu apartamento, e deixei morrer, deixei que morresse bem lentamente sem água pra perceber que mesmo o cacto tinha limites. Mesmo o cacto não foi invencível; e ele me olhou de volta, enquanto eu trabalhava, o cadáver do cacto seco, e me disse que eu estava morrendo. Amor, eu acho que estou morrendo. Morrendo como aquela memória da sua infância que você não sabe mais se é verdade ou se você inventou. Como aquela pintura de Monet que roubaram do museu e destruíram. Como o peixe prateado que se aproxima do anzol, meu amor, eu acho que estou morrendo. Sou repetitiva, muito repetitiva, muito repetitiva, e acho que estou morrendo.

Meu amor, acho que estou morrendo. De medo.