3º Domingo da Páscoa: 5 marcas da Missão de Deus no anglicanismo

Sermão do 3º Domingo da Páscoa, entregue na Catedral Anglicana de São Tiago (Domingo, 10 de abril de 2016, ano C).

Atos dos Apóstolos 9:1–9; Apocalipse 5:11–14; Salmo 30 (29); João 21:1–19

“Essa foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos.”

Hoje celebramos a memória de dois camponeses, Vilmar Bordim e Leonir Bhorback, que foram brutalmente assassinados no último dia 07 de abril por forças policiais do Estado do Paraná e pistoleiros de uma madeireira chamada Araupel. Ao longo desses três domingos do Tempo Pascal somos desafiados pela Liturgia da Igreja a seguir os passos de Jesus, caminhando com a Comunidade nascente, convertendo em gestos concretos nossa fé.

Mosaico da Igreja da Multiplicação, em Tabgha, no Norte de Palestina, à beira do Mar da Galiléia

Em nossa Aliança Batismal, nós anglicanos prometemos procurar “transformar as estruturas injustas da sociedade, desafiando toda sorte de violência, respeitando a dignidade de toda pessoa humana e buscando a paz e a reconciliação” (Livro de Oração Comum, p. 585). Com essas palavras, nos unimos a milhares de pessoas em toda história da cristandade que rejeitaram os confortos do comodismo e se comprometeram com a fé de Jesus Cristo, no seguimento de seus passos. As leituras da Liturgia de hoje confrontam nossa maneira de agir com as palavras de Jesus, nossas concepções de trabalho com sua vontade e seus motivos. Elas ilustram perfeitamente a chamada “Compreensão Anglicana de Missão”, e hoje gostaria de refletir exatamente sobre isso.

Basicamente, temos dois momentos no Evangelho: aquele em que estamos jogando nossas redes, com as forças que temos, do jeito que sabemos, até que “alguém” distante nos ensina um caminho melhor. No outro momento, aprendemos que não existe amor sem comprometimento e que amar a Jesus tem lá suas consequências.

A primeira parte do Evangelho dialoga intensamente com o relato da Conversão de São Paulo. Saulo de Tarso era um judeu piedoso, que acreditava estar fazendo a obra de Javé ao perseguir, até com brutalidade, os seguidores de Jesus de Nazaré. Ele é surpreendido quando justamente caminhava em sua rotina de perseguição, com uma voz que mudaria para sempre seus caminhos. O mesmo se dá com os discípulos. Estando com fome, decidiram pescar, o que é muito natural. Mas o Evangelho nos fala sobre como faziam isso sem pensar em Jesus, que estava à praia e por eles era sequer reconhecido. Esses dois relatos nos chamam atenção para um fato muito caro ao anglicanismo. A Missão a que somos chamadas e chamados não pertence a nós mesmos, a nossos bispos, reverendos. Não pertence sequer a uma igreja específica. Nós acreditamos na Missio Dei, uma compreensão missiológica que coloca Deus como agente principal e promotor da Missão da Igreja.

Jürgen Moltmann, teólogo protestante alemão, resume de uma maneira muito simples o conceito da Missio Dei: “Não é a igreja que tem uma missão de salvação para cumprir no mundo; é a missão do Filho e do Espírito através do Pai, que inclui a igreja.” (The Church in the Power of the Spirit: A Contribution to Messianic Ecclesiology, 1977). Nesse sentido, nós anglicanos acreditamos que a Missão de Deus possui cinco marcas, e é através delas que vamos ler a Liturgia de hoje.

1. Proclamar as boas novas do reinado de Deus

Nesse ponto acho de peculiar beleza o imperativo de Jesus no versículo 12 de João 21. “Venham e comam”! Jesus não é um Deus vingativo, que impõe sua vontade! Ele, antes, dá o exemplo. Não importa se estavam a noite inteira jogando as redes da maneira errada, não importa se Saulo perseguia os cristãos. Não estamos falando de punição por não fazer a vontade de Deus, mas do refrigério que é ouvir sua voz! Aprender a trabalhar segundo as ordens de Jesus também é saber deixar-se servir por ele, com um delicioso peixe grelhado! A questão aqui, quando somos chamados a proclamar as boas novas do Reino, é: qual foi a última vez que nós mesmos vivemos essa “Boa Notícia”?

2. Ensinar, batizar e nutrir os novos crentes

A palavra grega 15, 16 e 17 traduzem por “cuide”, ou “apascente” [minhas ovelhas] é, na verdade, βόσκε, que quer dizer “alimentar”. De fato, depois de estarem saciados é que Jesus se dirige a Pedro com aquelas três famosas perguntas.

