“It practically writes itself!”

Outro dia eu visitei a casa do Gregório Duvivier. Durante muito tempo relutei em entrar, porque já tinha passado em frente algumas vezes e a fachada já tinha me dito tudo sobre o que eu encontraria lá dentro:

“Abandonai toda a esperança…”

Mas recentemente andei ouvindo como que uns borborigmos na internet que soavam como “Gregóóório, Gregóóório” e a curiosidade pôde mais que a repugnância: decidi entrar. Agora, depois da visita, venho aqui deixar minhas impressões — mas talvez antes eu precise explicar como isso aconteceu:

A pessoa que escreve se expõe para quem lê. Querendo ou não, nas linhas ou entrelinhas, ela nos dá algum acesso ao seu coração e nos franqueia a entrada para os salões da sua mente. Ao aceitarmos o convite (ao lermos um texto de alguém), somos apresentados à visão de mundo de quem escreve, podemos inferir a extensão dos limites da sua cognição e formar juízo sobre o bom ou mau gosto, a riqueza ou a penúria da casa mental de quem escreve, sobre a profundidade dos alicerces que sustentam o lugar e até sobre as escolhas da decoração. Em minha visita à casa do Greg pude formar uma imagem dos aposentos mentais onde ele vive, e embora você não tenha perguntado, eu vou dizer o que achei do que vi. Visitei três cômodos lá: o cômodo das crônicas de jornal, o cômodo do trabalho intelectual acadêmico e o cômodo da poesia.

Vamos começar por este último.

Antes de mais nada, precisamos de uma definição de poesia para podermos aferir a qualidade do que vamos encontrar. Há muitas definições possíveis para poesia, e embora a minha favorita seja a de Wallace Stevens (“poesia é a iluminação de uma superfície”), escolhi outra, que se mostrará mais útil para o trabalho que nos aguarda: Segundo Laurence Perrine (1915–1995), escritor norte-americano e professor de literatura , “Poesia é linguagem concentrada em sua forma mais potente”.

Com essa definição, podemos finalmente limpar os pés no capacho e entrar na casa do Greg para nossa inspeção, tarefa para a qual selecionei alguns trechos de poemas dele (que chamo carinhosamente de “besteirinhas”). É evidente que tentar analisar a obra de um poeta apenas por trechos de poemas retirados do contexto seria algo temerário… mas no caso das besteirinhas do Greg não tem problema (além do que, uma colherada basta para saber se a sopa presta):

1) “se eu fosse um faraó do egito antigo(…)”

2) “se o leite desnatado por acaso caísse

da sua mão no chão da seção de laticínios

bastava para eu enxugar o piso encharcado

de batavo e perguntar seu nome e fazer

alguma piada envolvendo a expressão chorar

pelo leite derramado e nós dois teríamos

uma longa-vida(…)”

3) “(…)você é a última dos moicanos no pacote

de jujubas a cereja do bolo no topo

do milk-shake de creme de la crème

brûlée aquela música do cole porter

o topo do top de todos os pokémons

você é aquele que me diz calma tá tudo

bem agora você é o meu beatle preferido

tem dias em que é o george e dias em que

é o paul e dias em que é o chico buarque(…)”

4) “(…)sabe que — açaí - no fundo — açaí — eu acho que o nome dele era — olha — waldo mesmo — o mate — porra tu — guara plus — tacou spray — guara plus - no meu olho — o waldo — mate — ele mesmo então morreu — olha o mate — para morrer meu amigo — mate — basta estar vivo.”

Pronto. Por essas amostras, já podemos responder à pergunta: “Qual a extensão dos horizontes intelectuais e estéticos do Greg? Qual o tamanho da casa mental dele?”

R: O Greg mora num puxadinho.

  1. “Faraó do egito antigo” é uma descrição preguiçosa e pleonástica. Em termos de personalidade, de individuação da experiência, “faraó do egito antigo” está para a poesia como um porta-retrato da Tok&Stok com foto de banco de imagens está para um quadro de Manet. Faça a experiência você mesmo, fale em voz alta “faraó do egito antigo” e tente não pensar em algum episódio do Chapolim ou dos Trapalhões com muita cadeira de isopor e papel machê. Além disso, em um poema de verdade, usar minúsculas para nomes próprios seria uma escolha consciente, integrada ao plano geral do poema. No caso do Greg é mera afetação, termo que descreve perfeitamente a tônica da empreitada desse pateta de boné de hélice.
  2. No poema seguinte, Greg menciona a expressão “leite derramado” e imagina se o casal teria uma “longa-vida”, o que evidencia de imediato o seu ambicioso projeto poético: dar continuidade à sequência de contribuições vanguardistas do Brasil à poesia mundial com o “poema pavê-ou-pacumê”. Quase dá para ver o motorzinho imaginativo do Greg em corte transversal, os pistõezinhos a toda, superaquecendo, dando tudo de si para produzir uns trocadilhos infames de tiozão no pós-almoço com a família no domingo… Aproveito para chamar a atenção para a sensibilidade plasmada nesse poema de amor frustrado (o amor e o poema), pois trata-se de uma novidade no panteão de eus-líricos da poesia nacional, quiçá mundial: o “virjão existencial” ou popular “cabaço”, o tipo de sensibilidade que em 2015 cogita usar a expressão “chorar pelo leite derramado” como exibição de charme e prova de wit.
  3. No poema seguinte temos uma brincadeira cuja estrutura lembra formas poéticas como o renku japonês ou exercícios como o cadavre exquis dos Surrealistas franceses, em que blocos semânticos desconexos são unidos por palavras compartilhadas. Mas como é o Greg quem está escrevendo, todos os termos usados são lugares-comuns, associações diretas e simples que até um caminhão de gorilas com luvas de boxe descendo uma ladeira durante um terremoto conseguiria escrever, começando por “última dos moicanos” e seguindo por referências tão carne-de-vaca que o livro no qual essas besteirinhas aparecem seria queimado em praça pública em Nova Déli por blasfêmia. Uma olhada rápida nesse e em outros poemas nos dá o tom da decoração da casa mental do Greg: Pokémon e o meme do Entei, os Beatles, revistinhas do Cascão, iPods, Star Wars, miojo, o cigano Igor, Chico Buarthnppkjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj. Desculpem, tive um ataque narcoléptico ao digitar essa lista e bati com a testa no teclado. Mas continuando: À vista desses exemplos, faz todo sentido que o livro de besteirinhas do Greg se chame “Ligue os Pontos”, já que ele é a personificação literária da imaginação sem tônus, incapaz de qualquer esforço para além da referência mais imediata, o mero reconhecimento “liga-pontos” que é a fonte de distração e deleite dos bebês, pessoas com cromossomos extras e nerds tóxicos que precisam trocar de cueca cada vez que o Sheldon diz “Bazinga!”
“Um valor mais alto se alevanta.”

4. A besteirinha seguinte é a minha preferida e é também a mais irritante. É a minha preferida porque nela o Greg faz um trocadilho entre “mate” (a bebida) e “morrer”, e esse nível de inocência ignorante chega a ser adorável, como um hamster com uma guitarrinha de brinquedo. E é a que mais me irrita porque é impenetrável à crítica: a mecânica quântica nos mostra que qualquer evento muito pequeno escapa às tentativas de medição completa, e a astrofísica nos fala dos buracos negros, objetos astronômicos tão densos que nada escapa deles, nem mesmo a luz. Essa besteirinha do Greg é tão ínfima e ao mesmo tempo atinge uma densidade de estupidez tal que se torna impossível criticá-la. Só me resta repetir factualmente o que acontece no texto e pedir para que vocês leiam em voz alta na esperança de que a enunciação conceda um vislumbre do vácuo absoluto em que essas besteirinhas são cometidas. Vamos lá, um dois três e: Nesta besteirinha, Gregório Duvivier faz um trocadilho entre “mate” (a bebida) e “morrer”.

“para morrer meu amigo — mate — basta estar vivo.”

