
A fúria uruguaia.
Não vou negar que aquela cara de ódio me deu medo, e sorte que já tinha comido o sanduíche senão teria me engasgado guela abaixo.
Tem coisas que por mais que você escreva, descreva ou explique, nunca conseguirá transmitir a totalidade de um momento, principalmente se o resumo da história for uma simples expressão facial. Mesmo assim vou tentar.
Já tinha ouvido várias vezes que a rixa entre uruguaios e argentinos era maior do que a entre brasileiros e argentinos. Esta última estaria muito relacionada ao futebol (de fato), enquanto que a primeira não apenas, existindo motivos históricos de conflitos, enaltecidos ao longo do tempo pelo maior convívio, tendo como base a proximidade dos países e de suas capitais.
Por já ter ido no Uruguai e na Argentina algumas vezes, diversos foram os testemunhos e experiências presenciados que corroboraram com esse sentimento. Como adoro conversar com taxistas (eles são um termômetro preciso do momento da cidade), lembro bem de alguns, de ambos os lados, que falaram o quanto os vizinhos são chatos e antipáticos. Em recente viagem, conversando mais uma vez com um taxista no Uruguai, coincidentemente casado com uma brasileira, reforçou após eu ter incitado sua opinião. – Eles são de difícil trato. É difícil transportar argentinos, não gosto. Vivem fazendo confusão. Eles se acham!
Generalizando, os argentinos acham os uruguaios invejosos, um povo crítico, sem muita expressão e que tenta copiá-los. Já os uruguaios acham os argentinos arrogantes (é nada?), que se acham seres superiores, pouco humildes até em situações desfavoráveis.
Pois bem, lá estou eu indo de Buenos Aires para Montevidéu pelo Buquebus Francisco, a balsa (ou ferry boat, como queiram) que faz essa travessia em cerca de duas horas. Uma embarcação muito confortável, diga-se de passagem, com poltronas bem confortáveis, lanchonete e freeshop. Ao entrar com minha esposa, procuramos a fila de cadeiras mais próxima a nós, organizadas e divididas em vários blocos com filas de três poltronas. Estou comendo meu sanduíche de café da manhã já sentado quando para na minha frente uma figura, no mínimo, exótica. Um uruguaio mistura de Tony Ramos (leia-se Zé Maria) com o ator Ron Perlman (O nome da Rosa e Hellboy). Um homem peludo, de cabelos grandes brancos despenteados e com uma cara de babuíno. Sim, era idêntico! Olhos pequenos e profundos, com queixo agudo e boca fina, saindo de dentro a cada cinco palavras um língua solta sem necessidade para aquilo. Como se precisasse dela para respirar.
Ele em pé do meu lado balbucia palavras e olhava para mim como se buscasse minha aprovação. Eu só comia o sanduíche e balançava a cabeça afirmativamente, fazendo o papel de bom ouvinte. Além de que me pareceu mais conveniente concordar, sei lá o que aquela lapa de doido era capaz de fazer caso eu discordasse. Como já disse, lembrei na hora de Zé Maria e Hellboy, juntos numa mesma pessoa. Vê que bronca! Sua irritação era porque na primeira fila do bloco que estávamos tinha uma fita adesiva informando que as três poltronas estavam reservadas.
Vale ressaltar que, diferente de avião, estar na primeira fila ali não fazia diferença nenhuma, a distância entre poltronas era bem confortável, até para mim que tenho pernas grandes. Mas não… ele queria a primeira fila. E opções de lugares também não faltavam, os passageiros estavam chegando e ainda tinham vários lugares vazios, inclusive na fila em que ele estava, em frente à minha. Mas não… ele queria a primeira fila. Fdp!
Ao lado do filho, já mostrando o poder da genética, com uma cara de terrorista atirador em cinema, ele continuou reclamando em voz alta, agora já um pouco mais alta, olhando para os lados com movimentos bruscos e o pior, pra mim também. E eu na mesma, comendo meu sanduba light de peito de peru e balançando a cabeça afirmativamente. Bem assim, meu gesto corporal dizia “sim, sim, isso é um absurdo”, meu pensamento dizia “ô seu velho louco, senta logo nesta porra de cadeira e deixa de reclamar”.
Pela primeira vez passou uma pessoa da empresa da balsa, uma mulher simpática que ajudava a organizar a distribuição das pessoas. Ele não perdeu tempo. – Absurdo isso, por que tem poltronas reservadas? Eu paguei igual a todos! Não aceito, não aceito! Aqui não existe reserva!
Percebi que a moça tomou um susto, não pela reclamação mas pela figura que via (acho que ela também assistiu a Hellboy, mas será que conhece Zé Maria?) e mesmo assim disse bem calma: – Não senhor, existe reserva sim. Aquelas estão reservadas – e continuou elegante orientando as pessoas. Pronto! O homem enfureceu, olhou para mim de novo dizendo ser um completo absurdo. Eu tinha acabado de dar uma mordida e com a boca cheia mastigando concordei mais uma vez com ele.
O senhor mandou o filho ficar sentado, disse que ia reclamar com os superiores e saiu enfurecido escada abaixo para não sei onde. Só vi os cabelos brancos pulando de um lado por outro enquanto ele saia no trote. Nesse momento eu já dava a última mordida e pensava o motivo pelo qual ele queria tanto aquela primeira fila, a uns cinco metros apenas de distância e sem nenhuma diferença de onde estava. Além de que ainda eram umas 06h30 da matina, cedo demais para tanta irritação. Olhei para minha esposa ao lado que só franziu as sobrancelhas, como se me perguntasse o que era aquilo.
Passados alguns minutos volta Zé… ops, o homem, andando com passos fortes e determinados, numa passada mais rápida que a convencional. Para de novo na fila à minha frente. – Não explicaram nada, não explicaram na-da!! E a língua dele lá, balançando mais exposta que bunda em escola de samba.
Foi nesse momento que fez-se a cara com maior expressão de ódio que vi na minha vida. Nada era tão profundo e assustador. Nada vinha tão de dentro. Uma cara de ódio que nunca tinha visto ou presenciado, deixando para trás qualquer ativista do estado islâmico. Não vou negar que aquela cara de ódio me deu medo, e sorte que já tinha comido o sanduíche senão teria me engasgado guela abaixo. Ele apenas olhou pro vazio, apertou ainda mais a boca e disse: – MISERÁBLES!!!! CRETINOS!!!! MEN-TI-RO-SOS!!!!
O filho não titubeou, levantou, foi lá na primeira fila, arrancou o adesivo que abraçava as três poltronas e acenou chamando o pai, no melhor tom vingativo.