Sobre Tranquilo e Favorável, Inês Brasil e Sua Mãe, Aquela…

Se você chegou até aqui, é um consenso geral de que tem acesso à internet. Dito isso, não tenha vergonha de dizer que, vez ou outra, você vê coisas estranhas por aqui. Não me refiro à pornografia. E sim a todo o resto. Como vídeos de cachorrinhos fofos globalizando. Isso tem que dizer alguma coisa a respeito da humanidade, certo?

Não sou lá um exemplo de alguém comunicativo. Pelo contrário. Falo quando necessário e evito que a necessariedade seja necessária. Para facilitar: prefiro ficar isolado, na minha, sozinho. Não tenho sociofobia. Só preguiça de interagir. É assim: um amigo me chama para um evento sexta-feira à noite na Rua do Ouvidor, centro do Rio, música boa e pessoas bacanas, ao que respondo “não dá, puxa, bem que queria, mas meus pais não deixam”. Eles até deixam. Mas é que eu não quero ir e, sob esse pretexto, a culpa não é minha. Usei essa desculpa tantas vezes que meus amigos desistiram de me chamar para sair e, aí sim, tudo facilitou. Sem convite pra Santokê, Seminário Internacional de Movimentos Culturais, Beco #2, Social na Casa da Viihzinha e tudo o mais. Ok, agora que você sabe sobre minha vida social, vamos à outra problemática, aquela que é inevitável: a vida social virtual.

Só para você ter uma ideia, acordei com umas vinte notificações no Twitter. Um amigo meu me marcou num gif engraçado, um gato pulando à la Fabiana Murer nos saltos olímpicos por ver um pepino, um maldito pepino. Isso é engraçado, porra. O problema é que outro amigo, esse não tão próximo, comenta uma risada desvairada e marca mais umas três pessoas. O que leva a um marcando o outro infinitamente, e meu nome envolvido nesse mar de marcações, e as notificações chegando o tempo todo. E é assim com todo gif. O bagulho de quatro, cinco segundos, vira um hit nacional. Por algumas horas. Depois outro gif toma o posto. Depois uma notícia do Sensacionalista no Facebook. Depois um funk engraçado no YouTube, “tá tranquilo, tá favorável”, com um gordo tetudo de cabelo multifacetado dançando, e por fim a internet passa a orbitar em torno de um endeusamento inexplicável por uma atriz — ou ator? — pornográfica entitulada Inês Brasil. Imagens, vídeos, e até frases ditas por ela repetidas por toda parte, sempre seguidas de uma risada por quem postou. “É como diz o ditado: vamos fazer o quê?”, isso tornou-se uma piada. Uma grande piada, sério, não estou zoando. É isso que acontece quando não ensinam Monty Python nas escolas, as pessoas passam a rir de qualquer coisa. A internet criou esse ciclo de comédia por aí, onde a qualquer lugar você pode tirar riso das desgraças, um tombo na TV, uma frase mal dita — e não maldita — por um entrevistado do Danilo Gentili, uma funkeira mirim praguejando falsetes, ou o André Marques mandando aquele como DJ.

Enfim. Quem sou eu para julgar o riso alheio? Que riam — o problema é quando eu acabo envolvido nisso, notificado desse tipo de coisa. E não sei se dá pra fugir da vida virtual também, afinal é a única que me resta. Uns amigos meus partiram para o exílio. Venderam celular, desativaram conta do Twitter, deletaram Whatsapp, deixaram apenas o Facebook ligado, porém com todos os Possíveis Transmissores de Pragas — os famosos Compartilhadores de Memes Vinte e Quatro Horas Por Dia, Sua Mãe Não Reclama Disso Não? — devidamente bloqueados e apagados, daí a rede social serve só para contatar alguém aqui e ali quando necessário, marcar um chope, um cineminha para ver Deadpool. Eles são verdadeiros Supertramps, seguindo a deixa do carinha de Na Natureza Selvagem, mas dessa vez culpando a internet de ser a sociedade suja e corrupta e descobrindo na vida desconectada a liberdade.

E eu? Não tenho forças para isso. Largar a internet. É um vício. Você não larga cigarro ou, sei lá, óculos espelhados, casacos falsificados da Adidas e bonés da Oakley só porque são deliberadamente horríveis: você precisa de reabilitação ou coisa do tipo. Como uma conversa séria com seus pais, no segundo caso. Ou uma dose de bom senso. Mas não me deixe perder o fio da meada. A questão é a seguinte: eu estou com medo da internet. Já viu Idiocracia? Então, lá, as pessoas passaram a tentar regar plantas com Gatorade ao invés de água, porque elas se tornaram tão burras por rir de qualquer coisa que passaram a ignorar o que importa, tipo, sobreviver. E calma, não é que você não possa ser um descerebrado que repete “Queria estar morta” trinta vezes por dia, rindo com os amiguinhos como se isso já não tivesse perdido a graça nas primeiras cem vezes… pelo contrário, Deus me livre de afetar o seu estilo de vida invejável, mas, tudo é bom no meio termo. Justa medida, como dizia Aristóteles — ele deve ter previsto uma praga desse tipo e deixou avisado, “maneira aí, galera”. De um jeito mais rebuscado, claro. E também não é que você tenha que se tornar um eu, ou seja, alguém que não ri de nada e prefere ficar apontando o dedo pra vida alheia, nada disso, só estou, sei lá, deixando aqui uma ideia, uma sementinha para que você reflita, entendeu? Não há mensagem nenhuma aqui, só uma espécie de desabafo.

Entre um parágrafo e outro, dei um pulo no Twitter, para ver se eu não estava falando besteira, ou um lance exagerado, e cada descida no mouse é o suficiente para ter inspiração — só para que você saiba, essa queridinha da inspiração geralmente vem de coisas ruins, negativas, tipo desesperança na humanidade — e, pouco a pouco, querer um blecaute geral que desligue a internet. Mas, antes que isso aconteça, postaram outro gif no Twitter e, pu-ta-queo-pa-riu, a garotinha enfiou o dedo no cu do cachorro, que respondeu com um sustinho quase humano, ai caralho, olha como ela está curiosa em saber o que é esse buraco no meio do nada abaixo do rabo do cão, e note como inocentemente põe o dedo lá dentro, nossa Senhora, eu amo a Internet.


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