O Demônio da Vulnerabilidade

Ilustração: Laurie Lipton

Falei esses dias a um amigo que ele estava idealizando as mulheres. Três dias depois notei: eu estava idealizando os homens.

Compreendi um pouco o estereótipo que sustentamos de que os homens não pensam; que fogem da dor; que querem emendar um relacionamento no outro para não ver. Sim e não.

É sofrível. Quando alguém faz isso, é como se a pessoa lhe convidasse para para ocupar o lugar do outro que se foi. E, ao mesmo tempo, ela morre de medo que você de fato ocupe esse lugar. E aí fica o perto-longe. Somos todos bons em contradições.

Se há algo bom, a pessoa morre de medo. Aceitar o presente bom é negar o passado saudoso; a gente quer se agarrar a ele, se prender. Ao menos é terreno conhecido. Às vezes, terreno conhecido da dor.

E quando saímos do não dito, é a brincadeira mental do faz de conta, do ir sem ir, da mentira: dar a largada para ficar de pernas cruzadas no chão, distante, observando.

Mas este amigo saiu desse lugar. Ele deu por encerrado os jogos. E me revelou a sua dor. Chorou. Chorou com lágrima e tudo! Chorou em palavras o que estava dando nós compridos no seu peito. E eu, mais atônita do que extasiada, mal pude acreditar quando finalmente ouvi aquelas palavras. Aquilo sim era nudez total. O nude mais difícil de ganhar. Fiz download assim, imediato, face a face. Esse nude doeu.

Naquele momento, não consegui contar a ele. Mas ele me salvou da minha dor velha, da minha dor maior de dentes amarelos; de cabelos secos feito palha; a dor empoeirada que há tempos não via… Quando me mostrou a sua dor. Ah…! Ele me salvou.

É claro. Dói ver o nosso inferno no inferno do outro. Dói… A vontade é dar aqueles três tampinhas nas costas, dizer que vai ficar tudo bem, dar um chocolate cremoso para ele e sair andando… Fingindo que não viu nada [seu] ali. Voltar pra casa chutando pedrinha no chão e em silêncio. Ou cantarolar Claudinho & Buchecha com uma coreografia mental e seguir rindo de si mesma.

Juro que, por reflexo, quase tive o impulso de pedir para ele parar com aquela revelação; tive vontade de sair dali, de nunca mais voltar.

É… Na verdade, eu nunca mais voltei.

Mas não era disso a minha sede? Da humanidade nas pessoas? Da vulnerabilidade que nos toca em intersecção? “Clareia a minha vida, amor… no olhar…”– olhar de gota de orvalho. Não era disso?

É que não temos a resposta, sabe? Fiquei pequenininha… E naquele momento, ao invés de “dar colo” àquele demônio horrível da dor que ele me [re]apresentou… o que pude fazer foi me reconhecer e ser companhia para o seu medo de ser sozinho. Deixei as minhas lágrimas atravessarem o apartamento dele também. E lá ficaram elas, no nosso silêncio. No soluço dele. Naquele sigiloso momento de vulnerabilidades voluptuosas.

Mas demos um passo a mais, juntos… Não demos? Um passo a frente.

:: Marina Monteiro

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