Minhas mais do que quatro palavras finais sobre Gilmore Girls

Todo mundo tem alguma referência da adolescência que permeia sua vida de certa forma. Para alguns, foi uma viagem. Para outros, um gibi. Eu tenho Gilmore Girls. Por sete anos, tive o programa de TV, vivendo uma temporada por vez, com um episódio por semana. Em 2007, isso terminou e lamentei profundamente, mas aceitei. Afinal, Amy Sherman-Palladino — a criadora original –, já não listava dentre os nomes que assinavam o seriado.

Não vou me estender muito para convencê-los de que a obra é boa. Se chegaram até aqui e não gostam, nada do que eu disser vai mudar isso. Aos que não acompanharam as sete temporadas anteriores, recomendo que parem de ler exatamente agora. Vocês não terão a mínima ideia do que estou falando nos 16.908 caracteres publicados.

Após o final, incerto e bem melancólico, Gilmore Girls voltaria para um revival, dividido em quatro episódios com uma hora e meia de duração. Sempre torci por isso e minha felicidade estava quase completa. A morte do ator Edward Herrmann, em 2014, tirou para sempre o gostinho que essa continuação poderia ter. Mesmo assim, com as inúmeras notícias sobre a Netflix estar reunindo o elenco para o especial inédito, meu coração bateu mais forte. E o melhor: com roteiro e direção assinados por Amy Sherman-Palladino, e seu respectivo, Daniel Palladino.

Embora seja bem ortodoxa em relação a revivals, fiquei ansiosa. Muito, muito ansiosa. Tão ansiosa que aproveitei a folga do trabalho para assistir seis horas seguidas e acabar de vez com a angústia de saber que fim levaram as garotas Gilmore. E o final foi, de fato, surpreendente.

Ao longo de todo este tempo refém da Netflix, chorei e ri do mesmo jeito que fazia em 2003, quando conheci a série. E isso, minha gente, é muita coisa. Uma série que agrada uma garota de 14 anos não necessariamente agrada uma adulta (?) de quase 28. Todas as vivências, experiências e referências são outras. A percepção do mundo como um todo é outra. Não podia estar mais errada. Foi exatamente como ter 14 anos de novo.

Por isso, usei todo o meu repertório em jornalismo e cinema para descrever, com a minúcia de uma fã, os quatro episódios de Gilmore Girls — A Year In The Life. Contém glúten — e spoilers –, portanto não leia se você não quer saber o que vai acontecer até assistir. Para facilitar, vou dividir as impressões (análise é um termo muito forte e eu não tenho essa pretensão e empáfia) em quatro partes: Inverno, Primavera, Verão e Outono.

Prepare o café. Peça pizza, tacos e comida chinesa. Asse os marshmallows. Separe os filmes. Não atenda ao telefone. Vá ao banheiro. Não fale e não pause. You’ll be Gilmored.


INVERNO
I smell snow!

A ligação entre a neve e Lorelai sempre foi muito bem pontuada ao longo das sete temporadas anteriores. Para abrir o revival, nada melhor do que um cobertor macio e branco de flocos de água congelados que caem do céu.

Tudo começa com o gazebo, dois copos de café e Lorelai esperando Rory, que voltava de viagem. O familiar travelling entre os cidadãos de Stars Hollow foi um recurso bacana para relembrar como é a pequena cidade. De cara, Miss Patty já ressurge, magra e com cabelos lisos, que dão aquele aspecto meio doente. Pobre Miss Patty.

Papo vai, papo vem, um dos três celulares de Rory toca e ela vai caminhando até encontrar sinal que, coincidentemente, funciona dentro do mercado Doose’s , do Taylor, como bem sabemos. Em termos de roteiro, achei forçado demais, até porque, Lane já reaparece e joga uma série de informações sobre o Zack. Ok, eles só tinham quatro episódios para contextualizar tudo, mas forçou. Ainda assim, funcionou bem.

A história vai se desenrolando, Lorelai e Rory vão para a casa de Lorelai, que permanece praticamente a mesma. Luke está lá para as garotas e há uma enorme geladeira com um laço. Também trocaram a cafeteira de lugar. Sim, isso me incomodou, mas eu supero. Rory tem um novo namorado: Paul, um cara com aspecto bobão que é esquecido por todos e era para ser um alívio cômico, mas deu muito, muito errado. 
 