Obviamente o problema aqui não é a escolha de temas comuns da experiência cotidiana. Muitos poemas transfiguram temas banais em jóias eternas da experiência humana compartilhada. Por exemplo, Murilo Mendes tem um poema chamado “Metafísica da Moda Feminina”, que trata dos artifícios de beleza da mulher. Nas mãos de um poeta, esse mote banal serve de trampolim para explorar e cantar os dois marcos psicológicos que nos acompanham desde o aparecimento da consciência humana no planeta e que estarão conosco até que ela se apague: o sexo, de onde viemos, e a morte, para onde vamos.

Não, o problema é que falta lastro intelectual e emocional ao Greg para fazer qualquer coisa que não seja arremedar o Woody Allen com vinte anos de atraso. Os artefatos mentais de memória e associação dele são como aqueles produtos bregas que se compra em free-shop para apartamento de solteiro, e o nível aparente de esforço despendido na execução dessas besteirinhas faz pensar em um chihuahua empolgado com uma coleira muito curta rodando em volta de um poste. Voltando à definição de Perrine, se poesia é linguagem concentrada, somos forçados a concluir que botaram muita água no feijão dos poeminhas do Greg. A ele faltam não só os recursos como também a força imaginativa para usá-los, se os tivesse. No poema “Dare you see a Soul at the White Heat”, Emily Dickinson usa a metáfora da forja para se referir à alma humana. Se a pressão e o calor imensuráveis da forja da alma do poeta geram diamantes, o microondinhas da alma do Greg não esquenta nem um brownie de maconha.

À esquerda, a poesia segundo Keats (“The Well-Wrought Urn”, Cleanth Brooks); à direita, a poesia do Greg.

Bonus track: Uma última besteirinha, que reproduzo na íntegra por servir esplendidamente ao nosso trabalho de médicos forenses da alma:

sobre a exaustão das retinas

ja não me diz nada um por do sol em cancun

e um coqueiro em alto-mar já vagou por protetores

de tela demais para me causar qualquer sensação

de bem-estar; os casais parisienses que habitam

calendários já não me dão sequer vontade

de ir a paris assim como não me comovem

mais as crianças de sebastião salgado nem

a menina que foge do ataque do napalm

e que em breve estampará cangas e biquínis;

as imagens estão gastas e não há nenhuma

que erga pontes como a palavra que.”

Como o já mencionado chihuahua ávido, o Greg persegue aqui um tema um bocadinho mais denso: o desgaste da imagem na era da reprodutibilidade técnica nananan etc, sem se dar conta de que, por sua vez, esse mote também já se exauriu ali pelos anos 60, dando lugar, nas últimas duas décadas, à questão da fadiga de informação (imagino que em uns vinte anos ele vá apresentar uma besteirinha sobre isso, quando os artistas de verdade estiverem às voltas com questões como a dissociação do eu nas redes neurais ou qualquer coisa assim. Aguardemos). Os resultados desse exercício em meta-futilidade são tão adoráveis quanto previsíveis. Greg, tendo ouvido o galo cantar sem saber onde, chega atrasado na cena (esse aliás é um tema em sua vida, cfe. Woody Allen) e, na afobação, comete a besteirinha anódina acima. É tudo tão pro forma e sem vida (o que em inglês se chama “paint by numbers”) que me pergunto se na verdade não estou diante de outra inovação formal do Greg: o poema-bingo, um simulacro construído por partes, feito por uma alma que quer muito se enturmar e que julga poder atingir os mesmos resultados dos seus ídolos marcando itens em uma lista: tema reconhecível como “tema poético”, comentário social vago, imagens que a ninguém ocorreria terem perdido sua força original simplesmente porque nunca tiveram nenhuma (alguém algum dia já foi realmente tocado pelas “crianças de Sebastião Salgado”?)… O resultado é uma gororoba de sensações requentadas, de motivação dúbia e execução perfunctória. É isso que acontece quando alguém que nasceu com alma de publicitário tenta fazer arte. Em termos de esforço e resultado, é como ver um cachorro andando nas patas traseiras: no final, ainda é só um cachorro imitando um ser humano, algo que não significa nem serve para nada além de sua própria existência e que não se pode levar a sério sem risco de cair no grotesco.

Colocando em termos que até o Greg consegue entender, “um poema é a maior viagem”. É uma viagem motivada pela esperança de toparmos com grandes cenários, imponentes paisagens de idéias e emoções, uma viagem cuja extensão é medida em conhecimento e cuja profundidade é medida em sabedoria. Infelizmente o nosso Greg passeia muito pouco. As viagenzinhas desse turista da existência são ali do Leme ao Pontal, e olhe lá. Seu horizonte de atenção, suas obsessões, os lugares que ele nos leva a visitar, tudo é muito bobinho e próximo e já-visto. Suas besteirinhas qualquer-nota são fruto da boçalidade enamorada de si mesma, que toma seus próprios limites e interesses como o limite da realidade e contribui para o rebaixamento do nível geral de expectativas e realizações, uma personalidade que Ortega y Gasset definiu em “A Rebelião das Massas” com o termo “jovenzinho satisfeito”:

(…)Este repertório (…) fez com que pensássemos em certos modos deficientes de ser homem, como o “menino mimado” (…) Este personagem, que agora anda por toda a parte e onde quer impor sua barbárie íntima, é, com efeito, o garoto mimado da história humana.(…)Isto, penso, faz ver com suficiente clareza a anormalidade superlativa que representa o “mocinho satisfeito”(…). Porque esta é a tônica da existência neste tipo: a inseriedade, a “piada”. (…)No início, distinguíamos o homem excelente do homem vulgar dizendo que aquele é o que exige muito de si mesmo, e este, o que não exige nada, apenas contenta-se com o que é e está enamorado de si mesmo.
A boçalidade enamorada de si mesma.

A essa altura alguém poderia dizer que eu não entendi a proposta dessa empreitada, que essas besteirinhas são apenas uma expressão de humor, exercícios leves da tal descontração carioca, e que jogar sobre elas todo o peso de um arcabouço teórico seria simplesmente não entender a piada.

Bom, antes de mais nada, este pequeno passeio à volta do quartinho de empregada do Greg está longe de ser uma análise criteriosa formal. O único motivo de este texto ter ficado tão grande é o fato de que a refutação de uma asneira necessariamente tem que ser mais extensa que a asneira proferida. Nas besteirinhas do Greg não há nem substância suficiente para uma análise séria, pois elas não passam de prosa rala com quebra de linha: “já não me diz nada um por do sol em cancun e um coqueiro em alto-mar já vagou por protetores de tela demais para me causar qualquer sensação de bem-estar; os casais parisienses que habitam calendários já não me dão sequer vontade de ir a paris assim como não me comovem mais as crianças de sebastião salgado nem a menina que foge do ataque do napalm e que em breve estampará cangas e biquínis; as imagens estão gastas e não há nenhuma que erga pontes como a palavra que”. Isso não é nem sequer prosa poética (a última cidadela dos sem talento), é só prosa chata. Eu aqui só estou chamando a atenção pro reboco rachado das paredes da casa do Greg, pras manchas de infiltração no teto, pro futumzinho de mofo (não adianta abrir as janelas — elas dão pro pátio interno, abandonado e cheio de lixo)…

Tudo isso é prosaico, diluído e — mais uma vez — chegou atrasado: Paulo Leminski já fez esse tipo de coisa, mas pelo menos o Leminski tinha um puta bigodão que ofuscava sua indigência poética e exercia uma estranha influência magnética nos editores (tanto que hoje em dia é o bigodão e não o Leminski quem estampa a capa do livro que a Companhia das Letrinhas lançou há algum tempo). Mesmo quando removemos as besteirinhas do Greg da parte funda da piscina e colocamos pra brincar na piscina infantil o resultado ainda é desalentador: uma lida rápida nos poemas infantis de Vinícius de Moraes ou nos limeriques de Edward Lear já demonstra a desigualdade intransponível de sensibilidades e de domínio técnico.

Chegamos assim a mais essa contribuição do Greg à poesia mundial, junto do poema-bingo e do poema pavê-ou-pacumê: o “poema prosaico”, honroso sucessor de nossas contribuições anteriores, o poema-piada e a poesia concreta (esta última, aliás, ao se concentrar na mancha do poema, quis apresentar como algo revolucionário e significativo o que não passava de uma brincadeira conhecida há séculos, como um índio que recebesse um trabuco de presente e, ao ser informado de que se tratava de uma arma, imediatamente o arremessasse contra alguma anta próxima. O Brasil inteiro cabe nesse acontecimento: está lá a humanidade há séculos construindo catedrais de idéias e emoções complexas e aí nós chegamos charmosamente atrasados e fazendo alarde por brincar com bloquinhos de letras).

