A vida dos outros

Ilustração de Bruno Aziz

De uma janela antiga via-se a baía, os prédios da Gamboa e os contêineres da Hamburg Süd em cargueiros dormentes sob a lua cheia. Via-se Itaparica e a Igreja do Bonfim. Alguém disse que só nos damos conta de que somos felizes quando conjugamos o verbo no passado — e eu me lembro disso quando giro a persiana.

Minha vista atual é uma janela lateral. Do nono andar, vê-se a rua de soslaio. Minha baía são outras janelas. Somos estreitos na fachada e profundos em nossos cômodos, e o nosso horizonte é tão curto que não carece de binóculos: no sexto andar, um boneco de neve sobre a mesa de canto. No oitavo, três velhinhos que se revezam entre o computador no quarto e o sofá da sala. Eles têm um vira-lata, que em junho ficou histérico por causa das cornetas e dos foguetes. Agora nas férias, assim como na Copa e no Natal, receberam visita.

No décimo, consigo ver uma orquídea roxa de tecido sintético. Sua anatomia parece mais imutável que o manequim de sílfide de Glória Maria; e quando o vento a invade, ela rebola como uma Dancin’Flor que não murchará. O nono andar passou 2014 se escondendo no blackout, coisa que da minha janela indiscreta achei suspeito. Semana passada, para minha surpresa, abriu as cortinas: encapsulados pelo vidro fechado, os braços do pianista eram como o levantar voo de uma garça nervosa, enquanto sua perícia de profissional me tocava do lado de cá. Deu raiva pensar que, em contrapartida, ele só pode me ver digitando qualquer nota e tomando Coca-Cola.

Ao virar a cabeça de través, ontem à noite avistei uma festa do outro lado da rua. Chovia, os carros passavam, o cachorro do oitavo me olhava em silêncio. Do lado de lá, a luz estroboscópica iluminava umas vinte pessoas dançando uma música que parecia muito boa. Parecia muito bom ser qualquer uma daquelas pessoas. Parecia muito bom ser o pianista da frente ou até mesmo o cachorro, que só come, dorme e ganha cafuné.

Hoje acordei pensando que é impossível ser tudo que você queria em uma única vida. Ou em um único ano. Mas desejar é como observar da janela. Para o resto existem as portas.

(Originalmente publicado na revista Muito)

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