Watford 1–3 Arsenal: Análise tática

Arsenal (4–2–3–1): Čech; Bellerin, Koscielny, Holding, Monreal; Xhaka, Cazorla; Oxlade-Chamberlain, Özil, Walcott; Alexis.

Watford (3–5–2): Gomes; Kaboul, Prödl, Kabasele; Amrabat, Guédioura, Behrami, Capoue, Holebas; Deeney, Ighalo.

Pré-jogo

Em jogo válido pela 3ª rodada da Premier League, o Vicarage Road foi palco do confronto entre duas equipes que até o início da partida figuravam na metade de baixo da tabela. Ambas carregavam o fardo de terem conquistado apenas 1 dos 6 pontos disponíveis nas duas rodadas anteriores, e garantir a primeira vitória da temporada era prioridade máxima.

Do lado do Watford, Walter Mazzarri vem retomando suas atividades profissionais como treinador após uma pausa de 18 meses e ainda passa por um processo de adaptação ao futebol inglês. O italiano chegou ao duelo deste sábado ainda digerindo a eliminação precoce de seus comandados da Copa da Liga, na terça feira, tendo sofrido uma derrota totalmente inesperada frente ao Gillinhgam FC (League One). Seu 3–5–2 ortodoxo foi mantido, e contra-ataques rápidos finalizados pela dupla Troy Deeney-Odion Ighalo tinham tudo parar serem eventos frequentes.

Já Arsene Wenger enfrentava complicações de natureza diferente, no que já se tornou uma saga familiar e litigiosa entre mídia/torcedores e o manager francês em toda janela de transferências. O clamor público era por contratações e investimento similar ao dos rivais, ainda mais urgentes diante de lesões indesejáveis (também familiares). No entanto, buscando soluções internas, a alocação inédita de Santi Cazorla e Granit Xhaka no double pivot e a volta de Mesut Özil ao time titular poderiam dar ao Arsenal capacidades de controle e desequilíbrio individual anteriormente ausentes.

Primeiro tempo

Logo nos primeiros minutos de jogo, já era possível perceber as posturas esperadas por cada time se materializando. A natureza controladora e orientada à posse de Santi Cazorla e Granit Xhaka dava aos gunners grande capacidade de circulação, buscando passes entre linhas, usando a amplitude dos laterais e contando com a flexibilidade posicional de Alexis Sanchez. O chileno procurava deixar sua posição original de CF vaga e flutuar pela esquerda, recuando ocasionalmente até o meio campo para dar suporte à Nacho Monreal e Oxlade Chamberlain, criando overloads. Cabia a Theo Walcott e Mesut Özil a tarefa de atacar o espaço deixado pelo camisa 7 com corridas incisivas.

Por outro lado, os donos da casa assumiram um modus operandi reativo. Deeney e Ighalo pouco pressionavam o back-4 adversário, dando liberdade total aos zagueiros para trocarem passes. A intenção da dupla era ocupar o círculo central, marcando o double pivot gunner por encaixe, o que acabou não dando muito certo devido à ótima resistência a pressão dos meio campistas visitantes.

O feitio móvel e veloz dos jogadores de frente do Arsenal davam ao time grande capacidade de pressionar os defensores opostos, tirando-lhes tempo e espaço para trocarem passes. Como alternativa, os Hornets procuravam alçar bolas longas na direção dos atacantes e torcer para que vencessem as batalhas aéreas, mas esbarraram na performance sólida de Rob Holding. O jovem inglês se mostrou ótimo mais uma vez e não teve grandes dificuldades ao lidar com as ameaças de Deeney.

Levando em conta tal panorama, o placar foi aberto logo aos 9’. Mesut Özil ocupou inteligentemente uma área exposta do meio campo adversário e recebeu passe entre linhas (mostrando mais uma vez ser um dos melhores jogadores do mundo no quesito). O camisa 11 teve tempo suficiente para perceber a movimentação de Alexis Sanchez na área e levantar um lançamento perfeito na direção do companheiro, que foi grosseiramente derrubado por Amrabat. Santi Cazorla converteu da marca da cal.

Pressão londrina dificulta saída terrestre do Watford, totalmente dominado na primeira etapa.

Estando em desvantagem, Mazzarri exigiu maior intensidade e proatividade. Seus atletas começaram a ocupar posições mais avançadas, com a dupla de CFs agora encaixada aos zagueiros do Arsenal. Consequentemente, espaços desocupados começaram a surgir nas costas da defesa, e isso precisa ser cuidadosamente administrado quando o rival têm na manga jogadores com a capacidade de conectar passes longos e precisos ao 2º e 3º terços do campo. E esse risco claro viria a se tornar frustração aos 40’, quando Sanchez finalizou um belo contra-ataque, se aproveitando do descuido defensivo. 0–2.

Hornets ensaiam avanço, mas deixam espaços vagos na defesa.

Dois golpes duros, e mal sabiam os presentes que esse déficit ainda se ampliaria nos acréscimos do 1º tempo. Alexis flutuou mais uma vez pela esquerda, Özil atacou o espaço central vago e (contando com a ajuda de Capoue) subiu sozinho pra marcar, de cabeça, 0–3. Primeiro tempo impecável dos de Arsene Wenger.

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Segundo tempo

Na intenção de diminuir o vexame, Mazzarri introduziu já no intervalo o habilidoso meia ofensivo Roberto Pereyra (recém chegado da Juventus) na vaga de Adlène Guédioura, e deu continuidade à sua postura mais agressiva. Em contrapartida, com uma vantagem considerável nas mãos e procurando conservar energia, os gunners se fecharam, abdicaram da bola e a dinâmica do primeiro tempo se inverteu.

Tanto se inverteu que o volume de jogo dos anfitriões começou a aumentar consideravelmente frente à repentina ausência de controle do Arsenal, que parecia ter recuado bem mais que o necessário, e aos 57' o estreante argentino marcou seu primeiro gol com a camisa amarela. 1–3.

Lance do gol de Pereyra. Arsenal mais recuado do que deveria após renunciar posse na 2ª etapa.

Esse padrão viria a continuar o mesmo durante todo o 2º tempo, no que foi uma decisão no mínimo estranha de Wenger. Não havia necessidade de retroceder tanto e ter administrado melhor a posse seria uma alternativa mais conveniente. O atacante nigeriano Isaac Success ainda foi introduzido no lugar de Amrabat como último recurso na tentativa de reação, mas com defesas providenciais de Petr Cech e um pouco de sorte, a equipe londrina voltou pra casa com os 3 pontos.

Conclusão

Tudo bem que os adversários não foram dos mais favoráveis, mas fato é que o Watford continua sem vencer na competição, se encontra na zona de rebaixamento com 1/9pts, e talvez a decisão contraditória da família Pozzo de sacar Quique Flores do comando se transforme em arrependimento antes do esperado. Faltam gols, falta desequilíbrio, falta solidez defensiva, enfim, falta muito nesse início.

Quanto aos de Ashburton Groove, ficam algumas boas impressões e sinais de reação. O time sente falta de estruturas táticas definidas (principalmente defensivas) que poderiam potencializar as individualidades, mas a grande qualidade das peças e a sintonia entre Özil e Alexis podem ser vitais na disputa pelas primeiras posições. Adições recentes de Lucas Perez (Deportivo La Coruña) e Shkodran Mustafi (Valencia) também devem se provar de grande importância na manutenção de um esquadrão competitivo em todas as frentes durante a temporada.