De qualquer forma, fica aqui minha sugestão para a próxima capa e título do livro de poemas do Greg, para que ele possa se beneficiar do magnetismo residual das guedelhas do Leminski e assim, quem sabe, ter uma chance melhor de figurar nos livros-textos do MEC e complementar os pixulecos da Rouanet:

De tudo isso, só lamento que tenha sobrado para o Paulo Henriques Britto, tradutor façanhudo e grande poeta, a saia justa de escrever uma recomendação para o livro do poetastrículo da vez. George Orwell chamava essas recomendações de “besteiras nojentas”, e com bons motivos: não passam de tentativas pouco sutis de capitalizar em cima do prestígio de alguém para aquecer as vendas. Pelo menos neste caso o resultado valeu a pena, pois PHB escreveu uma peça de publicidade matreira, à altura do seu domínio linguístico — e metalinguístico, já que a recomendação funciona em dois níveis.O primeiro, feito para o público middlebrow “PUC-Leblon” ao qual se destina o livro do Greg, é insuspeito, indistinguível de dezenas de recomendações que são regurgitadas diariamente nas livrarias: termos inócuos que cumprem a tarefa de preencher espaço sem se comprometer muito. O segundo, sub-reptício, feito para quem entende do riscado, é um tumor pulsante de clichês clássicos usados quando se quer sacanear a tibieza dos versos de alguém: os poemas do Greg são “lúdicos” e “líricos”, e pro Paulo Henriques Britto pedir música no Fantástico só faltou dizer que “têm ritmo” (pontos extras pela menção à “dicção” do Greg). Espremido entre sua consciência e a possibilidade de uma revolta sangrenta na Judéia, nem Pôncio Pilatos lavou as mãos com tamanha presteza.

“Quod scripsi, scripsi”.

Recomendação por recomendação, acho esta aqui bem mais condizente com o conteúdo das besteirinhas do Greg. Esse é o único nível de sensibilidade que concebo saindo transformada da jornada por essas besteirinhas, e essa recomendação pelo menos tem sobre a anterior a vantagem de ser sincera.


Isso encerra nosso passeio pelo cômodo da poesia na casa mental do Greg. Vamos passar agora ao armarinho do trabalho intelectual acadêmico. Ei, eu não disse que seria fácil (não por acaso o post começou com uma citação sobre o inferno). Pense que isto é como um médico lancetando um bolha, ou como tomar um purgativo. Eu sei que é difícil não ficar deprimido com o atual estado de coisas quando lembramos da escala dos grandes embates do passado: São Tomás de Aquino demoliu Averróes, Keats se atracou literariamente com Lord Byron e Romário mandou a real em Simeone, mas tudo isso foi quando o mundo era jovem, cheio de energia e sentido. Hoje nós chafurdamos no cinzeiro de todas as festas, e vocês vão ter que se contentar com um tradutor de videogames sacaneando o Gregório Duvivier.

Além disso, na falta de uma produção intelectual verdadeira, teremos que nos contentar com a análise de uma besteirinha que ele escreveu na PUC: um relatório sobre Ana Cristina César, poeta confessional carioca.

Antes de qualquer coisa, um pequeno aviso aos navegantes: uma vez que já tratei da parte estética e imaginativa do Greg na seção anterior, não irei catalogar aqui os clichês e breguices (“greguices”?) do texto, como por exemplo:

Juro pela minha honra que o troço começa assim.

Nem os momentos em que Greg sofreu um AVC enquanto escrevia, como:

Vou me limitar a pinçar e comentar trechos que considero esclarecedores para nossa averiguação. Coragem, e vamos lá:

O trabalho se chama “CONFICÇÕES — a literatura como uma trama de paixões” (subtítulo aliás delicioso, que — para usar a gíria das ruas — “ressignifica” todo o esforço literário humano como uma chamada de novela das nove).

“Literatura”.

1

Nosso trabalho de arqueologia intelectual começa de forma auspiciosa. O trecho autobiográfico acima, escrito sem o menor vestígio de autoconsciência, nos dá o evento definidor de todo uma abordagem para a vida: a superproteção do privilégio. De certa maneira, o papai e a mamãe do Greg — agora representados pelo seu entorno político, econômico e cultural — ainda estão segurando a mão dele vida afora, garantindo que ele sempre possa escolher a via do menor esforço, aplainando seus caminhos, facilitando seus contatos, pré-aprovando cada golfada do filhinho e, mais do que tudo, mantendo o mundo real e seu implacável sistema de controle de qualidade a uma distância segura.

Lei nº 8.313 de 23 de dezembro de 1991.

2

À parte a informação preciosa de que o período em que o Greg mais leu livros na vida foi dos 5 aos 10 anos (me pergunto o que teria encerrado tão prematuramente uma carreira de leituras que se anunciava brilhante), já aqui identificamos a origem do seu “estilo” intelectual: um filistinismo encruado, fruto de um mal-entendido que não foi sanado a tempo e que distorceu sua percepção pelo resto da vida.

O filistinismo é um daltonismo da alma para a essência das coisas (imagine que você entrega uma frigideira para alguém repetidas vezes, e a cada vez a pessoa segura a frigideira de uma maneira diferente, mas nunca pelo cabo). Não se trata apenas do desconhecimento das regras do jogo cultural, como no caso de alguém que tentasse vencer no Vinte-e-um com um straight flush. Afinal, essas regras formais são apenas a manifestação exterior de uma realidade interna irredutível da qual derivam não só as Artes mas também toda empresa humana, a realidade da hierarquia: as ações humanas devem ser ordenadas, e não só é possível como necessário atribuir valores às coisas, algo de si tão evidente que é conhecido instintivamente por qualquer feirante (provavelmente porque feirantes não foram acompanhados pelos pais na escolinha o dia inteiro).

“‘Comece pelo começo’, disse o Rei gravemente, ‘e prossiga até chegar ao fim; então pare.”’

Se não veio de berço, o que é sempre uma hipótese, o filistinismo do Greg foi instilado nele em seus anos no Lycée Molière, um ambiente cultural fossilizado que, a se acreditar no texto, se limitava a cuspir chavões e repetir gestos formais de respeito estéril, esvaziados de significado. Esse endurecimento do espírito não foi combatido fora da escola porque… bem, porque não podem os cegos guiar ninguém. O ambiente artístico em que o Greg cresceu nutre arraigada desconfiança com relação às noções de hierarquia, ordenação e obediência, pois elas pressupõem uma autoridade no topo da cadeia. Isso gera uma atitude combativa que, reforçada pelo entorno social, torna-se um reflexo pavloviano que não deixa o filistino distinguir entre autoridade e autoritarismo. Essa aversão se calcifica aos poucos em uma visão de mundo em que os valores positivos estão do lado da rebeldia, de certa espontaneidade que não conhece regras, e os negativos, do lado da hierarquia e da autoridade, associados ao tolhimento das potencialidades do espírito. É uma confusão boba, facilmente sanável, e me deprime ter que escrever que são justamente os gênios como Roger Federer que mais precisam das linhas da quadra, mas aqui estamos.

O pobre menino rico (“sofrendo de fartura”, diria o mordomo Grilo, de “A Cidade e As Serras”) não teve quem lhe ensinasse o motivo para a distinção básica entre alta e baixa literatura, e levou para a vida a idéia de que mesmo considerar a possibilidade de fazer essa distinção denotaria uma personalidade tacanha, azeda, inimiga das liberdades do espírito. Mas a diferença existe, e é importante conhecê-la inclusive para podermos ignorá-la se nos convier.

