Sobre o Top Drag Paraíba 2016 ou das proposições do bate-cabelo e do close na cidade

João Pessoa tem cenas de drags, mas que parecem não se encontrar. Que tal pensar um pouco sobre isso, não é mesmo?

Fonte: Fanpage do Top Drag Paraíba. Divulgação. https://www.facebook.com/topdragparaiba

Já passava das nove e meia da noite quando a primeira drag queen se fez presente. Ainda não era uma das queens da competição, muito menos era seu corpo que se apresentava ali. A voz da transformista paraibana Magally Mel, drag oficial de uma das rádios da cidade de João Pessoa, e que apresentaria a competição nas próximas horas, anunciava mais cinco minutos para o início do evento, e divulgava o nome do DJ que então tocava — Raphael Fraga.

Na mesma semana em que a drag norteamericana RuPaul coroou a 9ª queen do seu Drag Race, João Pessoa sediou mais uma vez o Top Drag Paraíba, talvez o maior concurso de drags da cidade atualmente, ao lado do Miss Gay Paraíba e do Miss Beleza Gay Paraíba, e um dos poucos que se realizam ainda no estado da Paraíba. Ocorrido na noite de 21 de maio, no Teatro Ednaldo do Egypto, no bairro de Manaíra, a competição foi disputada por cinco drags — Victhoria Dpack, Nicki Umbeer, Yasmin Araújo, Talessa Tyler e Raquel Bacelar -, que trouxeram ao palco, cada qual a seu modo, grandes artifícios cênicos, dublagens de música pop, performances estonteantes de bate-cabelo, e encenações que ultrapassavam o palco e iam para a plateia. Teve mesmo o arranque de peruca como parte de performance.

Nick Umbeer “se livra” da peruca pouco logo após o começo de sua performance

Três das queens eram as favoritas do concurso: Raquel Bacelar, pelo aparato técnico e cenográfico que trazia na sua apresentação; Nicki Umbeer, que, apesar de nova na cena, carregava consigo a grande repercussão nas redes sociais; e Victhoria Dpack, com considerável experiência como transformista e, portanto, uma carreira mais consolidada. A vencedora foi divulgada após a meia noite, e o primeiro lugar iria para as mãos de Dpack, seguida da novata Nicki Umbeer. Raquel, por sua vez, ganhou o terceiro lugar, assim como o Top Drag Internet, ou seja, a que ganhou mais likes dos internautas nas redes sociais durante a competição. A vencedora recebeu premiação em dinheiro, faixa-título, peruca, DVD e gerenciamento de carreira.

Alexia Prada (costas), eleita a Top Drag Paraíba 2015, entrega o faixa desse ano à Victhoria Dpack. A diferença de pontos para com a segunda colocada foi de três décimos. Fonte: Fanpage do Top Drag Paraíba. Divulgação
“Atitude, talento, segurança e uma dose de surpreendimento ainda são os principais requisitos para conquistar o título” Filipe Pinheiro, idealizador do Top Drag Paraíba

O palco do Top Drag e, principalmente, o seu resultado — em especial, as duas que ficaram em primeiro e segundo lugar — , de algum modo marcaram algumas diferenças entre os estilos das drags que ali se apresentavam — e que, como metonímia, valia para as demais transformistas que nós encontramos por aí afora, nos shows, nas festas ou nas performances. Vale lembrar que a diferença entre a pontuação de Victoria e de Nicki foi de apenas três décimos entre os jurados — que contavam com maquiadores, promoters, acadêmicos e outras drag queens — o que demonstrava um acirramento não apenas das suas competências e de suas performance, mas uma espécie de empate simbólico. Nesse cenário, Victoria e Nicki performavam marcas e qualidades distintas, que as demarcavam em dois estilos diversos.

Correndo o grande risco da dictomia — ou, ainda, da dialética — e toda a pobreza em não contar com a diversidade e a multiplicidade nesse cenário, eu sugeriria uma elaboração mais ou menos assim: dois estilos estavam disputando aquele prêmio, de modo simbólico; um deles, mais histórico, com mais tempo galgado de atuação, e que se baseia, grosso modo, no bate-cabelo, mas também no certo luxo cênico, nas roupas exageradas e nas perucas, bem firmes, por sinal. É a performance do bate-cabelo, no entanto, que desponta aqui: a habilidade de girar a peruca, de fazer um movimento de “oito” com a cabeça, de conseguir ficar um considerável tempo sem se desequilibrar ou ficar tonta — ou conseguir fingir a tontura — conta pontos e define, no palco, quem são as melhores. Esse foi o estilo incorporado, vivido e defendido por quatro das cinco a concorrerem, entre elas, Victhoria Dpack, a que ganhou, ao final. Permanece aqui a figura da Diva, e o palco é o seu principal lugar.

