o espelho

o ônibus freia bruscamente: parece ter atropelado alguém. em choque, não consigo pensar direito. estou me tremendo; meu coração está acelerado e parece que vai parar a qualquer momento. eu não sei o que fazer.

ingênuo, olho pela janela. costumava ter uma árvore ali — era uma cerejeira. me lembro bem porque ela me marcou por muito tempo — , agora só resta o tronco: morto, podre. até que eu percebo que estava me enganando. sim, a árvore estava morta, cortada; ela foi assassinada. mas não era ela unicamente que eu via que estava podre; em decomposição forçada.

limpos os olhos e percebo que era verdade. além da árvore, havia alguém. e eu lembro dele porque seu cabelo chamou minha atenção e automaticamente sentia que gostava dele. porém, ele não estava lá.

penso no que supostamente pudera ter acontecido. “será que desistiu — costumava vestir uma camisa que dizia que era um cientista em formação — ?”. ou “acho que ele apenas não veio hoje!”.

e, em tudo que eu pensava eu estava excessivamente errado. eu era ingênuo. tolo. burro. cego. eu tinha perdido minha sagacidade.

o motorista do ônibus, por sua vez, se levanta e vejo que ele está com as mãos na cabeça, parece estar desesperado. um homem, gordo e alto, que estava na minha frente, grita: “está vivo?”

percebo, ainda, que minha testa estava molhada. quando bati a cabeça acabei me cortando. continuo me tremendo. “o que aconteceu?”

na medida que vou tomando coragem, me levanto. ando vagarosamente e ao olhar pelo vidro frontal vejo algo que nunca pensei que fosse possível de acontecer. por pura coragem, ou burrice, eu olhei e ele estava lá. o sangue escorria no asfalto, criando um espelho: e foi ai que eu vi, finalmente.

mesma camisa. mesmo cabelo. mesmo rosto. contudo, morto.

no asfalto, uma cadela morta. o motorista não conseguiu desviar a tempo e atingiu a pobre vira latas.

me sento. estou em êxtase. nunca mais serei o mesmo, tenho certeza disso. e, apesar de ter recuperado minha argúcia, a qual tinha perdido a tempos: perdi outra coisa; desta vez, o medo.

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