13 razões

Gatilho, romantização do suicídio, bullying, qualquer que seja o termo. Vim listar 13 razões pessoais para ver 13 Reasons Why, a coqueluche da Netflix que já virou polêmica. E isso é algo positivo, porque gera debate e, no meio do chorume e esterco, nós encontramos pepitas de ouro. Ou seja, a polêmica pode ser boa.

Sem mais delongas, vamos aos motivos. Aviso: vai doer e tem spoiler.

1 — Fato 1: todos os adolescentes se sentem solitários. Isso é incontestável e ajuda a entender porque eles são babacas. Todos. Alguns mais, outros menos. Todos os adolescentes são babacas. O motivo: hormônios e a necessidade crônica de pertencimento. 13 Reasons Why traz isso com maestria. Sem exceções, todos os personagens são babacas em algum momento. Score, Netflix!

2 — Se todos os adolescentes são babacas, em algum momento eles fazem babaquices. Nós, adultos, também fazemos, então é presunção achar que não éramos babacas quando adolescentes e soltar a máxima “No meu tempo, não era assim” e “Hoje em dia…”. Tudo sandice. Era tão babaca quanto, com uma exceção: a vida era mais analógica e levava muito tempo para a babaquice se proliferar, além de atingir menos pessoas. E a série trata do adolescente de hoje, que já nasceu conectado, que os pais têm mais fotos do aniversário de um ano que próprias ou dos avós. Se tudo é digital, rápido e atinge mais pessoas, as chances de dar merda são maiores.

3 — Embora seja contemporânea, a produção vai na veia nostálgica da galerinha com quase trinta e trinta e poucos: o saudosismo pelo analógico que nós só pegamos a rabeira. Eu tive um walkman com 8 anos de idade, fitas, gravador de voz (Muito Mundo da Lua isso mêo) e essas tecnologias oitentistas/ noventistas que voltaram com tudo. Embora a série seja inspirada no livro, lançado anos antes, o fator clichê chega escancarando nossa saudade de um tempo que vivemos superficialmente.

4 — Adolescente é o diabo e todo mundo sofreu bullying. Em maior ou menor escala, porque é quase um ritual de sobrevivência. Um rito de passagem. O Ensino Médio é a institucionalização do bullying e sobreviver a isso não é fácil. Parabéns para nós, que aguentamos isso sem fazer (tanto) mal a ninguém.

5 — Sabe aquela lista? Então, eu já estive nela. Na sexta série, como a penúltima garota mais feia da sala. Perdendo apenas para a Amanda, uma menina tão doce que era constantemente o alvo da galera. O apelido dela era canhão e uma vez o nível foi tão baixo que ela saiu chorando da sala de aula. Eu vivia dividida entre amenizar para o meu lado e sentir empatia por ela. Em 2001, eu era a segunda menina mais feia da sala. E não tem a ver com padrão de beleza ou aparência, porque eu era magra, sou branca e tenho olho azul. É simplesmente irracional, principalmente na escola pública da periferia. Se você destoa, você é zoado. Se você não destoa, em algum momento vai ser um babaca e será zoado. Fim.

6 — A mesma lista voltou, dessa vez em 2005. Eu tinha dezesseis anos e os garotos da sala começaram a eleger as “Melhores partes” de todas as garotas da sala. Na lousa, não teve pudor não. Eu ganhei como a boca e o os olhos mais bonitos. Não levei o cabelo porque não deixei um dos “jurados” enconstar em mim durante a “premiação”. Garotos são idiotas. Sempre. Fim².

7 — Aos dezesseis anos também, eu me senti como a Hannah, solitária e sem amigos. Decidi ir trabalhar, porque me cansava muito ter que ir todos os dias para uma sala de aula com quarenta alunos que não queriam mais fazer os trabalhos comigo ou sequer falavam. É devastador e acontece exatamente como na série. Você se torna uma fantasma, uma sombra, uma fonte de desprezo. E dói.

