A Copa das Copas

1994. Plano Real. Eleição. FHC eleito. Volta um pouco.
Ano de Copa do Mundo.

Em 1994, tinha eu apenas cinco anos de idade. Era a minha primeira experiência consciente do que era o maior espetáculo do futebol.
F-U-T-E-B-O-L. Menina nascida, caguei para o que diziam e sempre gostei de futebol. Era meu momento com meu avô. Ele, corintiano. Eu e minha avó, são paulinas.

Culpa dele que não me deu aquele caralho daquele adesivo holográfico do Corinthians, brinde da Revista Placar em agosto de 1993. Tinha quatro anos, gostava de futebol, de adesivo, do meu avô e, até então, do Corinthians. Não me deu. Minha avó, comovida, tirou do armário uma caneca do São Paulo e pronto. Não tinha mais jeito. Se tinha algo que eu gostava mais que adesivo, era caneca. Se tinha algo que eu gostava mais que presente do meu avô, era presente da minha avó. Estava feito o estrago. Nunca mais eu torceria para o Corinthians ao lado dele.

Avança, eu estava em 1994. Voltemos. 1994, Copa do Mundo nos EUA. Eu não entendia o que era EUA. Mas eu sabia quem era quem: Taffarel, Bebeto, Romário, Dunga, Branco… até do Cafu eu lembro. Lembro também que tinha um trato com o Velho Imbó: ver todos os jogos do Brasil juntos.

E assim vimos todos os jogos, até o dia 17 de julho de 1994. Final: Brasil e Itália. Ele, filho de italiano, coração dividido. Eu queria vê-lo feliz, mas no fundo, era canarinho até o fim. Eis que surge o caos: castigo. Meu pai não me deixou ver a final. Não lembro o motivo (nem ele, eu perguntei). Provavelmente, eu dei trabalho para comer. “Não é não” e foi assim que eu passei mais de 90 minutos debaixo da cama, chorando.

Eis que surge o caos²: a final da Copa do Mundo, minha primeira Copa consciente, seria disputada nos pênaltis. E eu não iria ver. Choro mais. Vi o Baggio errar aquele chute centenas de vezes depois, mas nunca vou saber como foi ver ao vivo. Chorei ainda mais sentida, enquanto fogos de artifício, gritos e lágrimas de alegria já tinham tomado os rostos de todos na casa, na rua. No país.

É TETRA. É TETRA. Galvão abraça Pelé. Pelé abraça Galvão. A TV do vizinho tinha delay e ainda ouvia, de debaixo da cama: “TAFFAREEEEEELLLLLL”.

Não queria sair dali debaixo. Me chamaram, mas não fui. Estava arrasada. Eis que surge a cabeça calva e a boca banguela do meu avô. O Velho Imbó tinha dobrado os joelhos (coisa que ele nunca fazia) para ir me tirar de lá. Não saí. “A próxima Copa a gente vê juntos, todos os jogos, até a final”, ele prometeu.

Quatro anos se passaram. Oitavas de final. Brasil e Chile. Achei realmente que iria ver o jogo com o meu avô, como havíamos feito até então. Ele não gostava da transmissão dos jogos na França. Era sábado de manhã e o Brasil faria quatro gols na seleção chilena. Levaria um. Levaria as quartas, a semi. Não levaria a final.

Mas eu nem me liguei disso, porque no dia que o Chile perdeu do Brasil, eu perdi meu parceiro de futebol. Saí no sábado de manhã e a última coisa que lembro foi de me esticar no corredor para alcançar a barba serrada que ele tinha feito logo cedo. Dei um cheiro no velho e saí. Sem saber que ele não estaria lá quando eu voltasse. Nunca mais.

Ele morreu antes de eu voltar para casa, no carro, indo para o hospital. Sem tchau, sem jogo do Brasil, sem terminar de ver a Copa do Mundo comigo. Foi embora sem cumprir a promessa de ver uma Copa inteira ao meu lado. Nunca mais.