O Machismo nas redes e a impunidade do discurso de ódio

A certeza da impunidade é um gatilho para a disseminação de violência verbal nas redes sociais

As redes sociais criaram um canal de comunicação entre a sociedade jamais imaginado em tempos mais remotos. Hoje é possível questionar, pesquisar e opinar apenas com um click. Essa disseminação da internet trouxe benefícios e malefícios para a população como um todo. Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade arcaica e retrógrada, impregnada por machismo, e apesar das redes terem proporcionado maior visibilidade às vítimas dessa misoginia, também ajudou a espalhar ainda mais o discurso de ódio presente na coletividade.

A conquista dos direitos da mulher ainda é recente, grande parte da população mundial, em sua maioria homens, se recusa a enxergar que vivemos em um século completamente diferente, com novas ideias e perspectivas. É um fato que o machismo é cultivado ao longo dos anos, através de uma cultura onde a serventia da mulher nada mais é do que uma dona de casa. Veja bem, o conceito de “dona de casa” em si não deve ser considerado um defeito, mas sim a ideia de que apenas essas mulheres têm valor e merecem respeito. A misoginia é passada para nós desde crianças; garotos são ensinados a oprimir e garotas são ensinadas a odiarem a si mesmas e a tudo que fazem. Fatores como a cultura e a religião ainda geram forte influência na luta pelos direitos da mulher, inferiorizando seus ideais por uma sociedade mais tolerante e igualitária. O fato é que a concepção de que um estupro é culpa da vítima ou que uma gravidez indesejada é responsabilidade da mulher, ajudam a manter valores retrógrados e machistas na sociedade, valores esses que são constantemente disseminados na internet.

Constantemente declarado como opinião, o discurso de ódio está mais presente nas redes do que se imagina, bastar observar notícias de estupro, assédio ou violência contra a mulher para encontrar apenas uma parcela da misoginia presente na concepção do público. Apesar de muitas páginas e sites filtrarem esse tipo de conteúdo, nem sempre ele é eficaz, principalmente diante dos internautas que levantam a bandeira da liberdade de expressão para justificar a disseminação de ódio. Mas onde termina a opinião e começa o discurso de ódio, e por que é essencial colocar essa temática em debate? O discurso de ódio começa a partir da disseminação de mensagens hostis que descriminam e incitam ódio e violência a um grupo ou a uma pessoa a partir de sua raça, religião, gênero, orientação sexual ou qualquer característica que o torne “diferente” do meio em que vive.

Para exemplificar essa tese, analisamos um caso específico de misoginia e discurso de ódio nas redes. Janeiro foi marcado por um dos crimes de ódio mais violentos do Brasil, destrinchando uma série de debates em volta do machismo no país. Um homem invadiu uma festa de réveillon e Campinas e assassinou a ex-esposa, o filho, e mais dez familiares da vítima, se matando logo em seguida. Investigações posteriores, afirmaram que a causa do crime foi a briga judicial pela guarda do filho, e uma acusação de pedofilia feita pela mãe contra o pai do menino. Aparentemente, foi um crime envolvendo misoginia e a não aceitação do relacionamento. Analisando comentários do site G1 e de páginas no Facebook, é possível observar uma quantidade absurda de pessoas — em sua maioria homens — que defendem a atitude do criminoso, usando para justificar que “todo pai fica louco quando tentam tirar seu filho”. O homem deixou uma carta explicando o porquê de ter cometido o crime, e é possível encontrar grandes semelhanças entre as palavras na carta e o discurso presente nas redes.

“Essa mulher e a família dela MATARAM O CARA EM VIDA, claro que não justifica, porque o CRIMINOSO aí é o estado que não julga com imparcialidade. A LEI MARIA DA PENHA VIROU ARMA NAS MÃOS DAS MULHERES DESIQULIBRADAS”

“Não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia) tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha! ”

O primeiro trecho foi retirado de um comentário no site G1 em uma matéria que abordava a motivação para o crime, o segundo é um trecho da carta deixada pelo pai. Analisando a carta e os comentários de três notícias do mesmo site, observamos que o discurso além de ser repetido por milhares de internautas, também usam o fato da acusação de pedofilia da mãe para justificar o crime. E sem surpresa alguma, a maioria que compartilha desse ponto de vista são homens. Isso nasce da problemática em que nossa cultura naturaliza a culpabilização da vítima, e essa concepção tem se tornado cada vez mais forte com o modelo feminino idealizado para uma mulher.

“O típico caso de um homem que chega ao limite devido as injustiças. Uma mãe pilantra que cria história de abuso sexual para impedir o ex-marido de ter a guarda ou ver os filhos é muito comum. Só que a pilantra não contava com isso. Espero que tenha sofrido muito e demorado a morrer para pensar no que colheu após plantar a mentira é o ódio. ”

Comentário retirado do G1

É certo afirmar que o discurso de ódio também ocasionou essa chacina? De um certo ponto de vista sim. A carta deixada pelo pai, apresenta elementos muito presentes nessa nova fase ideológica conservadora que vem tomando conta do Brasil, onde a violência é justificável desde que defenda a concepção daquele indivíduo. É uma situação preocupante, pois, esse tipo de discurso está se tornando cada vez mais presente não só nas redes, mas também na mídia e na política brasileira. Essa mensagem presente nas redes é transferida para o discurso político, ajudando a disseminar essa violência para outros meios.

Está previsto na Constituição Brasileira que todo indivíduo tem direito à livre expressão de pensamento, sendo vedada a censura de natureza política, ideológica e artística. Apesar de não haver uma legislação específica, o discurso pode ser criminalizado diante de mensagens que pregam preconceito a uma raça, cor, etnia ou religião. Os principais alvos desse discurso, geralmente são as minorias sociais, e esse pensamento infelizmente ainda é compartilhado por parte da população, principalmente pelo discurso de ódio não ser penalizado com facilidade. A impunidade muitas vezes é o gancho para dissipação dessas ideias, o que ajuda a normalizar essa visão no meio em que vivemos. Mesmo com a existência de delegacias especializadas em crimes cibernéticos, a punição dos responsáveis raramente é cometida, deixando livre espaço para que esse discurso continue a transitar pelas redes.

A falsa ideia de democracia presente na população leiga no contexto sócio-político, padroniza o pensamento de que o discurso de ódio se encaixa no contexto da livre opinião pública. A internet com suas ferramentas causam a sensação de impunidade no indivíduo, ajudando a disseminar a ideia de violência e preconceito, sem pensar nos impactos que isso causa da sociedade como um todo.

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