Sobre todas às vezes em que fomos silenciadas por sermos mulheres

Como estudante de licenciatura o trabalho em escola hora ou outra chegaria, e para mim chegou já mais para o fim do curso, numa hora em que já havia me libertado das amarras acadêmicas e pensava com mais propriedade sobre a educação. Como bibliotecária meu contato com as alunas e os alunos era diário, assim como meu aprendizado. Não tinha preferências mas os pequenos sempre me encantaram mais, me fascinava essa descoberta do mundo, as brincadeiras, os primeiros contatos com a escola, sempre tão importantes.

Junto com todo esse encantamento, vinha também uma pontadinha de desânimo: com a educação no geral, com a automatização do ensino, com o descaso com a realidade escolar, mas principalmente com o machismo presente nesse ambiente. A escola é sim um ambiente que pode ser transformador, mas pode ser também uma perpetuadora de velhas opressões, e é aterrador como essa opressão chega a nossas meninas tão cedo. Já na pré-escola, começa o período de adestramento, de aparar as arestas, é nesse momento em que se começa a separação das crianças, no qual as mais resistentes ou se dobram ou permanecem cada vez mais fortes.

Do alto de meu posto observava de maneira privilegiada como meninas tão novas eram podadas, apagadas e até mesmo relegadas, as resistentes eram as que mais me encantavam: não paravam quando eram mandadas, não falava baixo, não sentavam e esperavam, eram verdadeiras forças da natureza, inalcançáveis e fortes, como toda menina devia ser. A socialização feminina naquele momento falhava, e nada me regozijava mais do que apreciar aquilo acontecer.

Como educadora e principalmente como feminista essa realidade escolar não era nada lisonjeira, esse apagamento aconteceu comigo na escola, aconteceu com amigas e colegas, era constante e diário e moldou as mulheres que somos hoje. No exato momento em que uma menina é silenciada, enquadrada, moldada para ser quem não é, a grande mulher que está dentro dela pronta para desabrochar murcha, tal qual uma flor que não é regada. Cada vez que uma menina é reprendida por ter um comportamento que não é “adequado” ela entende que isso não deve se repetir, que deve se adequar, se transformar, que a sociedade não tolera mulheres desobedientes, e nós somos constantemente lembradas disso.

Quando criança fui uma dessas meninas, meu maior empecilho na escola sempre foi o fato de falar demais, era muito inteligente, extremamente criativa, mas falava demais. Talvez por ter sido uma criança criada rodeada por adultos se tornou natural ser o centro das atenções, o que não se concretizava na escola, ali eu necessitava disputar e conquistar meu espaço com iguais e o jeito que melhor conhecia era falando. Não demorou muito para que esse comportamento fosse consertado, minha voz foi aos poucos sumindo até que desapareceu completamente. Os anos finais do Ensino Fundamental e o começo do Ensino Médio foram tempos torturantes onde muito mais ouvi e observei do que falei, onde constantemente via meninos ocupando espaços que julgava poderiam ser meus, se eu tivesse coragem de falar.

Na faculdade foi a mesma coisa, todos os seminários e apresentações eram uma gangorra emocional onde meu psicológico falia a cada vez que precisava altear a voz e me fazer ouvir, minhas mãos suavam, meu estômago me fazia ter náuseas insuportáveis, insônia era normal e a sensação de que iria esquecer tudo o que tinha estudado era constante. Não foi uma nem duas vezes que travei e som nenhum saia da minha boca, ou quando saia, era um amontoado de palavras sem sincronia ou sentido, o pânico era muito mais forte que eu.

Durante todo esse tempo minhas notas foram excelentes, minha escrita era praticamente perfeita, estudava incontáveis horas em casa, lia toda a bibliografia recomendada, consegui monitoria, bolsa de pesquisa, ganhei prêmio de Iniciação Científica, escrevi e publiquei artigo, fiquei muito tempo nos bastidores, minha voz só foi realmente escutada no fim do curso. Levei quase quatro anos pra me sentir a vontade para falar em público, para não me sentir uma fraude, uma farsa, não ter medo de levar uma reprimenda ou ser corrigida, e quando finalmente consegui me senti vitoriosa.

Hoje, já formada e fora do ambiente acadêmico, consigo atentar com mais facilidade para essas nuances e observar como esse silenciamento afetou não só a mim, mas a muitas colegas. Como estávamos em pé de igualdade dentro de uma sala de aula e ainda assim poucas eram as vozes femininas escutadas, como vezes sem fim observamos professores e colegas discutirem assuntos que (muitas vezes) dominávamos com mais propriedade, mas não nos sentíamos a vontade para participar, e principalmente como o ambiente acadêmico segue a matriz da escola e nos coloca em posição vulnerável e incômoda, simplesmente por sermos mulheres.

A Síndrome da Impostora hoje é comum a nós, mesmo que sejamos mais aptas, qualificadas e competentes a falta de confiança ainda vai nos fazer buscar a provação masculina, o que só faz minar nossa autoestima. O pensamento de que sou uma fraude me acompanhou durante toda a graduação, em cada seminário apresentado, em cada resenha entregue, em cada resposta de prova, me acompanhou inclusive durante eventos acadêmicos e a defesa de minha monografia, onde sentada em frente ao meu avaliador tremia da cabeça aos pés com a possibilidade dele desqualificar meu trabalho com suas críticas. Persegue-me ainda até hoje, mesmo após uma grande e complexa desconstrução tudo o que escrevo é permeado pela dúvida e pelo sentimento de frustração, pois desde sempre foi impregnado em meu inconsciente que não deveria me destacar, pois era mulher e esse lugar não deveria ser meu, mesmo batalhando diariamente para que ele seja.

Acredito enquanto professora que atualmente uma educação feminista seja possível, e muito mais do que possível necessária. O incentivo ao crescimento deve ser diário e de tal forma que não detenha nossas meninas, não deixe que sejam permeadas pelas mesmas angústias e aflições que carregamos, para que se sintam capazes e fortes, para que sejam lideranças e para que consigam fazer-se escutar, para que suas vozes reverberem e façam-se ouvir por essa sociedade que tenta diariamente nos calar de todas as maneiras.

Tento sempre em todos os espaços que ocupo ouvir essas vozes jovens que tantas vezes se levantam contra as imposições, tento fazer com que essas vozes ecoem e criem ecos, que contem suas histórias e formem conversas que se espalhem, que criem raízes e fecundem esse solo tão rochoso que ainda somos obrigadas a caminhar, que preparem o caminho para as meninas e mulheres que virão depois de nós, que não se permitam calar, que não mais sejam silenciadas por serem mulheres.

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