nós somos a praga

a cada rotação, o planeta terra sente coceira 
com tantos humanos andando sobre sua superfície.
é patético, é simplesmente patético:
essa espécie e sua vidinha programada, e suas dores, e suas mesquinharias.
são pessoas todos os dias, e dia após dia
entrando e saindo de carros e do transporte público
sempre com pressa, com muita pressa, de olhos fixos em seus relógios de pulso ou celulares
sua atenção sempre distribuída em um sistema multi-tarefas
onde cada pensamento há de durar, geralmente, menos de um minuto
e é logo substituído por outro, outro objetivo, outra obrigação
exceto pelos apaixonados e por aqueles que estão muito tristes
(para todos os efeitos, seus pensamentos são mais duradouros).
a cada rotação, o planeta terra sente cócegas
mas não consegue rir sabendo que estamos a desgraçá-lo
por ambição e egoísmo, enquanto tantas outras espécies aqui vivem
há séculos, sem causar mal algum ao seu espaço.
é que o ser humano é uma criatura um tanto diferente, ah
essa espécie e sua vidinha programada, e suas dores, e suas mesquinharias.
come e caga como um animal, precisa de sexo como se sua ausência gerasse dor física
carrega uma carcaça falha e débil, passível de inúmeros defeitos
pronta para quebrar-se ao meio, desenvolver a porra de um câncer
ou enlouquecer, arruinar seu pobre cérebro ainda primitivo
que ninguém jamais seria capaz de preparar para as desventuras do trabalho.
ah, o trabalho. o dinheiro. a maior virtude da espécie de vida pré-programada e mesquinha.
tirasse o valor do dinheiro das mãos dos homens modernos e talvez até esquecessem quem são
uma vez que sua vida é toda esculpida em torno desse eixo frágil
traçado sob uma história de opressões e exclusão, suor e sangue
mas só daqueles que jamais desfrutarão do luxo que lhes é anunciado.
a cada rotação, o planeta terra sente um formigamento
com tantos humanos soluçando sobre sua superfície
felizes são os animais a viver uma vida simples e plena
felizes são os leões, as aves, os peixes, as abelhas e os gatos de rua
a viver uma vida lenta, apesar de curta, sem contar dia após dia
sem dor, sem ambição e sem dano, a dormir sob céus estrelados
enquanto nós somos iluminados pela luz de nossos smartphones
fazendo orações para deuses que se envergonham de nos ter apadrinhado.
a cada rotação, o planeta terra sente calafrios
contando os minutos para cuspir e escarrar todos esses seres humanos
essa espécie e sua vidinha programada, e suas dores, e suas mesquinharias.