ENCONTRO MARCADO
Andando pela calçada cheia de pedras e entulhos, Julieta não perdia a pose e desfilava, como numa passarela, com seu salto alto que torneava suas panturrilhas. Pedro, sentado em um banco do lado de fora de uma oficina de bicicleta, enquanto esperava o conserto da mesma, foi atraído pelo som da sandália de Julieta, subitamente virou o pescoço. Percebendo-a não se conteve e se virou completamente para observar e apreciar aquele desfile, e observou apenas em close aquelas bonitas pernas. Acompanhando toda a performance daquela bonita mulher sua visão foi interrompida, ela virara a esquina.

Exatamente três horas da tarde, Já em outra rua, que dava de frente para o mercado municipal da cidade, Julieta exageradamente pontilhava pela calçada, adentrava aquela rua como se fosse uma passarela. Ela sabia que seria a estrela naquele momento e não fazia por menos, encantava a todos que a olhavam. Destemida, colocando as mãos nos quadris, seguia.

Em frente à calçada que Julieta dava seu Show, todos os carroceiros e caminhoneiros que ali se encontravam, cessavam o que faziam para ver Julieta passar. E comentavam ansiosamente.

--- Pronto, lá vem ela com seu galopar sensual!

Aquilo já tinha virado uma rotina, todos olhavam o relógio e exatamente naquela hora, às três horas da tarde, era dado inicio ao espetáculo. Ela não se contendo por ser o centro das atenções exacerbava sua feminilidade e deixa-os boquiabertos, com os pensamentos vagos e cheios de libido.

Enquanto andava, por impulso maquiavélico, Julieta deixou cair de sua bolsa uma chave amarrada por um cordão vermelho. Fazendo não perceber, mas louca para ver a reação dos homens que a observavam. Imediatamente foi surpreendida por um alvoroço, uma confusão, todos correram para apanhar aquela chave, que vislumbravam ser do coração de Julieta.

Jogando seu cabelo e olhando para traz, ela vê um homem de baixa estatura, barrigudo, meio careca, pele branca e avermelhada do sol sorrindo expansivamente com a chave na mão. Para aquele homem, o mundo tinha parado, como se tivesse tapado os ouvidos para o mundo, ouvia apenas a canção sensual de Julieta, chamando-o. Sentia-se abduzido, enfeitiçado.

Parecendo mais uma cena em slow motion, o senhor dono de uma carroça de fretes aproximou daquela encantadora mulher com um olhar apaixonado, seu corpo tremia e a sudorese era descontrolada, mal conseguia segurar a chave. Do outro lado, os outros homens viam Julieta andando como se flutuasse. Trajando de um vestido de tafetá, decotado, bem acentuado, evidenciando suas curvas. Não se contendo, espontaneamente eles fizeram uma Roda, pois a estrela estava a receber a sua chave que deixara cair.

Súbitos, todos imaginaram ser o entregador e naquele instante mil idéias pairavam por aquelas cabeças.

Como se acordassem de um sonho, observaram Julieta pegando a chave da mão daquele homem que estava parado e obcecado pelo seu olhar. Depois de um beijo no rosto, ele acordou euforicamente como se tivesse ganhado na loteria e saiu gritando.

--- Eu consegui, eu consegui...

Arrumando o contorno do batom, ela sacudiu os belos cabelos, depois colocou a mão direita da cintura e piscou o olho para eles como se tirasse uma fotografia. Virou a cabeça mexendo seus belos cabelos e saiu sem olhar para traz, deixando aqueles marmanjos prestes a vazar.

Pedro já saindo da oficina com sua monareta de cor vermelha, dobrou a esquina velozmente para tentar avistar Julieta. Mesmo de longe conhecendo aquele andar que não saia de sua cabeça, acelerou, passou pelas bancas de frutras, flores e verduras se esquivando, e de uma delas roubou-lhe uma flor para aquela deusa. Ainda um pouco distante vê novamente Julieta dobrar a esquina. Ainda muito apressado, dobrando a esquina que ela tinha virado, não vendo mais a sua amada, pasmo, ficou ali parado, com a flor na mão e o coração acelerado tentando ver se ela sairia de uma das casas. Esperando mais de duas horas, ainda sem êxito, mas confiante que ainda viria, Pedro cheira a flor, sorrir e sai em sua Monareta sem segurar no guidão, brincado com aquela flor:

--- Bem me quer, mal me quer...

Outro dia, duas da tarde, Julieta liga o som de seu quarto e se prepara toda para o momento de fama. Já andando pelas calçadas, apreça-se. Já bem próximo a sua passarela é surpreendida por Pedro com uma flor na mão, aquele menino entrega a flor e oferece uma carona. Já quase passando do horário de sua performance, Julieta aceita com uma condição, a de que ela fosse guiando. Não acreditando na proposta, Pedro com cara de bobo aceita sem pestanejar. Montando na Monareta Julieta saiu carregando Pedro na garupa, deixando em êxtase. Aquele cheiro de Julieta o deixava alucinado com o coração a pulsar intensamente.

Três horas da tarde, todos a postos a espera da celebridade, nada mais fariam a não ser ver Julieta passar. Vendo-a virar a esquina um deles gritam:

--- Olhem lá rapaziada, a deusa hoje passa de bicicleta.

--- Que pernas lindas!

Ela passou na bicicleta com um vestido mostrando suas pernas torneadas, com seus cabelos esvoaçantes e um perfume que mais parecia um néctar das deusas. Atrás viram um menino que se mostrava vitorioso e dono da situação. Percebendo a decepção deles, Pedro insultou, os deixando enraivados. Sem entender do que tratava, todos aqueles homens correram atrás de Julieta naquela monareta com Pedro insultando-os. Achando a cena engraçada ela pedalava rindo em ver todos aqueles homens a sua procura.

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