Quando o racismo parece uma pauta muito válida — se declarado por brancos

Recentemente, o caso de racismo de uma socialite que, em vídeo, fazia comentários utilizando expressões de cunho racista dirigidas à filha de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, a Titi, de 4 anos, repercutiu pelas grandes mídias e pelas redes sociais. Uma onda de anti-racismo “muito genuína” pairou por esses mesmos ambientes virtuais, o que, de um determinado espectro, é até bom. De outro, é uma onda pouco preocupada, DE FATO, com a persistência do racismo na sociedade brasileira e que destampou um cenário que, para pessoas negras (e para quem está realmente consciente), já é mais do que óbvio: a sociedade brasileira reconhece o racismo e se posiciona contra ele, desde que declamado por um branco.

Em um comentário escrito num vídeo no Youtube no qual se comentava o caso, avistei o comentário de uma mulher que, ao que parecia, estaria chocada com o racismo da socialite dirigido à Titi: “onde já se viu gente racismo com uma criança de 4 anos gente!?”. Talvez não tenha sido a atenção dela, mas essa sentença é minimamente problemática. Ela me fez indagar, e me direcionou à conclusão de que o espanto mais correto seria: onde já se viu racismo ainda como ferramenta de inferiorização nos dias de hoje contra QUALQUER pessoa?

Se ainda o usam, é porque ele ainda tem certo poder. É porque ele ainda vigora em sociedade, e insiste em ficar quando, vez ou outra, casos de racismo viralizam nos grandes circos midiáticos — enquanto vários outros tomam face nos cotidianos de vidas comuns. Ver pessoas se comovendo com o caso de racismo contra a linda Titi realmente me alegra de certa forma. Mas ainda me deixa com uma pulga atrás da orelha.

Temo em pensar que essa comoção generalizada seja mais fruto de uma empatia para com Titi enquanto em situação de criança inconsciente e indefesa do que o racismo em si, aquele que acaba de perpassar sua vida (mesmo que ela não saiba) e que continuará vindo à tona, e do qual ela terá plena consciência quando tiver idade para entender os fardos que sua cor da pele ainda carrega. Em muitos comentários, senão na maioria deles, vejo as pessoas evocarem e deixarem subentendido que sua comoção para com a menininha seria muito mais pelo fato de ser uma criança do que pela ofensa em si. Isto é, existe um pensamento que vitimiza Titi enquanto criança — O QUE É VÁLIDO SIM, uma vez que a menina não tem ínfima possibilidade e capacidade de autodefesa, tornando a atitude da socialite um baita dum close errado. Mas trata-se de um pensamento que pouco evoca à questão-chave de toda a problemática: o racismo ao qual a menina foi exposta, e como ele poderia, em outro contexto, trazer danos psicológicos, físicos e emocionais a menina. COMO JÁ ACONTECE TODO SANTO DIA COM A POPULAÇÃO NEGRA E NINGUÉM SE DISPÕE A SER ANTI-RACISTA.

Outrossim, não sendo pessimista sobre a adoção de Titi, porque essa é uma forma muito genuína e heroica de demonstrar que os valores humanos e o amor definitivamente ultrapassam limites étnicos, geográficos, linguísticos, etc. Mas vi, com esse caso, como o Brasil ainda se enrosca na bandeira de um “país com preconceito de ter preconceito”, quando equiparo o caso de Titi — e as declarações que Gagliasso e Ewbank deram à mídia a partir dele — com o caso de Taís Araujo — tanto a situação em que sofreu racismo quanto a situação propagandística em que ela aborda a filtragem racial.

Mostrar-se empático em cenários racistas e demonstrar progressismo em relação às questões raciais é muito válido — desde que sejam sentimentos voltados a brancos. Quando Gagliasso dirigiu-se à mídia falando sobre as queixas que seriam prestadas e sobre como o racismo da socialite era crime e que, por consequente, ela deveria ser presa, sem SEQUER precisar adentrar na discussão e pôr em mesa as motivações da socialite ao apontar a cor de sua filha, chuvas de comentários positivos e apoiadores choveram pela página do ator e pela Internet. Quando Taís Araújo , enquanto mulher e MÃE negra, dispõe-se a fazer um vídeo didático e ativista sobre a filtragem racial — ocorrente em situações que indivíduos de etnias diferentes, dentro de um mesmo contexto, estão predispostas à ações e julgamentos externos diferentes justamente devido aos traços étnicos — ela é acusada de puro e ingênuo vitimismo. Inclusive pelas próprias pessoas negras. E a quantidade de comentários positivos e negativos nas duas situações é discrepante.

Esse é um perfeito exemplo do que entendemos enquanto lugares de fala, isto é, PROTAGONISMO, tão importantes dentro dos movimentos sociais que problematizam as questões abordadas acima e outras mais — e como estamos inconscientes deles e de sua importância para o verdadeiro avanço enquanto sociedade brasileira. Quando Taís protagoniza um vídeo para apontar o racismo que há em mim, em você e em uma sociedade que sintoniza o medo com a cor da pele, ela não o está fazendo da boca para fora: aquilo é uma vivência dela, e que escorre pelas veias das gerações mais novas posteriores a ela. A sua própria geração, a que veio antes dela, a de seus filhos e a de centenas de jovens negros Brasil afora. Um branco apontar racismo, tudo bem. Um negro apontar, te causa espanto. Te assusta e te revira o estômago — porque é nesse negro em que a verdade se encontra. A raíz do seu preconceito que você definitivamente ainda não está prontx para cortar (e estará algum dia!?).

A situação também conversa muito com a questão da posição do negro e de outras minorias em sociedades, quando elas todas se apoderam dos “seres” pelas quais são oprimidas: o fato de a socialite ter se irritado por a garotinha receber elogios quanto a sua aparência e ela não mostram que, no geral, estamos no caminho certo. Titi, mesmo não sabendo, denota que estamos nos tornando a ameaça à normalidade que precisamos ser, para nos tornarmos, também, tal normalidade. Isso não basta: não nos adianta apoderarmos de nós mesmos e de nossos corpos se os nossos lugares de fala não estiverem garantidos. E garantidos com respeito. Porque, por enquanto, estamos ouvindo não as pessoas erradas , mas as não situacionalmente certas — e parece que fazemos questão de nos manter assim.