O motivo para a distinção é muito simples: a 2ª lei da termodinâmica, inviolável até virem ordens de cima, nos diz que todos os sistemas caminham para a desintegração. O universo é um grande brinquedo ficando lentamente sem corda, nós vamos morrer, em 300.000 anos a Mona Lisa será pó etc. Essa é a constatação fundamental a partir da qual tudo o mais deriva — nossa história de sobrevivência, nossos avanços materiais e esforços em busca de sentido. Diante dessa situação, duas reações são possíveis: tentar esquecer nossa situação ou se esforçar para lembrar. O que chamamos (sempre com algum desconforto) de “alta literatura” nos faz lembrar. A baixa literatura, ou literatura de entretenimento, nos faz esquecer. Quando nos referimos a alguma experiência estética como escapista, é exatamente isso que queremos dizer: estamos escapando por algum tempo da gravidade do mundo real, onde estamos presos ao tempo e ao espaço, à mercê das implacáveis leis da física e dos dilemas dolorosos que pedem a intervenção da nossa consciência. A etimologia, como a hierarquia, é divina: diversão vem de divertere, “afastar-se, desviar-se”.

“Uma diversão/Um desvio temporária/o no caminho para a sepultura”.

Só a perfeita noção de que estamos vivendo nos escombros de um interregno me permite escrever a próxima sentença sem implodir de vergonha ao apontar o óbvio: a diversão só faz sentido enquanto diversão, ou seja, desvio. Sem o pano de fundo de algo que não seja diversão, o tédio (que já se chamou “existencialismo” e hoje se chama “depressão”) se instala. Uma vez que isso acontece, a morte por asfixia autoerótica vira só uma questão de tempo.

Todos os ritmos naturais que nos cercam — inspiração e expiração; tensão e relaxamento; concentração e dispersão — nos dão o modelo de funcionamento ideal de um sistema, que ao passar de um estado a outro se movimenta, ou seja, vive. Imaginar uma existência constituída de apenas um aspecto em detrimento do outro é cortejar a estagnação estéril — é morte em vida.

Parafraseando Thomas Pynchon em “O Arco-Íris da Gravidade”: se você fizer as perguntas erradas, jamais chegará às respostas certas. A alta literatura não recebe esse nome porque seus autores praticam o “escrever bem” ou “escrever bonito”, como Greg menciona adiante no texto, mas porque o que eles escreveram é humano, se relaciona com a experiência humana de todas as épocas. Ora, o que não muda em todas as épocas? O fato de que a vida é fluxo, que o ponto de ápice marca também o início do declínio, que é impossível retornar para casa, que os sonhos e ilusões do jovem são reavaliados pela experiência do velho, que os dilemas e impasses finais da vida podem afligir sem distinção tanto Alexandre, o Grande quanto Greg, o Medíocre. Ler sobre essas coisas sempre será belo e tocante, mas dificilmente será divertido (a não ser que você seja um espírito escarninho como Lúcifer — e Lúcifer também tem seus próprios problemas).

As premissas implícitas no texto do Greg prenunciam o que será o seu modo de operação nas crônicas de jornal: o uso de espantalhos argumentativos. Por ainda não ter atinado com as perguntas certas, por ter um estofo intelectual débil, o Greg toma manifestações externas como essências, ataca os problemas pelo que eles não são e constrói “argumentos” contra coisas que ninguém disse.

“Estofo intelectual”.

Essa é a falácia gregoriana por excelência, da qual ele abusa em suas crônicas (como vamos ver). É a única que pode lhe emprestar uma aparência de vitória, já que o inimigo, não estando ali, não tem como revidar.

“Some people without brains do an awful lot of talking”.

3

Mais uma pista que ajuda a iluminar esse enigma fascinante chamado Greg: ele simplesmente não concebe que seja possível extrair prazer da resolução de um problema (tanto mais prazer, inclusive, quanto mais árdua e demorada for sua resolução). Também temos uma amostra da imaginação atrofiada que, ao se dedicar à construção de mundos, só consegue produzir quadros moralizantes canhestros em que um determinado grupo, instituição ou indivíduo, em vez de reunir em si as contradições inerentes à existência, é retratado unidimensionalmente como portador ou de todos os defeitos ou de todas as virtudes. Em nenhum momento o texto do Greg (escrito quando ele já estava mais velho) passa para um nível mais alto e abrangente que permita compreender e situar o clima intelectual daquele ambiente. Toda a experiência dos anos passados no Lycée é de obscurantismo autoritário, uma simplificação transparente, do tipo que eu achava só existir ainda em seriados do Disney Channel.

4

Aqui devo dizer que me solidarizo com o Greg. Acho que pode ser interessante, como contraste, falar um pouco da minha experiência de educação.

Quando eu era criança, estudava em uma escola no Maranhão que era indistinguível de um buraco na terra (exagero para efeito cômico; era um buraco na terra até bem ajeitadinho). Não havia muita coisa em termos de recursos, embora recebêssemos direitinho os livros-texto do Governo e até algum material de vez em quando. Minha educação formal foi para inglês ver, como aliás a maior parte do que se faz no Brasil.

“Ooh, parecem Skittles!”

As professoras, senhorinhas muito bem-intencionadas, faziam o que era possível, mas a de Ciências falava “robores” (querendo dizer “robôs”), e a de Matemática falava “quatros maçãs, cincos bananas”, e só parou porque uma hora a turma não aguentou mais e chamou a atenção dela (foi constrangedor pra todo mundo). O que me salvou foi o fato de a prefeitura ter uma bibliotequinha e eu realmente gostar de ler — pra mim era uma via de escape óbvia do cotidiano sensaborão, e eu sempre me perguntava por que mais dos meus colegas não percebiam isso.

O primeiro livro que eu li foi “Os 12 trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato, e depois li toda a coleção do Sítio que havia na biblioteca. Quando acabei a coleção, peguei “O Fogo Sagrado (Carrying the Fire)”, de Michael Collins, em que ele narra sua trajetória até a missão da Apollo 11 (lembro de ter ficado chocado ao ver impressa a palavra “merda”, coisa que não ocorria nos livros do Sítio; eu não sabia que podia ter palavrão em livro). Depois passei para uma coleção do Júlio Verne, e assim fui indo. Mas desde o começo eu lia como uma criança lê: para me distrair, me divertir, para saber o que acontecia na história. E me lembro, quando já tinha lido todos os livros infanto-juvenis e os de trama mais óbvia, de pegar “Dom Casmurro”. O livro era chato. Nada de interessante acontecia. Pessoas conversavam, viviam vidas normais com incidentes que não queriam dizer nada para mim, se referindo a um mundo sobre o qual eu não conhecia nada. Lembro de pensar que era um livro em que as pessoas “só ficavam conversando”. Não avancei muito na leitura, devolvi “Dom Casmurro” e fui à cata de outros “com história”.

Por sorte, anos depois fiz minha paz com os “clássicos” quando percebi que durante todo aquele tempo eu estava fazendo a pergunta errada. Ao tomar a aparência externa (uma sucessão de eventos interessantes) como causa final da existência do romance, eu havia deixado de notar os níveis mais refinados em que a literatura funciona. Naquela época, não me dizia nada a transmissão da experiência individual, o retrato psicológico dos personagens nem o confronto comigo mesmo—pois todo “clássico” é em essência uma conversação do autor com a pessoa que o lê, um ato mágico de suspensão da morte, em que uma sensibilidade distante no tempo e no espaço atravessa abismos de silêncio para fazer contato. Claro que para isso acontecer o leitor tem que levar algo de si para a conversa — sua própria experiência de mundo, algo que eu não tinha na época. Minha casa mental era a de uma criança porque eu tinha vivido pouco, lido menos e refletido menos ainda. Esses são requisitos essenciais para o amadurecimento, que implica uma reavaliação dos fatos e eventos que nós não compreendemos da primeira vez. O aprofundamento de perspectiva que o amadurecimento provoca faz com que diversas vezes ao longo da vida reconheçamos certas paixões e os dilemas delas decorrentes como meros trompe l’oeils. Situações cuja verdade não podíamos ignorar na época, e que mais tarde identificamos como uma leitura infantil dos fatos. É quando nos damos conta de repente de que, todo aquele tempo… havia uma conversa acontecendo, e nós não estávamos ouvindo (pelo mesmo motivo que, quando crianças, não compreendemos as conversas dos adultos).

Um problema de perspectiva: Indy se dá conta de que havia algo ali, afinal. — INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989).

