Dos achados nos e-mails

Carta de justificativa para Bolsa de Jornalismo Cultural e Cinema da Sociedade Gabriel García Márquez.

Chovia no sábado que eu nasci. Mal sabia Dona Abadia que teria uma filha jornalista. Naquela época, a maior preocupação era o registro do meu nome: Elsa Nathália Nunes von Villon Imbó.

Com um nome desse tamanho, obviamente as letras seriam minha sina. E assim o são, até hoje. Formada em jornalismo, estudante de cinema, vivo entre livros, letras e frames, buscando nas palavras o que não consigo fotografar e nas fotos e filmes o que não consigo escrever.

Isso desde sempre. Desde quando consegui desenhar as letras do pote de farinha pela primeira vez com um caco de tijolo no chão de concreto no quintal de casa. Ou quando queimei um filme de 36 poses da câmera do meu avô, curiosa para saber como as fotos entravam lá dentro e saíam grandes e coloridas.

Hoje eu sei — sei escrever, fotografar, sei o que é cinema, o que é literatura e o que é jornalismo cultural. Sei que a vivência e a troca de informações — sem juízo de valores — são as ferramentas mais ricas das quais um fotojornalista cultural ou um cineasta pode dispor. Sei disso por ter ido a campo, principalmente no período em que trabalhei no site Catraca Livre.

Viajei por estados brasileiros — graças também ao Projeto Rondon — conheci, entrevistei e pesquisei sobre a pluralidade cultural. Não somente na cidade de São Paulo, mas também fora do estado, na divisa entre Mato Grosso e Bolívia.

Morei com chiquitanos — indígenas brasileiros com miscigenação boliviana. Comi o que comiam, bebi o que bebiam, vivi como viviam. Cada pequena peculiaridade daquela tribo afastada não só socialmente, mas geograficamente do que julgamos civilizados — 200 km até a zona urbana de Porto Esperidião. Cidade minúscula quando comparada à megalópole São Paulo que estou habituada. Nada do que filmei, fotografei e escrevi se equipara à experiência. Ministrar oficinas de leitura para crianças e exibir — para alguns pela primeira vez — filmes para a população indígena foi apenas um pouco do vasto aprendizado adquirido com a experiência.

No ano seguinte, pude pisar em Canudos, o solo baiano que foi o cenário da Guerra descrita por Euclides da Cunha em seu renomado “Os Sertões”. A luta daquele povo ainda não terminou e mais de 110 anos depois da guerra, ainda vivem sedentos de água e justiça.

Constatei as mais variadas formas de arte no maior centro cultural da América Latina — Centro Cultural São Paulo — no período que pude usufruir de cada pedaço de seu espaço, acervo e pessoas. Que a cultura está onde as pessoas estão. Que é viva, respira e pulsa e, por essa razão, demanda cuidado. Que um mesmo espaço divide mostras de cinema, exposições, shows, simpósios, debates e street art, que escrever diariamente com e para essas pessoas é gratificante.

E uma das formas de cuidado da cultura — que respira e que pulsa — me rendeu não somente um Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo, mas um livro sobre o Maracatu de Baque Virado. Em um ano, muitas entrevistas, vídeos, fotos e livros, conheci um pouco da cultura pernambucana trazida e criada por escravos que se tornou festa e manifestação cultural. E assim continua sendo perpetuada ao longo dos séculos — quase quatro.

E como estudante de cinema, alguns dos projetos que participei: dois curtas-metragens prontos, “A torrada nossa de cada dia” e “Morte e Galochas”; um documentário em andamento (sobre a experiência vivida em Canudos); um piloto de série, “Quebrando a Cabeça” e um mini-documentário sobre cinemas de rua em São Paulo, com ênfase no Cine Marabá, “De Vera a Penélope Cruz”. Desde o roteiro até a pós-produção. Desde a direção de atores até iluminação e cenografia. O curso, cujo término é previsto para julho de 2014 é experimental e alternativo, o que permite erros sem enormes cobranças, e assim, fortalece o aprendizado.

A principal razão para participar das atividades é, não somente conhecer outro país, mas poder interagir com profissionais diversos que, com toda certeza, tem uma experiência rica para compartilhar. Sei que minhas viagens me trouxeram muito aprendizado e espero, com o pouco que sei, poder partilhar dessa troca incrível que o encontro proporciona. É esse o motivo que me fez estudar jornalismo, cinema e que me faz querer continuar estudando — independentemente de um diploma. A vivência empírica é um dos mais ricos aprendizados que manual nenhum — de redação jornalística ou roteiro cinematográfico — pode ensinar.

OBS: as informações são referentes ao mês de março de 2014. Muita água já rolou por debaixo dessa ponte.

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