Sobre a falta que faz um Plano B ou sobre as desventuras de um homem comum
Sabe aqueles trabalhos que determinam se você continua o próximo semestre ou se vai repetir tudo de novo? Eu até tinha começado com certa antecedência, porém deixei SÓ o último capítulo pra depois. Na data da entrega eu ainda não havia terminado a última parte, mas tudo bem, eu tinha tempo. Saía às 17h do trabalho e minha aula só começava às 20h. Levando em conta o tempo que eu levaria no caminho trabalho/casa e depois casa/faculdade eu tinha 1h30min para concluir o último capítulo.
Cheguei em casa, liguei o computador, abrir meu trabalho e uma aba do Google Chrome. Foi aí que aconteceu. MEU TECLADO PAROU DE FUNCIONAR! Eu enfiei em tudo ‘quanté’ porta USB que tinha na CPU e nada das luzinhas de ‘Num Lock’ ou ‘Caps Lock’ acenderem. Nenhuma letrinha sequer no meu monitor. No dia anterior, eu recusei um notebook meia-boca da ASUS por ‘duzentos conto’. O Universo já previa o que iria acontecer e me enviou aquele notebook, mas eu recusei.
Sem muito tempo para pensar, fui pra faculdade na esperança de usar os computadores da biblioteca, mas, como já havia previsto Edward Murphy sabiamente tempos atrás, se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. Assim, naquele dia, justo naquele dia, o sistema da biblioteca estava fora do ar e por isso os computadores não estavam funcionando. Sem tempo pra tentar entender o que uma coisa tem a ver com a outra, liguei pro coleguinha já desesperado: “Cara, já tá vindo pra facul? Trás o not aí que eu ainda vou terminar meu último capítulo”. Quando o coleguinha chegou já não dava mais tempo de escrever, o último capítulo sairia no bom e velho Ctrl+C e Ctrl+V.
Botei o notebook na mesa e antes de abrir meu trabalho no pendrive o notebook desligou!
“Como assim? Porréessa?”
“Í cara, esqueci que o not tava descarregado. E o foda é que eu nem trouxe o carregador.”

Corri pra sala e saí mendigando um notebook pra todo mundo. “Não tenho”, “Não trouxe”, “O meu tá com a minha irmã”, “Não dá, tô terminando meu trabalho ainda”, “O meu ficou no carro”, “Já viu esse vídeo do gato falando ‘Oh Long John’?”.
Desci no refeitório e abordei a primeira moça que tinha um notebook aberto na mesa. “Moçalicençaéqueeutenhoumtrabalhopraterminarpraontemequeria teperguntarsevocênãomeemprestaseunotebooksóumsegundinho”. Ela riu e me deixou usar o notebook dela. Copiei a primeira pesquisa que apareceu depois do Wikipédia e joguei no trabalho. Ufa! Transformei tudo em PDF e gravei no CD.
Tirei 4,2 num trabalho que valia 7,0 pontos.
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No quartel, do praça ao oficial, a preocupação com o cumprimento dos horários é unânime. Não havia quem não temesse chegar atrasado num dia de serviço, por isso muitos optavam por dormir na caserna, como diziam.
Depois de passar uma noite em casa — ou parte dela, dada à hora que era preciso levantar — eu pegava o 383 que ia até a Rodoviária do Plano Piloto e de lá, tomava outro ônibus que me levaria até o quartel. Havia um ponto no meio da Estrada Estrutural, por onde o ônibus passava, onde uma meia dúzia de carros, os chamados ‘caronas’, fazia o transporte — irregular, é claro — dos soldados até o 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, o RCG. Quem é de Brasília sabe que a maioria dos ônibus que atravessam a via Estrada Estrutural passa próximo ao Setor Militar. Porém, o 1º RCG fica muito distante dos demais, depois da curva onde Judas perdeu as botas. Assim, ao invés de seguir de ônibus até a Rodoviária, nós do 1º RCG, descíamos no ponto em meio a Estrada Estrutural e pegávamos um atalho com um dos caronas. Ex-soldados em sua maioria. Esse trajeto alternativo rendia quase quarenta minutos de sono em casa e quarenta minutos de sono para quem está servindo as primeiras semanas num quartel valem mais do que sexo.
Certo dia, descendo no ponto da Estrada Estrutural, não havia nenhum carona. O Detran tinha feito uma batida e barrado todo e qualquer veículo que embarcasse algum soldado. A viatura até pediu reforços porque os soldados que ali estavam, ameaçaram atacar os agentes. Eu entrei em pânico. Não havia mais tempo de tomar outro ônibus até a Rodoviária e de lá, outro. Eu ia chegar atrasado. Vi gente, ainda mais desesperada que eu, sair correndo pelo canteiro da pista a tempo de chegar antes do som da corneta. Por muito pouco não fiz o mesmo.

Quem já serviu no ano obrigatório, sabe a merda que dá chegar atrasado num dia de serviço. No RCG, um atraso acarreta num fim de semana inteiro lavando éguas e cavalos. Ou pior, a cadeia. Corri até o semáforo mais próximo pedir desesperadamente que alguma alma caridosa me levasse até o quartel, mas acabei assustando a maioria dos motoristas com a minha afobação.

Até que, esfregando uma nota de cinquenta reais nos para-brisas dos carros, um senhor aceitou me levar. “Moçopeloamordedeusmedeixaalino1ºRCGqueeuto deserviçohoje!”.
Cheguei a tempo.