A boa literatura deixa de parecer algo remoto e desprovido de interesse e assume seu caráter real, íntimo, quando pensamos por exemplo no cenário desolado em que essa atividade floresceu contra todas as probabilidades (um exemplo entre muitos: pouquíssimos manuscritos dos autores latinos chegaram aos nosso dias. Tudo o que temos e sabemos sobre eles hoje se deve ao esforço continuado de gerações de copistas da corte de Charlemagne, cada um trabalhando e ampliando o trabalho pregresso, transmitindo o fogo frágil do conhecimento através de oceanos de tempo). Muito do que hoje podemos acessar com um clique e um bocejo só chegou até nós por causa de pessoas que em algum momento tomaram decisões difíceis e preferiram oferecer-se em sacrifício ao tempo esperando que o seu esforço significasse alguma coisa para alguém mais adiante. É isso o que torna “os clássicos” importantes e pungentes: eles são uma tentativa sincera de contato humano contra todas as possibilidades, nada menos que milagres. Enxergar neles apenas caretice e fórmulas rígidas de redação é sinal de falta de cultivo da alma. Apesar de professar amor pela arte por seu histórico familiar, formação e profissão atual, Greg é na verdade tão inculto (ou seja, “não-cultivado”, como um campo é cultivado, de forma a dar bons frutos) e alheio aos verdadeiros valores que informam o processo artístico quanto um Vândalo saqueador de templos.

O “clássico” não é assim considerado por beletrismo, convenção social ou identidade de classe, mas sim porque em suas páginas encontramos experiências humanas resgatadas do fluxo do tempo, preservadas para os humanos do futuro (eu realmente tenho que enfatizar “humanos”. É comum vermos matérias do tipo “Por que Shakespeare ainda é relevante?”, e à estupidez da pergunta se une a mediocridade das respostas, que invariavelmente falam de domínio linguístico, penetração psicológica, personagens imortais etc., quando a melhor resposta, a que vai direto ao fulcro da questão é “Porque ainda somos humanos”).

No que concerne ao amadurecimento necessário para poder conversar com os “clássicos”, há os gênios, que podem dizer que, quando criança, “brincaram de Hamlet”; há os esforçadinhos (feito eu), que se entupiram de Stephen King até serem salvos pela internet… e há os Gregs, que fazem beicinho como um criança enjoada recusando os legumes, de olho na sobremesa, presas de um narcisismo terminal que lhes permite achar que um esgar de boca e um dar de ombros bastam para demolir todo o edifício da cooperação humana acumulada em milênios. Eu compreendo perfeitamente que a idéia do “clássico” possa escapar completamente a gente aguada como o Greg. Afinal, Shakespeare, que não esperava que sua voz chegasse nem à geração seguinte, escreveu coisas que nos acompanham até hoje. Já o Greg, ao receber a chance de lançar sua voz no abismo do tempo, já foi logo sungando as calças, limpando o pigarro e mandando um trocadilho entre a bebida “mate” e “morrer”. Perto do fim da vida, S. Tomás de Aquino respondia a quem o interpelava para que voltasse a escrever: “Não posso mais; tudo o que escrevo me parece palha”. Isso era o homem que havia fundado os alicerces sobre os quais toda a filosofia ocidental iria se erguer. Imagino se nosso Greg, que em 2015 publicou um verso em que faz um trocadilho com “mate” e “morrer”, já escreveu algo que considerou indigno de ser impresso.

Quem nunca? (R: Eu. Eu nunca.)

5

“Fogo de palha isso não passa de”.

Aqui o Greg relata como se deu sua atração e fixação em Ana Cristina César, denunciando sem querer as verdadeiras razões para essa atração ao usar o termo “fetiche”. O fetiche é um embuste psicológico, mera autossugestão em que toma-se uma coisa pelo que ela não é, comportamento que resulta da recusa birrenta em lidar com as coisas como elas se apresentam. Assim, o jovem Greg estabelece uma relação falsa com as coisas, mediada por fetiches que sua imaginação deficiente cria e que são destruídos ao primeiro contato com a realidade (como vamos ver adiante).

“Trama de paixões”.

O Greg adulto relata seu processo de atração por Ana Cristina César, mas em nenhum momento comenta a ingenuidade, a inadequação de sua abordagem ou seu estado de pura confusão hormonal, confirmando a impressão de que a pessoa que relata a experiência ainda está no mesmo patamar de maturidade da que a vivenciou. Guardem esses trechos, vou comentar tudo quando chegar ao item 8.

6

Essa citação que o Greg pescou para o trabalho é puro ouro e escancara o grau de indigência do que passa por trabalho universitário hoje em dia. Usando a retórica “plástica” do academês, o escritor gasta três linhas com o que no mundo real poderia ser dito com quatro palavras (“o texto é ruim”), se não se tratasse de uma poeta já estabelecida a quem certo número de vênias é devido, e se não se tratasse afinal de um trabalho de humanas, área que recebeu uma joelhada nos bagos da escola francesa nos anos 60 e não se recuperou até hoje.

A Escola Francesa numa foto de juventude. Hoje em dia eles são senhores respeitáveis, donos de franquias intelectuais que contribuem para a manutenção do tecido social pelo menos em seu aspecto econômico e dão emprego a muita gente.

O texto ainda encontra brecha para tacar um “globalizante” no pobre leitor (culpado do pecado imperdoável de querer ler um bom poema) e combate a noção das ideias pré-concebidas… com um leitor pré-concebido, que serve para eximir o texto de qualquer obrigação de ser ao menos legível.

Isso me traz de volta à mente a imagem do índio passeando entre os escombros de uma civilização sobre a qual ele nada sabe, pegando aqui e ali algum artefato cujo uso original se perdeu no tempo e adaptando-o canhestramente às suas parcas necessidades de sobrevivência. Obviamente, a afetação de objetividade cartesiana no plano da cultura é a característica definidora das humanidades como são concebidas hoje, e reclamar dessa característica seria como reclamar das laranjas serem redondas. Se o que se tem em mente é a mera perpetuação do sistema, então essa abordagem funciona. A academia se tornou sua própria justificativa, assumindo a forma a que estava destinada: um paquiderme poligástrico, mascando e ruminando seu Derridazinho de um estômago a outro numa papinha cada vez mais rala. Parece que bastante gente, de zeladores a reitores, tem seu salário assegurado dessa forma, então… acho que tudo bem?

7

Um clarão de autoconsciência entre os pilotis da PUC. Infelizmente não durou muito.

Como eu disse no começo desse post, as pessoas se desnudam quando escrevem. Trocando o sapateado retórico por língua de gente, temos um trabalho sobre uma artista sem maiores méritos que foi alçada a um posto de destaque devido a circunstâncias sociais de berço. “Hmmmm”, dizemos nós.

De qualquer maneira, não deixa de ser um bom exercício em meta-estupidez escrever um simulacro de trabalho sobre um simulacro de poeta. Li alguns poemas da Ana Cristina César e saí deles sem saber nada de como ela via o mundo — mas saí sabendo que ela sofria com coceira no hímen e passava pomada branca até que a pele (rugosa e murcha) ficasse brilhante (“arpejos”), e que ela escrevia coisas como “Ser a greta, o garbo” e “despetaladamente pelada pedalar” (“instruções de bordo”). A julgar pelo senso de humor que se entrevê nesses trocadilhos, acho que esse é um caso clássico do Bola (apelido de infância do Greg) procurando o craque.

8

E assim chegamos ao final broxante do trabalho do Greg, sem que ele tenha feito nenhuma consideração analítica sobre a poesia da Ana Cristina César, a visão de mundo dela ou seu lugar entre outros poetas. É verdade que sem querer ele fornece material para considerações psicanalíticas, por ex. ao frisar que a escola o ensinou que a leitura não deveria envolver “qualquer prazer” ou quando ele descreve o texto de Ana Cristina César como “delicioso”, dizendo que há nele um “escrever gostoso” — expressões típicas da personalidade retida na fase oral, de características egoístas e hedonistas, diagnóstico reforçado pelas menções ao fetichismo, cacoete mental que cria relacionamentos com imagens falsas motivado pela gratificação fácil e imediata (mas podem ficar tranquilos que essa é uma senda que eu prefiro não explorar).

