Hoje, eu não fui assaltada. Meus amigos foram. E você?

Ia sair para correr, mas preferi ir à casa de um amigo que tava cheio de histórias para contar sobre sua viagem a São Paulo. E eu, louca para viajar nas histórias dele. Cheguei umas 21h, ele me mostrou o livreto da programação da semana da diversidade, lindo. Feito pelo Itaú Cultural, com nossa grana, já que tinha a logomarca enorme do governo federal. Foram tantas conversas e risadas que a hora passou ligeira. Como deixei o celular e fui só com a chave de casa, perguntei a hora, “mais de meia noite?”, me despedi apressada e pedi para ele abrir a porta.

Fui, mesmo debaixo de uma garoazinha. Vou andando e observo o vazio da rua fria, da noite molhada. Ouço de longe o barulho, era uma moto diminuindo a velocidade enquanto o meu coração acelerava forte (medo), pensei que fosse ter um treco, o coração acelerava mais à medida que a moto se aproximava. “Me lasquei”, a moto parou. Eu olhei, já preparada pra dizer que só tinha a chave, (não era tão idiota a ponto de andar com qualquer objeto de valor) ou pronta para correr!. “Vai de moto?”, acenei que não. O mototaxista acelerou e meu coração quase para.

Passo em frente ao Cine São José, lembro do Show do dia da mulher, com Flávia Wenceslau, e olho para a esquina onde cruzei com ela naquele. Fui determinada a assistir pelo menos à última música do bis, do show. Quando a vi ali, meu coração acelerou, mas aquele acelerado bom, de alegria, diferente do anterior.

Volto para hoje, continuo descendo a rua, barulho de carros lá longe, mais uma moto. Preferi ficar meio que escondidinha entre luzes e sombras dos postes. A moto vem se aproximando, mas eu passo despercebida. Em frente à AABB, ainda tinha gente saindo do clube, acho que era dia de futsal. “Gente!”, pensei aliviada. O carro entra na minha rua também, me bate um medinho, mas quando dobro a esquina, confirmo que foram embora. Entro na rua de casa, vejo dois rapazes se aproximando e, mais uma vez, o coração dispara e as pernas sempre preparadas pra correr. Medo de ser assaltada, abusada, esfaqueada. Quem nunca viu a vida passar na sua frente assim, depressa?, Quem não carrega um trauma de assalto? Abuso? Violência?”. “Chega!”, falo para mim mesma e vou em frente, “Você está invisível”, tentava me acalmar. O mais alto, soprou a fumaça do cigarro, me olhou desconfiado e passou. O outro, mediano, nem olhei direito e se olhei, não vi foi nada. “mais um cagaço em dez ou quinze minutos de caminhada. Já deu universo.”, o prédio, viro à esquina e, dessa vez, nem alma penada na rua.

Abri o cadeado e o portão. Me atrapalho, porque ele abre pra fora e eu fico empurrando o danado. Entro, fecho o portão, o cadeado. Subindo as escadas, escuto um carro descendo a rua. Olho pela varando, a garoa se exibindo para o poste de luz amarela. Escolho a chave da porta no último lance da escada e já vou segurando a danadinha pra chegar certeira no buraco da fechadura. Chego ao final do corredor, abro a porta, bem na hora que o purificador automático dá uma borrifada.”Êita susto!”. Entro, pego o celular para ver se alguém havia ligado. E lá estavam algumas chamadas e, entre as mensagens, os amigos do trabalho. “Manu, fui assaltado na frente da Agência”, outro amigo, “Manu, você tá bem? Os meninos foram assaltados”. E eu, fui assaltada também, mas de tristeza.

No face do meu amigo: “Sem telefone por tempo indeterminado por motivos de assaltado por um mototaxi, rs :) só esclarecendo: o mototáxi me abordou na rua e anunciou assalto a mim e ao meu chefe”.
Boa noite.