Sim, somos estupradores em potencial

2 horas da manhã. Como de praxe, voltava pra casa de táxi dado o adiantado da hora. Na verdade havia pego carona com umas amigas até o meio do caminho pro táxi sair mais barato. Elas se despediram em uníssono: “Avisem quando chegarem!”. É uma frase bem recorrente. Mas não pra mim. Meus amigos não precisam ter esse mesmo nível de preocupação.


Quantas vezes elas precisaram repetir essa frase todas as vezes que saíram juntas e voltaram tarde da noite? Quantas vezes elas se preocuparam, depois de eventualmente umas cervejas, se não tinham bebido demais e se tornaram vulneráveis? Quantas vezes elas não tiveram certeza de que iriam, simplesmente, conseguir chegar em casa?

Fiquei pensando: e se alguma delas quisesse ou tivesse que fazer o mesmo que eu costumo fazer a essa hora da noite? Elas não tinham muita escolha. Quando não podiam sair de carro, só saíam de carona porque não podiam pegar um táxi. E não porque não tinham dinheiro ou coisa parecida. Mas porque, pegar um táxi nessas condições, no meio da madrugada, com um homem dirigindo, é algo que elas nem cogitam. Era um privilégio meu, preciso admitir. Outro homem, que mesmo com um tantinho de medo por ter que cruzar o centro da cidade cheio de drogas, violência e prostituição àquela hora, não tinha o mesmo medo de eventualmente estar ali naquele carro “pedindo para ser assediado” porque estava com uma roupa curta, porque tinha bebido um pouco além da conta ou porque simplesmente estava sozinho naquele carro com um estranho.

Eu não precisava ter medo. Eu estava do lado de um dos meus. Um estranho. Mas ainda sim alguém que, assim como eu, havia sido educado a violentar o tempo inteiro.

Não estou tratando daquela violência clássica de bater/apanhar. Estou falando mesmo daquela violência diária. Daquela vez em que você repreendeu sua irmã por sair de casa com uma roupa muito curta. Daquela outra vez em que você fez piada da coleguinha da escola porque ela não seria supostamente sexualmente atraente. Ainda teve aquela vez em que você presumiu que sua outra colega de escola não devia fazer alguma atividade porque ela não teria a mesma capacidade que você.

É, meu caro, você pode ignorar o quanto quiser. Mas a base da Cultura do Estupro está arraigada nessas atitudes diárias que, por menos graves que sejam e que pareçam ser, são a base para a manutenção de outros abusos muito piores como a violência doméstica e o próprio estupro em si.

Dia desses tinha até comentado no Twitter que:

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E é mesmo. E você sabe por que? Porque não somos nós que lidamos com assédios diários baseados em nosso gênero. Todo a nossa conduta é naturalizada paulatinamente através de músicas, filmes, novelas, memes, rodas de bar, etc. Mas isso não é natural. A natureza determina muitas coisas, mas com certeza, cultura e sociedade não estão entre elas.

Somos todos assediadores em potencial enquanto couber ao homem o papel supostamente natural de ser pegador, de assoviar pra qualquer mulher atraente ou se orgulhar de não fazer nenhum serviço doméstico. E desnaturalizar isso dá trabalho, mas não é impossível com um pouco de vontade de deixar a ignorância de lado. Então, ao invés de reclamar que está sendo taxado injustamente de “estuprador em potencial”, lembre que, de fato, você pode ser. Você cresceu para ser um. Mas não precisa se tornar.

A perturbação feminina pode atingir uma intensidade que o homem não conhece — Simone de Beauvoir (1967, p. 131)
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