No começo do texto o Greg avisa (“aos navegantes”) que fez um “relatório extremamente pessoal, autobiográfico e, por vezes, até confessional”, eximindo-se preventivamente das compreensíveis reações decepcionadas concomitantes a um trabalho cujo argumento final é “Ana Cristina César já deu o que tinha que dar”. Basicamente ele termina o relatório dizendo que se decepcionou com a poeta, que se sentiu um trouxa :(, depois sentiu inveja de quem teve as idéias que não lhe ocorreram... E fica por aí mesmo, deixando a um trecho de poema do Carlos Drummond de Andrade a tarefa de arrematar o texto que ele não conseguiu. Notem que a decepção do Greg não decorreu da experiência pessoal e imediata dele com os poemas, e sim da leitura dos trabalhos que gente mais capacitada produziu, e em que predominava um tom de “não é isso tudo”, embora atenuado pelo bundalelê retórico de sempre.

Nessas seis páginas pífias não rola nem aquela anamnese básica em que, repassando o eventos a limpo, extraímos lições das experiências. Greg relata ter se sentido atraído por Ana Cristina César por motivos extra-literários, e no final, ao reconhecer que se decepcionou com o que encontrou, não lhe ocorre juntar 2+2 e cogitar se não haveria nada de errado com sua abordagem inicial; quem sabe atinar com o fato de que, bom, literatura talvez seja outra coisa além de peitinhos.

Essa história de encanto e desencanto faz pensar na fábula do menino que rouba ouro do reino dos elfos mas, ao voltar para sua realidade, descobre apenas palha nos bolsos. Greg nos informa que se empolgou tanto que decidiu tentar uma bolsa do CNPq cujo tema seria Ana Cristina César. Como podemos ver pelo trecho abaixo, o senso de prioridades literárias dele continuava afiadíssimo:

Palavras-chave: Filistinismo, narcisismo, arrogância, afetação, simulacro, lindo encapamento em padrão florido, espantalho argumentativo, fetichismo pelas formas externas da cultura, turismo ontológico.

No final tudo acabou bem, já que Ana Cristina César propiciou ao Greg a chance de falar do seu assunto preferido e nós ganhamos um Künstlerroman humildão de seis páginas, que para ficar perfeito só faltou terminar com: “…e passou um objeto brilhante, e eu me esqueci de tudo e sai correndo atrás”.


Agora tem início a última etapa desse exercício inútil. Lá vamos nós conferir as crônicas de jornal do Greg. Mas antes, um parêntese:

A essa altura já deve ter gente se perguntando se tudo isso é mesmo necessário quando o estado de falência mental do Greg já ficou mais que estabelecido desde a primeira besteirinha analisada lá no começo. Será mesmo necessário descarregar uma metralhadora num formigueiro?

Creio que já posso revelar que o Greg é apenas a desculpa para escrever sobre o tema real deste post: a acelerada desintegração do discurso público e suas consequências desastrosas para o tecido social, um processo que não começou agora, mas que se encontra em sua fase mais agressiva (há outros dois motivos, mas vou revelá-los adiante). Eu escolhi o Greg por ele ser o exemplo mais recente e visível, mas eu poderia estar falando aqui de gente como Jô Soares, Emicida, Tico Sta. Cruz, Jean “Snow” Wyllys ou a D. Gorete.

Essa é a D. Gorete, um banana sem chiclete.

Para que uma sociedade possa atingir um nível aceitável de harmonia, para que todos se entendam, é necessário que a fonte do discurso público tenha água sempre limpa. Assim todos poderão ver os problemas discutidos sem ofuscações nem distorções. A comunicação tem que ser clara e transparente como água pura, e todos têm que estar usando os mesmos termos da mesma maneira, com propriedade e exatidão, partindo dos mesmos pressupostos. Isso é básico em qualquer esforço de comunicação, em qualquer debate, porque até para discordar certo é necessário que todos saibam do que estão falando.

Ao emitir opiniões desinformadas usando linguagem preguiçosa, o Greg (e a classe da qual ele é um dos expoentes) está cagando na fonte do discurso público, poluindo a água, deixando-a turva, tornando a comunicação cada vez mais difícil até se chegar ao ponto de as pessoas não saberem mais o que estão discutindo. Para um pretenso intelectual e poeta, não pode haver acusação mais séria: o Greg não se importa com as palavras nem com sua língua.

Greg indo dar sua opiniãozinha matinal.

Ao falar de organização social, estamos falando basicamente sobre cibernética (no sentido original da palavra, que se referia a sistemas que, ao agir, causam mudanças que são medidas e interpretadas, gerando informação que por sua vez é usada para gerenciar e corrigir o curso e/ou comportamento dos sistemas). O exemplo de sistema cibernético por excelência é o navio, que de posse das informações de navegação, vai corrigindo seu curso à medida que avança. O navio é também o símbolo clássico do Estado, e vocês já devem ter percebido aonde estou querendo chegar.

Uma Nau do Estado por Saul Steinberg.

O aumento do ruído na comunicação impede que a tripulação do navio tenha um quadro claro da situação. Isso prejudica a capacidade de reação e dificulta a tomada de decisões em grupo, e o resultado é que o navio se perde ou naufraga. A clicherama desavergonhada do Greg e o nível primário da sua argumentação à base de espantalhos são ruído na comunicação, e acabam por tornar a discussão racional algo impossível, comprometendo a navegação do Estado.

Jorge de Lima, um poeta de verdade, diz em “As Palavras Ressuscitarão”:

As palavras envelheceram dentro dos homens
separadas em ilhas,
as palavras se mumificaram na boca dos legisladores;
as palavras apodreceram nas promessas dos tiranos;
as palavras nada significam nos discursos dos homens
públicos(…)

Isso descreve perfeitamente o estado das coisas no que concerne ao discurso público. Qual adulto razoavelmente seguro de si e bem-informado acha que vai encontrar informações úteis nas respostas e opiniões que um FHC dá? Quem de nós é essa Poliana, esse Cândido, que realmente se posta diante de um político e pensa: “Tá, vou parar aqui uns minutinhos e prestar atenção nas palavras que saem da boca desse político, porque afinal, pela minha experiência essas informações têm repetidamente se mostrado confiáveis e úteis”?

As palavras estão gastas. Seu uso indiscriminado as transformou em moeda encardida, de circulação restrita, refletindo um pensar e sentir de segunda mão, por culpa de “indivíduos coletivos” como o Greg, vampiros que vicejam em ambientes de língua moribunda, sufocada pela erva daninha de clichês e termos mal empregados. Ao Greg interessa cagar na água do discurso público e baratear as palavras porque disso depende sua sobrevivência futura, já que um público cultivado não vai querer ir ao teatro para ouvir a piada do “puxa o meu dedo”.

Isso não é uma reclamação preciosista de alguém que não achou algo mais importante com que se preocupar. Literatura é algo central em nossas vidas, algo tão sério quanto engenharia, medicina etc., e não estou me referindo ao nível subjetivo e pessoal — estou falando do nível pragmático e cotidiano da vida em sociedade.

A cisão e o afastamento gradual das culturas técnica e artística (analisada por C. P. Snow em “The Two Cultures”) fez com que a maioria das pessoas perdesse isso de vista, mas a Literatura é crucial, pois nós vestimos nossas ideias com palavras, e se as palavras forem barateadas ou falseadas, o pensamento também será. Uma literatura ruim causa um entorno psicológico de baixa qualidade, de imaginações empobrecidas. Isso é nocivo para as sociedades, pois a imaginação é a faculdade que nos permite confrontar a realidade com um modelo ideal a partir do qual podemos tentar resolver um problema. Se nós só tivermos acesso a um modelo mental deformado, acabou-se. Esse empobrecimento é um loop contínuo: o entorno psicológico empobrecido por sua vez produz uma literatura ainda pior, que por sua vez, etc. e assim por diante, numa espiral negativa, até que um dia o Greg ganha uma coluna na Folha de São Paulo.

