A merda de ter consciência social

… é que virou moda.

ESPERE!, respire fundo e me deixe explicar, antes que você se vingue com um textão no Facebook. Sim: existem modas e modas. Por exemplo, é um consenso que a moda das calças saruel é desnecessária. Filtros Retrica nas fotos também. Quem dirá o boom de niilistas de internet. Essas são as modas dispensáveis, mas que existem e vão continuar nascendo sem nenhum cabimento lógico. Quanto à parte que interessa: como exatamente estou acusando consciência social de ser uma moda negativa? Por que diabos o empoderamento das mulheres, o combate dos negros contra o racismo, a conscientização da diversidade sexual, a legalização do aborto, a luta contra a redução da maioridade penal, a descriminalização da maconha, e por aí vai — como eu, homem branco e cis gênero, tenho coragem de criticar todas essas causas que, diretamente, não me afetam?

Porque as pessoas estão destruindo-as.

Quando você ganha um brinquedo novo, precisa mostrar para todos. No dia seguinte, tem uma rodinha de crianças ao redor da Novidade Que Só Você Tem. E todas as crianças estão boquiabertas porque ele funciona a base de quarenta pilhas que precisam ser recarregadas a cada cinco minutos. E na ponta do pé de tanto interesse para ouvi-lo dizer que ainda não foi lançado no Brasil. Contudo, você insiste tanto na mesma tecla de que seu brinquedo isso, seu brinquedo aquilo, que as crianças enjoam. E se afastam. E quando chegam em casa, falam mal de você para os pais. Seu chato.

Pois bem. Sacou a ideia? Se não, vou ser mais explícito. Sim: consciência social é uma maravilha. E quando você abre sua mente e começa a “quebrar os paradigmas” e “desconstruir ideias retrógradas”, nessas mesmas palavras repetitivas, o mundo parece nascer de novo com uma face mais sedutora. O seu Facebook fica rodeado de publicações do Quebrando o Tabu, e em cada uma delas alguém responde Mas isso não [______]? [Insira uma opinião contrária no espaço em branco]. Você responde com um comentário curto e grosso, como se a resposta fosse óbvia e todos soubessem disso desde a infância — e você não tivesse descoberto semana passada que, por exemplo, Migo, qualquer um sabe que a Guerra contra as Drogas e o Narcotráfico se mostrou muito ineficaz e ineficiente nestes últimos 30, 40 anos, exterminando pretos, pobres e favelados que nada tinham a ver com o Narcotráfico. A pessoa contra-argumenta. Manda uma pesquisa. Dados estatísticos. Um vídeo de um médico justificando a criminalização. Portanto, você se vê no direito de, nessa ordem, 1) responder com um Não, migo, que que cê tá falando?, senta lá, seu homofóbico racista machista porco capitalista, 2) ao que os seus amigos respondem com um Sambou de salto 15, ou Arrasou, monamu, ou outro meme de internet que faz deboche de qualquer discussão que, por incrível que pareça, poderia se tornar construtiva, e então 3) você apaga tal pessoa do seu Facebook. Por fim, qualquer um que contra-argumentar com suas postagens, publicações ou posição ideológica será recebido com um Não preciso ler isso, e todo o ciclo já mencionado se repetirá, até que seu Facebook se torne um harém de pessoas que pensam igual. Isso porque sua grama é mais verde. Já a do seu vizinho precisa ser aparada, porque Tá feio, tá micão.

Esse é o problema. Percebeu como as coisas cresceram numa proporção… medonha? Você se tornou arrogante. O dono da verdade. Aquele que ninguém suporta porque, não importa o quanto tentem argumentar, você apela o mais rápido possível para o deboche, a galhofa, o argumentum ad hominem. Ou seja, ao invés de se dar ao esforço de desqualificar o argumento através do diálogo, da discussão, da contra-argumentação, você critica o autor e não o conteúdo. Assim, olhe ao redor: você está sujando a imagem da causa pelo qual luta.

Porque ela está rodeada de alienados que não sabem argumentar a favor dela.

E mesmo assim é a única pauta do qual sabem falar.

Ao invés de tornarem o título de geração de “mimimi” uma ironia positiva, pagam na mesma moeda e tampam os ouvidos.

Uma legião de pessoas que dizem Nossa voz vai ser ouvida e não ouvem o outro.

Seus chatos.

Isso é moda negativa: estampar um assunto de extrema importância e urgência na cara de todos… da forma errada.

Lembre-se: hoje, o boom da consciência social existe. E todos estão abertos a escutarem. Se você obrigá-los a 1) aceitar sua posição como verdade absoluta, 2) tornar o diálogo um palanque de deboches, e 3) ignorar a importância das opiniões contrárias, as pessoas aprenderão com você. Fique tranquilo. Relaxe. Sem problemas. Responderão que Nós entendemos. Sim: entenderam que quanto mais distante ficarem das suas causas de consciência social, melhor para elas. Daí, você se tornou responsável por transformar a explosão da “empatia ao próximo” num eco irretornável. Durma com essa: seus amigos estão rindo e dizendo Miga, sua loca, a linha do tempo do seu Facebook está linda, e você está orgulhoso de si. Só que o mundo não mudou nadinha.

Mas o que importa é que você encheu seu ego, né?

Seu chato.


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