
Tiro, facada e bomba
Tenho visto muitos adultos letrados mostrando-se chocados com o atentado ao Bolsonaro e fazendo protestos compungidos pelo retorno ao “debate de idéias”. Não percebem (ou não querem que você perceba) que é isso que a política é quando o poder está pra jogo de verdade, em vez da Rodinha de Bobo (com o povo no meio da roda) que é a democracia de compadrio à qual estávamos acostumados já há algumas décadas.
O que ocorreu ontem não foi um desenvolvimento extremo, mas um mero retorno ao estado normal de coisas quando o poder se torna objeto de disputa real. Uma passada de olhos na história do Brasil pré-Nova República basta para acabar com a noção da política como questão de administração pública e “debate de idéias” — noção advinda sem dúvida de um dos mais sonoros relinchos da história das idéias políticas, o que diz “não concordo com nada do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo” (e se seu opositor estiver dizendo “matem esse filho da puta”, referindo-se a você?).
O atentado foi apenas um lance lógico em uma partida que se encaminha para seu desfecho: sendo a política disputa de poder, segue-se que o grupo que obtém o domínio do campo procurará neutralizar seus oponentes por uma mera questão de sobrevivência — as investigações que o Executivo americano vem conduzindo há longos meses para trazer à luz o aparelhamento do Estado americano e sua submissão a interesses estranhos, por um lado, e a resistência obstinada dos juízes do 9º Circuito de Apelações às decisões de Donald Trump são um exemplo desse jogo de matar ou morrer.
É isso que a política é. O grupo no poder sabe que em caso de derrota o que o aguarda é a prisão, a morte e o exílio. São essas as consequências do jogo político, é essa a dura realidade que se esconde atrás de cada tapinha nas costas, cada fotinha com chapéu de cangaceiro, cada declaração anódina sobre “conteúdo programático”, “governo propositivo” ou “garantia de direitos”.
Ontem o candidato favorito foi esfaqueado em praça pública e todos os outros candidatos se apressaram em dar declarações (cuja insistência um cínico poderia considerar suspeita) que podem ser resumidas em “repudiamos a violência, prezamos o debate de idéias!!!”.
Não tenho dúvidas de que esses outros candidatos (e especialmente o não-candidato que teima em aparecer nas pesquisas e em cujo longo governo criaram-se tantas caixas-pretas que agora aparecem prontas para ser devassadas) sabem do que se trata a política ao fim… e ao cabo.
Resta descobrir por que agem como se não soubessem, e por que não querem que você saiba.