Na série de televisão “Civilisation”, da BBC, Sir Kenneth Clarke, referindo-se à Enciclopédia de Diderot, diz: “governos autoritários não gostam de dicionários. Eles vivem de mentiras e de falsear abstrações, e não podem tolerar que as palavras sejam definidas com precisão”. Essa é precisamente a raiz do problema que eu estou tratando aqui, e do qual o Greg é apenas um dos sintomas. Northrop Frye, em “The Educated Imagination”, diz:

Um elemento central em nosso ódio e medo de governos totalitários é a claustrofobia imaginativa que acompanha esse tipo de governo. Esse é o aspecto da tirania que fica mais em evidência em “1984”, de
George Orwell. Orwell chega a sugerir que a única maneira de tornar uma tirania algo permanente e indestrutível, ou seja, a única maneira de criar um inferno literal aqui na terra, é baratear deliberadamente a linguagem, tornando o discurso uma repetição automática de clichês.
Frequentemente o estudo de literatura é considerado uma empreitada elegante, uma questão de boa gramática e de leitura habitual. Eu estou tentando demonstrar que o assunto é mais sério do que isso. Não vejo como o estudo da linguagem e da literatura possa ser separado da questão do discurso livre, que como sabemos é fundamental para nossa sociedade. Eu vejo o campo da expressão cotidiana como um campo de batalha entre duas formas de discurso social, o discurso da massa e o discurso da sociedade livre. O primeiro compreende os clichês, os lugares-comuns pré-fabricados e automáticos, que inevitavelmente levam à ilusão e à histeria.

É fácil constatar o barateamento das palavras. Um exemplo extremo é “utopia”, mas quem hoje em dia não sente o bocejo se formando ao ser chamado de “burguês”, “fascista”, “machista” ou “opressor”? No entanto essas palavras já tiveram força, quando eram usadas da maneira correta, no contexto correto, por pessoas que sabiam do que falavam (ao contrário dos cretinos feito o Greg, que usam esses termos como um Batman cocainômano usaria batarangues). Jean “Snow” Wyllys sozinho deve ter sido responsável pelo desgaste de uns 40% do valor de uso da palavra “fascista”, por exemplo, que sofreu mais abusos em sua boca do que as moças no porão de Josef Fritzl. O pior desses abusos é sem dúvida a total inversão de sentido: Jean Wyllys usa o termo “fascista” para atacar justamente quem pede menos interferência do Estado, na melhor tradição “em cima é embaixo, embaixo é em cima” que caracteriza a novilíngua.

“Fascista fascista fascista caricato fascista burguês opressor machista fascista de dia fascista de tarde fascista de noite fascista fascista burguês fascista fascista burguês fascista fascista sociabilidade masculina que se afirma contra a homossexualidade”.

Bertrand Russell disse, em “Power: A New Social Analysis”, que “em uma democracia é crucial os cidadãos se vacinarem contra a eloquência”. Mas isso é de 1938, quando o discurso público ainda era relativamente sólido e a dialética negativa de Adorno ainda estava décadas no futuro — e além disso, Russell não morava no Brasil. No país que elegeu duas vezes um apedeuta que se orgulha de não gostar de ler e duas vezes uma senhorinha que sofre de FTD, eloquência é a última das preocupações.

Eugen Bleuler, que cunhou o termo ‘esquizofrenia’, afirma que a FTD é a característica definidora desse distúrbio.

Muito mais urgente seria a vacinação contra o carisma… se tivéssemos figuras realmente carismáticas aqui (jamais compreendi o uso do termo associado ao Lula. Na minha cidadezinha do Maranhão são comuns esses velhinhos barrigudos e mamados que vivem vociferando para o nada nos botecos e lançando perdigotos, e ninguém lá pensaria em levá-los a sério, que dirá votar neles para Presidente). Na falta de carisma verdadeiro, sobra o charme barato, e acho que é com isso que teremos que nos contentar ainda por um bom tempo. E, falando em charme barato…

Paladinos da justiça social como o Greg ou o Jean Wyllys são farsantes travestidos de gente cultivada, e seu uso apotropaico de termos como “racismo”, “opressão”, “fascismo” etc., denota o mesmo apego desesperado do nativo da Guiné por suas palavras de poder. Esses indivíduos coletivos não têm amor pela língua, apesar dos livrinhos e da suposta poesia. Eles a barateiam na primeira oportunidade, abusando da poesia prosaica e da prosa pedestre, utilizando termos imprecisos, jogando com as contradições ao sabor do momento, em busca de vantagem, empregando os termos não como sinalizadores em um sistema de comunicação, mas como tacapes retóricos para assustar e submeter o interlocutor. O emprego dessa tática não só é desonesto (pois transfere o discurso do âmbito da troca de informações para a disputa de poder sem que o interlocutor perceba) como também desgasta as palavras que, ao serem usadas de forma inadequada, vão perdendo o seu valor informacional, deixando de ser sinal e virando ruído, para prejuízo de todos — inclusive dos próprios paladinos, que obtêm cada vez menos resultado ao empregar essa tática. Quando a língua sofre, todos perdem.

Gente como o Greg, o Wyllys, a D. Gorete etc. são vetores de confusão linguística e mental — ou seja, de histeria que acaba por conduzir ao ódio, pois implícita em seu discurso está a noção da legitimidade do revanchismo (como ficou escancarado recentemente em uma das letras do Emicida, cujo clipe é o sonho erótico de todos os DCEs Brasil afora: “Se vocês acham o nosso pau grande, espera só pra ver o nosso ódio”).

Arte no Brasil. Na foto, um artista se prepara para esmagar o patriarcado (talvez seja o racismo ou o capitalismo, não dá pra ter certeza daqui).

O Brasil precisa de artistas adultos, e não dessas eternas crianças arrogantes brincando de “aliança rebelde” debaixo da tutela benevolente do aparato político e do circuito cultural, cegas para a perversidade inerente às suas declarações. Só para dar um exemplo de perversidade, quando gente como o Emicida — que tem uma coleção de roupas com camisa social de R$320,00 — subscreve a noção de que é a pobreza que causa o crime, ele está simplesmente chamando de otários a imensa maioria de pessoas honestas que dão duro na cidade o dia todo, todo dia — balconistas, motoboys, trabalhadores da construção civil etc. — , pessoas que são pobres, mas têm crédito — e até débitos (imagino se eles ainda podem reclamar da vida ou se pra eles isso já conta como “problemas da classe média”). São pessoas que moram longe e jogam no hard mode, mas a quem jamais ocorreria fazer um ganho em cima de alguém só para financiar a cheiradinha com a corriola, como no caso dos muleke zika franzinos de 15 anos que são pegos com arsenais dignos de filme de ação dos anos 80 (isso quando não são playboyzinhos já da classe média ou o Marcelo Odebrecht).

“Peço perdão à Polícia Federal pelo vacilo”.

O fórum da consciência pública está corroído de neuroses açuladas por imbecis com megafones gritando chavões de ódio que paralisam a imaginação e impedem as pessoas de identificar a verdadeira causa dos problemas. Na política é a “elite” contra o “povo”; no sexo, os “homens” contra as “mulheres” e “os gays” e assim por diante. Há duas pegadinhas nesse tipo de discurso:

A primeira é que o problema é apresentado dentro do esquema “A contra B”, sem que seja contemplada a opção “A com B”, como se a resolução dos problemas da sociedade passasse necessariamente pela eliminação ou domínio total do oponente, uma fantasia digna de super-vilão de gibi e exemplo da deformação da imaginação causada por textos de má qualidade que eu mencionei. Gente como o Greg vive em um cartum epistemológico em que os problemas sociais têm soluções simples e óbvias, mas que são combatidas por pessoas más que não gostam que outras pessoas andem de avião ou qualquer merda dessas.

Precisamos falar sobre o efeito deletério que a Sociologia surte sobre o talento e a imaginação.

Nessas explicações simplificadas as coisas são reduzidas à sua representação mais óbvia: o capitalista é sempre mau, o homem é sempre opressor, o hétero é sempre homofóbico etc. Esse discurso nocivo impede que se conceba a possibilidade de cooperação dialética entre os grupos. Só um retardado ou um mau-caráter pensaria em resolver os problemas da sociedade com uma disputa se houvesse a menor possibilidade de reconciliação dos opostos. Como demonstramos anteriormente, o filistinismo do Greg o tornou impermeável à sabedoria dos “clássicos”, que, entre outras coisas, nos dão a perfeita noção de que nós estamos todos juntos nessa merda — que, a não ser que estejamos de fato pensando em colocar todos os que discordam de nós em campos de concentração, então é melhor começarmos a pensar em alguma maneira de continuarmos convivendo, porque estamos nisso todos juntos.