 A jornalista está em busca de trabalho, depois de um artigo bem-sucedido na revista The New Yorker. Após sair do apartamento alugado no Brooklin, suas coisas estão espalhadas em caixas, distribuídas nas casas da mãe, avó, amigos e por aí vai. Dentre estas coisas, seu vestido da sorte. Uma das ligações recebidas é de uma jornalista inglesa, uma feminista excêntrica e arrojada (até demais). A nova personagem é o motivo de muitas idas e vindas à Londres. A ideia é escrever uma biografia a quatro mãos, mas Rory também analisa outras possibilidades de trabalho. Logan volta à jogada, o que me deixou muito puta (Rory ainda não terminou com o Paul e, convenhamos, é o Logan de novo!).

Enquanto isso, a pacata Stars Hollow segue seu fluxo, com Taylor em busca de um novo sistema para a rede de esgoto e solicitando a compreensão e adesão de todos os moradores. Luke segue com sua lanchonete que ainda proíbe o uso de celulares, mas agora conta com wi-fi. E a melhor parte é: ele sempre passa a senha incorreta aos clientes. Boa sacada, Amy!

Emily está enfrentando o luto após a morte de Richard. Para isso, conta com a ajuda de Berta, uma empregada que parece falar uma mistura de espanhol com português e inglês, mas ninguém sabe ao certo. É um dos momentos mais icônicos desta nova safra Gilmore: Emily, a senhora DAR, usando jeans e uma camiseta, se livrando de tudo dentro da casa, com Berta e toda a sua família encaixotando coisas. Marie Kondo ficaria orgulhosa.

A morte de Richard também rendeu a clássica pintura já conhecida na mansão Gilmore: uma pose, elegante, pintada à óleo por algum artista temperamental. As escalas fugiram ao padrão e ela ocupa uma parede inteira, mas o que vale é a intenção. Emily cai na tristeza comum após o luto, e Lorelai bebe com ela, mandando Marie Kondo para o colo do capeta. Ela sugere então que a mãe busque a ajuda de um terapeuta nesta fase sensível.

Em termos de trabalho, enquanto Rory está em busca do emprego dos sonhos, Lorelai vive um dilema desde que Sookie saiu para conhecer novas formas de cultivo dos alimentos e abandonou a pousada nas mãos da melhor amiga, além de Michel. Eis que sua elegante cozinha é ocupada por diferentes chefs famosos como alternativa aos clientes famintos da Dragonfly Inn. Um ponto forte: Michel finalmente deixa claro que é gay. Gay e casado, e seu companheiro cogita a ideia de ter um filho. ❤

Um diálogo com Emily, após uma elipse temporal que remete ao funeral de Richard, coloca Lorelai em xeque. Ela comete uma gafe logo após o enterro, na frente da recente viúva e todos os amigos do falecido. É a deixa para uma briga homérica, quando a mãe de protagonista faz com que ela questione todas as suas escolhas. Dentre elas, seu relacionamento com Luke e a opção consensual de não ter mais filhos. Este ponto ainda vai render ao longo da trama inédita.

O episódio acaba com a ligação de Emily para Lorelai, dizendo que seguiu o conselho da filha e procurou uma terapeuta. Além de agradecer, a matriarca Gilmore consegue ardilosamente fazer com que ela participe da próxima consulta. Assim termina o inverno.


PRIMAVERA
A thousand yellow dasies?

A deixa do primeiro episódio é preenchida com Lorelai e Emily na terapia. Um longo silêncio. A discussão tradicional entre as duas. Uma profissional da saúde mental no meio de tudo isso. Uma ode aos velhos diálogos que valem a pena. Nisso, Rory está em Londres, com a inglesa maluca falando, bebendo e comendo. E claro, ainda de cacho com Logan. Um almoço entre os dois é interrompido pela presença do detestável Mitchum, o arquétipo do branco rico e manipulador. Ele reaparece e solta que Logan está noivo de Odette, uma aristocrata francesa, além de oferecer ajuda à Rory com uma reunião para um possível trabalho. 
 
 Neste ponto, Rory começa a se tornar detestável por continuar com Logan. Acho que este episódio, escrito e dirigido por Daniel Palladino, não é dos favoritos. Mesmo com as sessões de terapia e o alívio cômico promovido por Kirk, essa lenga-lenga de Rory em busca dos empregos é um pouco maçante. Quando ela vai para a entrevista com a editora de um site (meio estilo Buzzfeed), que demonstrava interesse em sua contratação há tempos, a personagem atinge o ápice de arrogância e imaturidade. Sem contar a enrolação com o Paul, que ela sempre “esquece-se de terminar”. Lorelai também não sabe do relacionamento com o Logan e, para ela, a filha fica na casa de Didi (uma amiga, não o Renato Aragão) na capital inglesa.