Por outro lado, há uma onda mais recente de drags, bastante baseadas no programa norteamericano RuPaul’s Drag Race, que teve sua primeira temporada no ar em 2009. É uma geração que tem crescido com o reality, e que parece investir em uma performance de dublagem mais pop, de hits de cantoras como Britney, Beyoncé, Katy Perry, Lady Gaga ou Madonna; mais minimalista, e que foca, especialmente, no seu corpo e nas suas habilidades: as habilidades de dança, de atuação, de dublagem, de costura. A cena e o palco são dispensáveis, e o “close” é, talvez, o mais importante. O close na rua, o close na festa, o close na pista de dança. Pode haver uma aposta na androginia, ou na performance que fica entre o feminino e o masculino, e que mostra do corpo ao mesmo tempo que o reforma e esconde. Esse foi o estilo incorporado, vivido e defendido pela Nicki Umbeer, quem ficou em segundo lugar. Entra aqui a figura da Performer. A festa é o seu principal lugar.

Cada uma delas, nessa arena, e perto do resultado final — bem perto mesmo, quando soubemos que o primeiro lugar estava entre uma das duas -, cada qual defendia cada um desses estilos — não sem o risco de absorver ou dialogar um com o outro. “Defesa”, e uso esse termo porque, ali, as queens estavam para — usando um jargão do próprio RuPaul — “dublar pelas suas próprias vidas” (“It is time for you to lipsynk FOR YOUR LIFE!”). Estavam ali para lutar, naquele palco, simbolicamente, pelo seu estilo e junto com o seu estilo: com as músicas escolhidas, com a roupa utilizada, com o modo de ocupação do palco, etc. Ali, estavam em um concurso não apenas performático e corporal, mas que dizia respeito a uma disputa também simbólica. Mesmo com o empate técnico das duas primeiras colocadas, seria o caso de pensar: um desses estilos se sobrepõe? Um deles tem ganhado mais visibilidade que o outro? Será que o bate-cabelo resiste à cultura do close?

Estilos diferentes, espaços rarefeitos

Filipe Pinheiro, um dos idealizadores e produtores do Top Drag Paraíba, explica que o bate-cabelo mesmo já foi um critério de avaliação na competição.

“Esse requisito foi abolido em 2013, acredito, até para incentivar outros estilos de drag queen a participar do concurso. [Mas] eu não acho que o ‘bate-cabelo’ tem data de validade. Nunca terá. São apenas estilos artísticos diferentes. O que tenho observado é uma supervalorização das drag queens que não batem cabelo, em decorrência do reality show de transformistas americanas. Atualmente, querem dividir as drag queens em ‘menos interessantes’ e ‘mais interessantes’, em ‘antes de RuPaul’ e ‘depois de RuPaul’. E não é assim que funciona. Há público para tudo”, colocou.

O Top Drag se colocou, de forma muito feliz, como um espaço em que vários estilos estiveram o tempo todo presentes. Juntas, conduziram o concurso a drag bate-cabelo, a drag impersonator — Hágatha Laser encenou a Cláudia Leite como uma das atrações -, a drag de estilo mais “contemporâneo”, por assim dizer — ou por falta de outra palavra melhor -, e, ainda, a drag de comédia, como é o caso da sempre maravilhosa Magally Mel, que pode ser vista fazendo pit stops pela cidade, se montando todos os dias, como ela mesma falou durante o evento — e que segurou uma marimba pesada entre uma atração e outra no concurso.

Hágatha Laser fazendo a impersonator da cantora Cláudia Leitte durante o Top Drag Paraíba. Fonte: FanPage do Top Drag Paraíba 2016. Divulgação

Por outro lado, se o cenário em João Pessoa já foi mais propício para a arte do transformismo, hoje em dia esses espaços estão cada vez mais rarefeitos. Ao final do concurso, os idealizadores, Filipe Pinheiro e Jarlon Cunha, anunciaram que aquele seria o último ano em que produziriam o Top Drag Paraíba. Alegaram as dificuldades da produção, mas cientes da importância que o concurso teve ao longo dos anos (o primeiro Top Drag Paraíba aconteceu no ano de 2009, no antigo Candeeiro Encantado, no Centro Histórico da capital). Além dessa notícia, as transformistas estão encarando cada vez mais a dificuldade em se apresentar em lugares específicos na capital, em que possam mostrar sua arte.

“Atualmente, na Paraíba, os espaços para o transformismo estão cada vez mais restritos. Os artistas têm sido contratados para festas off club, que acontecem no Centro Histórico de João Pessoa, além dos concursos e eventos LGBT, como o Miss Paraíba Gay e a Parada LGBT de João Pessoa. Em último caso, as boates tem subutilizado a arte produzida no Estado”, salienta ainda Filipe.

As “Novas Drags”(?)