Como exemplo do que acontece quando esquecemos essa verdade (óbvia como tudo o mais que escrevi aqui), o nível do debate sobre as relações entre os sexos está reduzido hoje a um lado chamando o outro de “estuprador”, e sendo chamado de volta de “prostituta”. Ora, assim não se vai a lado nenhum. A civilização floresce quando os elementos masculino e feminino estão em harmonia (como nos salons de Mme. Geoffrin e outras damas francesas, que tanto contribuíram para as artes, a ciência e a política nos séculos 17 e 18), e eu não vejo um só desses Gregs tanga-frouxa falando disso. Ainda estou esperando o artista que, ao ser perguntado sobre essas questões, não vai cuspir uma série de clichês ressentidos nem reforçar a cultura do medo, e em vez disso, fale do espírito de reconciliação e cooperação entre as classes e os sexos, a única resposta sã para o problema, porque nós estamos nisso juntos, homens, mulheres e gays, ricos e pobres, por mais que esperneemos. Não é difícil conseguir que a percepção da nossa dependência mútua chegue às pessoas. Basta retirar da ágora os babuínos atiradores de “argumentos”, como o Emicida, D. Gorete, Tico Sta. Cruz etc., e colocar em seu lugar artistas verdadeiros, com um discurso humano — que não é a mesma coisa que o discurso “gente fina super do bem” do Greg, que, como tudo o mais que ele diz e faz, não passa de um verniz, mera repetição do que o consenso social considera as coisas certas a dizer naquele momento. O discurso “dubem” não passa de palavrório amorfo, recheado de boas intenções difusas, papagaiado por gente tansa demais para perceber os dilemas inerentes até às melhores intenções, e que só causa mais sofrimento. Não à toa se diz que de boas intenções o inferno está cheio: Deus me livre das boas intenções dos idiotas.

A segunda pegadinha é o uso de coletivos abstratos (no singular ou no plural) como se eles fossem agentes. É sempre “as mulheres”, “os homens”, “os gays”, “a elite”, “o povo”, agindo juntos como uma só massa.

A pergunta fatal: “Eles disseram o nome desse homem?”

Os termos coletivos são úteis porque comprimem a realidade em uma unidade manuseável, de modo a facilitar a comunicação. Mas o mapa não é o território e a realidade continua complexa, contraditória e soriteana que só ela. Não existem “os gays” enquanto agentes. Existe cada gay individual, capaz de se expressar no espectro político de maneiras tão originais e fora dos padrões pré-concebidos quanto no espectro sexual. Não existem “as elites” enquanto agentes (“Cara elite…”, nas palavras imortais do nosso Greg). Existe por exemplo o sr. Marcelo Odebrecht, CPF 487.956.235–15, que faz parte da elite financeira. Existe por exemplo o sr. Luiz Inácio da Silva, CPF 070.680.938–68, que faz parte da elite política, e assim por diante.

Essas duas pegadinhas são o feijão com arroz de toda a esquerda hoje em dia, e esse é o segundo motivo para eu escrever este texto: a esquerda já foi melhor. Sei que parece difícil acreditar, mas a esquerda já combateu o Governo, inclusive. A esquerda nacional já teve intelectuais verdadeiros.

É sério.

Mas ao se tornar a perspectiva dominante no debate cultural, acostumando-se a vencer e se impor na base das palavras-gatilho e de armlocks paramoralistas, a esquerda acabou relaxando e estagnando. Os efeitos nocivos dessa situação estão bem evidentes nessa piaba que o Safatle levou do Molyneux (faça um favor a você mesmo, diminua o som do vídeo, ajuste para a velocidade “2” e coloque esse vídeo aqui pra tocar em segundo plano para obter a melhor fruição estética possível da experiência).

O corolário da constatação de que nós estamos nisso juntos é que, se quisermos sair do atoleiro, vamos precisar do melhor do conservadorismo e do progressismo para discernir entre as coisas que devemos manter e as que devemos jogar fora. A necessidade de cooperação entre as duas mentalidades fica evidente no exemplo do automóvel: um carro sem freio ou sem acelerador seria inútil como veículo. É necessário ter os dois, e saber a hora de usar um ou o outro. Esse é outro efeito nocivo do discurso “dubem/indignado”: cada vez mais pessoas convencidas de que é possível enfrentar a multiplicidade da vida usando um modelo de ação fixo, como se decidir-se entre “progressista” ou “conservador” eximisse a pessoa de ter que escolher novamente pelo resto da vida. Só essa distorção já dá uma ideia do quão turva está a água do debate e da necessidade urgente de limpá-la.

Isso começa com a restauração do conceito de debate à sua expressão ideal: não uma disputa de poder, e sim uma investigação conduzida pelos dois lados com boa vontade e boa-fé (sem as quais aliás, não vale a pena nem levantar da cama todos os dias), com o objetivo não de chegar à verdade final (algo em última instância impossível), mas de se afastar o mais possível do erro. Os conservadores correram atrás do prejuízo e estão fazendo o dever de casa no que concerne ao estudo e preparo necessários para fomentar um entorno psicológico favorável a essa tarefa. Já a esquerda parece não ter se dado conta da virada cultural pela qual estamos passando (talvez por esta não ser subsidiada pelo prefeito do universo) e segue cuspindo retórica de quinta cada vez mais inflamada, fazendo pensar na definição de George Santayana segundo a qual o fanático redobra os esforços à medida que perde os objetivos de vista.

Espero firme que a esquerda se recupere rápido e saia da fossa séptica em que se encontra, para daqui a alguns anos podermos enfrentar idéias, e não simplesmente desmascarar espantalhos mal-ajambrados. Ainda acredito no potencial disto aqui (“Sol do Novo Mundo”, porra!), e acho que se os dois lados derem o seu melhor, ninguém vai poder com a terra onde, em se plantando, tudo dá — até japonês e alemão (só espero que isso não demore muito, ou corremos o risco de, como o Greg, chegar à festa quando ela já tiver acabado).


Vamos agora analisar algumas crônicas de jornal escritas pelo Greg.

A essa altura já vimos o que havia para ver nesse safári, e depois de ver o Greg se refocilando satisfeito em seu chiqueirinho de clichês, acho difícil que eu ainda vá me surpreender com alguma coisa, mas vamos lá. Por desencargo de consciência vou analisar uma crônica apenas, pronto, vamos ver:

Ahm. Uhm. Ok.

Se eu tiver que falar tudo o que eu penso sobre o tipo de personalidade capaz de escrever como se fosse Jesus, na primeira pessoa, vai ficar feio pro Greg, pra mim e pra todo mundo que estiver lendo. Acho melhor eu me afastar do teclado por algum tempo. Hora de ser “the bigger man”, mesmo, e deixar pra lá.

Antes de pedir a conta, aproveito para dizer que o terceiro e mais forte motivo para eu escrever este texto foi que eu vi alguns amigos exasperados com as opiniões excretadas pelo Greg e me senti incomodado com o incômodo deles. Por isso pensei em escrever algo que servisse para lembrar a eles que essa irritação no tecido cultural, embora agressiva, não há de durar muito.

Vacuidades bípedes feito ele, o Jean Wyllys etc. são como mullets culturais, produtos de períodos pouco esclarecidos que têm seu momento à luz do dia e depois somem em alguma nota de rodapé. Assim como aconteceu com os mullets, uma hora a ficha cai, bate a vergonha, escondem-se as fotos e não se menciona mais o assunto, a não ser para ridicularizar a época capaz de criar artefatos tão evidentemente escrotos. Por exemplo, essa aqui já foi a percepção pública sobre o Jean Wyllys (antes que o cretino do Chico Alencar o alçasse por inércia a herdeiro da dinastia Stark).

Assim como foi uma vez, assim voltará a ser. Meu conselho aos amigos que se irritam com o Greg é: fiquem tranquilos e aproveitem pra exercitar a paciência, a caridade e outros sentimentos cristãos. O Greg é chato, mas passa, feito o herpes, e a analogia só não é perfeita porque afinal o HSV tem algum conteúdo (a informação do RNA), e por isso retorna ocasionalmente. O Greg e as figuras públicas boçais da mesma estirpe, não.

“O quê, eu me preocupar?”