“O nome dessa incapacidade é analfabetismo funcional. O problema das classes falantes no Brasil é que, excetuando mensagens corriqueiras, não compreendem o que lêem, portanto muito menos compreendem o mundo real, seja na escala macroscópica dos acontecimentos mundiais, seja naquela mais próxima e modesta do seu horizonte de experiência direta. Pois o sentido de um texto, que já vem hierarquizado em categorias – pré-mastigado, por assim dizer – é infinitamente mais fácil de apreender do que o nexo entre acontecimentos reais, onde a inteligência do observador tem de fazer sozinha todo o serviço, desde as analogias primitivas até as últimas precisões lógicas. O sujeito que é burro diante de um escrito é necessariamente mais burro diante da vida, exceto, é claro, no círculo limitado da sua experiência repetitiva, onde a eficácia das soluções herdadas lhe dá uma ilusão de inteligência.

Para piorar, quanto mais um indivíduo se mostra incapaz de apreender a mera referência fática do que a gente lhe diz, mais se sente habilitado a diagnosticar, por adivinhação, os sentimentos íntimos e as motivações ocultas do interlocutor – como se a inépcia lingüística fosse um atestado de especial acuidade psicológica.

Ao ler este mesmo artigo, certos leitores, justamente por não ter concentração bastante para comparar com os dados de sua experiência interior as reações nele descritas, para ver se o caso assinalado não é precisamente o seu, se sentirão instantaneamente habilitados a proclamar que o escrevi por tais ou quais motivações sórdidas ou doentias, tão-somente para insultá-los sem razão, por mero sadismo. Cada analfabeto funcional que encontrei nesta vida imaginava ser o dr. Freud em pessoa. Um pequeno estoque de chavões psicológicos prêts-à-porter é a melhor defesa contra os riscos da autoconsciência, sempre um tanto humilhantes.” Olavo de Carvalho.

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