A primeira reunião da cidade traz vários personagens de volta e resgata muito das nostalgias vividas na primeira década de 2000. Eles tentam promover uma parada gay na cidade, mas o número de assumidos infelizmente não é suficiente para a mobilização. Além disso, vivem o problema com a hospedagem de atores de segunda linha, já que a vizinha Woodbury saiu ganhando e virou a locação de um longa-metragem com atores famosos, dentre eles, Matthew Mcconaughey e seus três jornais diários.

O reencontro de Chilton é um ponto forte, pois temos de volta Paris, maior e melhor do que nunca. Ela de fato casou com Doyle e tem dois filhos, mas é obcecada pela carreira, reforçando toda a motivação da personagem. O ex-marido de Paris é agora roteirista e badala no submundo dos seres audiovisuais. As alumni do colégio são palestrantes da nova safra de mentes brilhantes da juventude norte-americana. Dois personagens desta época também retornam: Tristan e Francie. A cena do banheiro com a líder das Puffs é emblemática.

Enquanto isso, em Stars Hollow, acontece um dos excêntricos festivais, desta vez, com a culinária de todos os países. Ou, ao menos, 15 deles. A Sra. Kim dormiu em formol, porque continua exatamente igual. E uma das surpresas mais agradáveis é o Sr. Kim. Sim, a Lane tem um pai e ele aparece neste episódio.

A noite do Black & White & Read Movie também surge revigorada, e mostra vários dos atores secundários em ótima forma. Kirk, como sempre, é brilhante, acompanhado de Lulu. A banda de Lane também aparece em peso, assim como Babette e Monroe. Os velhos tempos voltaram. Inclusive entre Lorelai e Luke, com segredos entre eles.


VERÃO
Those Lazy, Hazy, Crazy Days of Summer…

Informações importantes: Rory não consegue nenhum, eu disse, nenhum dos trabalhos anteriores. Por isso, volta para Stars Hollow. Rolam inúmeras piadas com a turma dos 30 anos que volta para a casa dos pais. Enquanto isso, suas caixas continuam espalhadas aos quatro ventos.
 
 Lorelai continua na terapia, mas escondendo esta informação preciosa do Luke. Assim como Luke omitiu o fato de que, com o dinheiro herdado de Richard para construção do império de franquias do Luke’s, ele e Emily passaram uma manhã inteira procurando oportunidades de imóveis que renderiam novas lanchonetes. É uma parte bem intensa, pois revira muitas memórias do ancião Gilmore e, com isso, desperta a viuvez plena de Emily. Esta, aliás, permanece com a mesma empregada, Berta, além de seus familiares. É um marco e tanto.

Uma reunião na cozinha das garotas Gilmore também traz de volta April, a filha de Luke. A pequena cientista cresceu e conseguiu bolsa de estudos no MIT, fumou maconha e conheceu Noam Chomsky. Sua presença cria novamente a muralha que separa as vidas do casal.

Enquanto isso, em Londres: Logan continua sendo o boa praça de sempre, atendendo as ligações de Rory (cada vez mais intensas), mesmo que sua noiva, Odette, esteja morando com ele. Os dois chegam a combinar de se encontrar para fins de cópula e, sinceramente, esta parte novamente me desaponta: destaca aquele lado de Rory sem nenhuma empatia e sororidade, a que não apenas fica com o cara de outra mulher, mas não vê problema nenhum nisso.

Já na cidade de Connecticut, as coisas não vão muito bem: existe uma piscina comunitária para aliviar o calor, as receitas em turismo continuam caindo e o Stars Hollow Gazette vai acabar, por conta da aposentadoria de seu editor-chefe. E chega com o anúncio da produção de um musical local, sobre a história de Stars Hollow, com objetivo de aumentar a arrecadação municipal. Lorelai segue com sua participação nas atividades da cidade e integra o comitê que vai avaliar o espetáculo em primeira mão.

No maior estilo Museu de Stars Hollow na casa do Velho Tickham, a prévia acontece. Sim, um musical, com atores cantando e dançando. É bizarramente tosco e engraçado, e segue todo o contexto histórico trabalhado nas temporadas anteriores.

A coreana roqueira mais querida, Lane, prova mais uma vez ser uma baita de uma amiga, quando arranca o celular da Rory, enquanto ela fica com este chove e não molha com o Logan. O foco muda quando o assunto é a carreira dela, e a jornalista decide assumir o posto de editora-chefe do jornal da cidade. Com a ajuda de Lorelai, distribui a primeira edição da publicação sob seu comando.