8 — Minha turma geralmente fazia educação física com as turmas mais velhas. Tinha um rapaz que eu realmente não vou lembrar o nome. Ele vivia mexendo comigo, quando me via passava a mão no meu cabelo ou no meu rosto. Quando algum professor pedia meu caderno e eu tinha que entregar na sala que ele estava, era como caminhar rumo à guilhotina. Eu odiava quando ele me expunha. Não chega nem perto do que foi roteirizado para a Hannah, mas eu identifico aquele pavor.

9 — Garotas também podem ser babacas. Muito. A melhor amiga que fica com o cara que você gosta. Não uma. Não duas. Três, quatro, cinco vezes. A quietinha que é, na verdade, uma sádica. As punks que te empurram na escada, te jogam na lata do lixo, te trancam no banheiro. A “gostosa” que faz questão de enfatizar o quanto ela é bonita e você é feia. É gente, é isso tudo. Todos os dias. Cinco horas por dia, cinco dias por semana, durante anos da nossa vida. É exatamente desse jeito.

10 — Tem sempre o bonzinho. O amigo de verdade que a gente não vê, que é tímido, que tem os problemas internos dele, mas nunca fala sobre. Que gosta da gente e não fala. Que, quando frustrado, é um babaca. Para todos nós há um Clay. E tem os não tão bonzinhos também. Há uma Jessica. Há uma Courtney, um Justin. Só esperamos que não haja um Bryce.

11 — Seus problemas parecem ínfimos perto do que seus pais estão passando. Geralmente é dinheiro, mas pode ser doença, divórcio, traição, trabalho. Há uma minimização das crises adolescentes que, se não acompanhadas, podem virar ansiedade, depressão. Suicídio. Adolescentes são babacas, a gente nunca pode esquecer isso. E justamente por isso, precisam de atenção (mas com privacidade), precisam de respeito (mas com responsabilidade), precisam de identificação (mas sem virar massa de manobra). Não é fácil e se houvesse fórmula pronta, já estava à venda no Ebay. Mas não é para ser fácil e esse é um dos motivos que ainda me faz não querer ter filhos.

12 — Aos dezesseis anos, o carro em que estava a Saionara bateu e ela morreu. Foi uma tragédia na escola. As aulas foram dispensadas para a despedida. Eu não conhecia a Saionara, mas ouvi que ela estava grávida, que ela estava bêbada, que ela morreu porque não estava em sala de aula e todos os tipos de boatos que podem inventar sobre um acidente e uma menina morta. Foi horrível e, de alguma forma, eu fiquei triste por não saber quem era a Saionara e não poder defender a memória dela. Adolescentes são babacas.

13 — Grand finale: vamos morrer. Eu defendo que todos nós morremos um pouco durante a adolescência. Metaforicamente, é claro. É parte do processo de amadurecimento, morrer e entristecer tanto a ponto de não voltar a ser como antes. Em alguns casos, o morrer é literal. Sinceramente, duvido que alguém nunca se flagelou ou pensou em suicídio ao longo da vida. É mentira quem disser que nunca. Todos já pensamos nisso, todos já repelimos isso. Mas está aí, a dor, a morte, o abuso, tudo está aí e fingir que não existe ou “queimar todas as rocas do reino” não vai adiantar. Em algum momento, nós ferimos o dedo na agulha. Vai doer, às vezes muito, a ponto de pensarmos em caminhos para nunca mais doer de novo. Olá, meu nome é Elsa e eu já pensei em me jogar do prédio, na frente de um ônibus, enfiar a cabeça no forno. Nunca pensei em me cortar porque eu tenho fobia de sangue, mas enforcamento também era uma alternativa. Daí passou. Aos 17 anos, no entanto, meu tio se matou. Ingeriu todos os comprimidos para epilepsia de uma vez só, com uma garrafa de bebida. Foi parar no hospital e de lá nunca mais saiu. O atestado de óbito diz “pneumonia”. Eu digo suicídio. Ele queria morrer. Ele conseguiu. Depois que ele fez isso, em 2006, demorou até a ideia voltar para minha cabeça. Quando ela voltou, eu busquei ajuda. Deu certo, estou aqui. Nem todo mundo consegue. Nem todo mundo vai conseguir. Mas a gente precisa falar sobre isso.