Se, por um lado, as drag queens que concorrem ao RuPaul’s Drag Race têm um amplo espaço, em sua maioria, de locais de apresentação para seus shows e suas performances (em Nova York e pelos Estados Unidos em geral), ou, ainda, podem se inscrever em concursos (também naquele país; são as chamadas pageant drags, ou drags de concurso, considerando isso mesmo uma carreira); e ainda que as mesmas influenciem boa parte de drags que passaram a existir na nossa cidade e no nosso estado recentemente — gente, inclusive, que nunca viesse a fazer drag se não fosse a disseminação do programa — , entre nós, essas mesmas parecem envolvidas mais pelo espírito das club kids — garotos e garotas que se vestiam de forma extravagante ou mesmo como drags para ir às festas nos cenários mais undergrounds de Nova York nas décadas de 1980 e 1990. Ou seja, por aqui, as “novas drags” estariam ocupando muito mais o espaços das festas — ou mesmo, fazendo as próprias festas — do que de concursos ou espaços em que seriam necessariamente pagas por suas performances.

Essa ênfase recente não indicaria um recorte de classe profundo mesmo entre as drags? É o que me parece a um primeiro plano. As drags mais novas que vão às festas para dar close ou pinta (uma tarefa que pode parecer fácil, quase uma “brincadeira”, mas não o é de jeito nenhum) não teriam algum tipo de renda (outra) garantida, morariam ou seriam bancadas pela família e teriam algum outro apoio de renda e de sustento? Investir em maquiagem, roupa, acessórios e até na própria performance requer não apenas dinheiro, mas também tempo e dedicação.

Do outro lado, não estariam as drags que, de fato, precisam ou desejam viver como drags, e que precisariam ganhar a vida como transformistas, sendo pagas pelas suas apresentações, nos palcos, com suas performances e beleza, para manter-se como tais? Que precisam ser pagas como drags para poderem, de fato, ser drags, financiar seu trabalho e se dedicarem, em tempo e financeiramente, à atividade? Que não têm tempo para investir em ser drag e ir dar close em uma festa e, depois, voltar para casa, sem receber? (E então, onde se apresentar, onde se colocar, onde performar nesse cenário de rarefação de espaços para essa atividade?)

Haveria aqui, nessa suposição, ou provocação, uma espécie de recorte de classe: de um lado, as queens que podem investir em bons produtos, se dedicar a acompanhar um reality show estrangeiro, a moldar seus aparatos corporais e performáticos; e, de outro, a queen que trabalha mais de oito horas por dia, que não tem dinheiro para investir em boa maquiagem ou roupa, mas que traz consigo a vontade avassaladora de fazer drag(?).

Talvez isso diga respeito, certamente, a um cenário em que drags atualmente não precisem mais de espaços para serem pagas para poder ser drags; e isso reflete muito mais o cenário geral e mais global em que vivemos atualmente — político, ideológico, social e cultural. De um investimento discursivo e corporal orientado e orientando as pessoas a terem que cuidar de suas próprias coisas, de um certo boom de empreendedorismo e de pessoas investindo em seus próprios negócios e no próprio corpo; de um modo mais individual e individualista de ter e ganhar a sua vida — sem indicar aqui nenhum juízo e valor, inclusive. De ter que realizar sempre a multitarefa e o “ser perfeito” em uma série de atividades distintas para poder se destacar.

Nesse cenário, as drags precisarim demonstrar cada vez mais expertise em vários campos: fazer uma dublagem perfeita; saber costurar; saber se maquiar muito bem e se garantir na arte do ilusionismo; ter uma performance muito mais “realista”, no sentido de suas personagens estarem ainda mais coladas à sua performance, pois que deixam de estar nos palcos para encenarem nas festas, no corpo-a-corpo com as pessoas. Talvez passem a atacar mais de DJs, de promoters do que, necessariamente, nos palcos.

O que, por um lado, tornaria as drags mais “livres” para performar do jeito que bem entendem, ou mesmo como uma forma de brincar com o corpo e com a própria sexualidade, por outro, parece ser sintoma da inviabilidade da possibilidade de viver, de ganhar dinheiro e de se colocar profissionalmente como a drag de palco, a que investe no bate-cabelo e nas grandes performances, quase teatrais — e da sua invisibilidade também.

Nesse sentido, como lidar com a diferença de estilos? Seria o caso de fazer dialogar as suas marcas, de unir, por exemplo, o bate-cabelo com a dublagem de música pop? Reunir o cênico com uma performance que dispensa perucas? Será que as marcas mais recentes do drag e a disseminação entre os mais diversos tipos sociais não poderiam, por outro lado, indicar ou apontar a necessidade de um cuidado e uma dedicação maiores das próprias queens aos detalhes, ao que elas, de fato, podem encenar? Em investir mais no próprio corpo, na própria performance, na maquiagem? Ou apenas respeitar esses estilos e suas diferenças, e dar visibilidade a todos eles? Não pretendo, com essa argumentação, colocar ou fundar algum sistema de valor entre as diversas formas de fazer e de se viver drag, mas deslocar, apontar problemas e tentar compreender como se configuram, ou como se configurarão essas questões mais a longo prazo.