Das cinzas, tal como uma fênix, ressurge Jess. O ex-namorado e sobrinho do Luke entra em cena como um bom amigo e lança: “Por que você não escreve um livro, Rory?”. Baita sacada. Ela comenta isto com a mãe, que passa por aquela senhora crise com Luke, o luto de Emily, agora buscando voltar à ativa com as reuniões do DAR e um novo amigo, o anúncio da saída de Michel da Dragonfly Inn, e esta briga com a Rory.

O final do episódio pode ser resumido com Lorelai fugindo para as montanhas. Sim, ela vai fazer a peregrinação Livre (Wild — do original em inglês), livro e filme inspirados na história de Cheryl Strayed, que após a morte da mãe e um casamento fracassado, compra um par de botas, uma mochila gigante recheada de livros e mete a louca para fazer rota Pacific Crest Trail, cerceando a costa oeste dos EUA pelas montanhas.


OUTUNO
Winter, spring, sumer or fall
All you got to do is call

Já nas montanhas, Lorelai passa por aquele clássico dilema: como enfiar tudo isso dentro da mochila. É um momento solitário, introspectivo, ela por ela mesma. Um dos momentos mais melancólicos e bonitos — a personagem está só, sozinha, sem referências. Na trama, há o contexto dela sair de casa após engravidar aos 16 anos, mas isso nunca foi visualmente mostrado. Ela está sempre rodeada do familiar, pessoas queridas, Rory, Luke, Sookie, seus pais… Enfim. Aqui é quando ocorre a catarse de parar e pensar em tudo que aconteceu ao longo de sua existência (talvez tenha me remetido às vezes que viajei pela faculdade e me vi longe de tudo que era familiar, quando, de fato, refleti sobre minha vida).

Enquanto isso, Rory segue tocando o jornal da cidade e escrevendo o seu livro. Eis que sinais estranhos e assustadores começam a surgir. IN OMNIA PARATUS. Sim, eles voltaram: Logan, Colin, Finn e Robert voltaram com suas máscaras de gorila e estilo dandi. Rola um momento “With a little help from my friends” e os brancos, ricos e inconsequentes atacam novamente. Desta vez, em um clube de tango. Rory e Logan, mais uma vez, juntos, como nos tempos de Yale. Com a manhã, chega a despedida e o herdeiro do legado Huntzberger precisa voltar à Terra da Rainha, para os braços de sua noiva.

Na lanchonete Luke’s, o proprietário segue sua rotina atrás do balcão, pensando em todas as possibilidades que levaram Lorelai ao mato. Jess ressurge, desta vez para aconselhar o tio. É incrível a evolução do personagem ao longo de toda a série, mas nestes quatro episódios, ele é simplesmente o cara mais legal do mundo. Por alguns momentos, você até esquece que ele foi um babaca no passado (e também não é assim na vida?). Ah, Dean também aparece na trama novamente. Sua rápida passagem encerrou bem a história com Rory.

Já Emily segue superando o luto, com o amigo de longa data, Berta, e toda a família da empregada. Entre idas e vindas à Nantucket, conhece um museu da baleia e fica encantada. Foco nisso, vai ser importantíssimo na história. Além disso, seu desfecho no DAR é simplesmente icônico.

Lorelai segue sua peregrinação e, após tentar subornar um guarda-florestal, seu momento Wild chega ao fim. Mas antes disso, Amy Shermann-Palladino coloca a cereja no bolo, com uma ligação e uma epifania sobre Richard Gilmore. Difícil segurar o choro, mas eu não sou bem uma referência neste aspecto.

Por fim, Lorelai retorna para ter a conversa decisiva com Luke. O papo-reto entre os dois é emocionante, digno de um final de seriado, portanto, não vou estragar. Ela também recorre à mãe para pedir dinheiro emprestado, com destino certo: uma extensão da pousada, que garante a permanência de Michel. O momento não poderia ser melhor: Emily está vendendo a casa em Hardford e vai se mudar definitivamente para Nantucket. E outra mulher forte retoma seu posto: Sookie está de volta!

O desfecho vai encerrando todos os ciclos dos personagens. Gilmore Girls — A Year In The Life termina exatamente onde começou: com Lorelai e Rory no gazebo. Paul finalmente termina com Rory, após um ano de enrolação da parte dela.

E as quatro últimas palavras realmente são inesperadas: “Fica, vai ter bolo”. Mentira, não são essas, mas vale assistir até o final. GG- Um ano para recordar é, sobretudo, memorável.