Aqui nos aproximamos do Salmo 30[29], um belo relato de um Deus que “levanta” seu servo, que é fortalecido por sua misericórdia. Novamente, essa misericórdia que fortalece é vista na cena da conversão de São Paulo. Jesus se revela ao perseguidor, lhe diz o que fazer, o derruba mas o levanta!

De uma maneira mais encarnada, podemos dizer que não basta ensinar e batizar, temos que alimentar as pessoas. Vejam que esse alimentar não passa somente pelo campo imaterial. Jesus nunca deu apenas palavras àqueles que o seguiam. Ele deu pão, serviu peixes, vinho… nossa missão não pode jamais ser alienada das necessidades materiais daqueles irmãos que mais precisam!

3. Responder às necessidades humanas com amor

Nesse sentido, as “marcas da missão anglicana” seguem como um crescente. Respondemos com amor às necessidades de nossas irmãs e irmãos. Notem como essa marca está em íntima relação com o diálogo entre Jesus e Pedro. O amor não pode ser baseado apenas em palavras.

Jesus pergunta se o Apóstolo o ama por duas vezes. Nesses casos, utiliza o grego “ἀγαπᾷς”, palavra de difícil tradução para nossa língua por conter uma grande tradição mediterrânica em seu contexto. O famoso “ágape” nunca é “amor” no sentido figurativo da palavra. Trata-se de uma palavra com forte conotação prática, uma vez que denota “acolhimento”, “cuidado”. Jesus pede que Pedro, e em Pedro estamos todos nós representados, faça exatamente o que ele havia acabado de fazer!

Acolher o próximo, “alimentar” quem tem fome, as ovelhas de Jesus, o rebanho de Deus, justamente os pobres, oprimidos, os “pequenos”, é amar a Deus.

Pedro, contudo, respondia que era “amigo” de Jesus: “σὺ οἶδας ὅτι φιλῶ σε.”, “você sabe que sou seu amigo”. Jesus então, pergunta uma terceira vez se Pedro era, realmente, seu amigo. À resposta de Pedro nosso Senhor acrescenta as implicações de alimentar as ovelhas:

«Cuide das minhas ovelhas. Eu garanto a você: quando você era mais moço, você colocava o cinto e ia para onde queria. Quando você ficar mais velho, estenderá as suas mãos, e outro colocará o cinto em você e o levará para onde você não quer ir.»

4. Procurar a transformação das estruturas injustas da sociedade, desafiar toda espécie de violência, e buscar a paz e a reconciliação

O Evangelista conclui essa sentença de Jesus lembrando que o Mestre dizia isso para se referir ao tipo de morte com que “Pedro iria glorificar a Deus”. Não que a maneira como vamos morrer seja o centro da questão aqui, mas a verdade é que o seguir a Jesus, o acolher Sua Palavra, o estar em amizade com Cristo tem implicações em nossas vidas. Em outras palavras, nossas vidas podem glorificar a Deus.

Os camponeses citados no início desse sermão foram mortos por uma causa justa, mas não devem ser lembrados por sua morte! Eles devem ser lembrados na face de cada trabalhador rural sem-terra, que luta a duras penas para conquistar o singelo direito de ter um pedacinho de chão para plantar. De fato, um dos lemas desses trabalhadores é: “terra é de quem planta”! A Araupel não produz nada além de pinus e eucaliptos, árvores extremamente danosas ao meio-ambiente. O agronegócio tão pouco sacia a fome de quem não tem pão. Em contrapartida, os milhões de sem-terra assentados hoje colocam merenda na boca de nossas crianças, com alimentos livres de agrotóxicos e outros venenos como transgênicos.

Eles lutaram contra uma das maiores estruturas injustas da sociedade, que é uma pessoa ser dona sozinha de milhões de quilômetros quadrados de terra enquanto milhares tem sede por trabalhar e não conseguem fazê-lo.

Como anglicanos somos chamados a desafiar essas estruturas injustas, lutar contra todo tipo de maldade, defender os mais fracos.

5. Lutar para salvaguardar a integridade da Criação, sustentar e renovar a vida da terra

A quinta marca dialoga com o Apocalipse. O texto nos diz que milhares e milhões de vozes proclamavam:

«O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor.» Nessa hora, todas as criaturas do céu, da terra, de debaixo da terra, e do mar, todos os seres vivos proclamaram: «O louvor, a honra, a glória e o poder pertencem àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro pelos séculos dos séculos.»

Antes de tudo, é um “cordeiro imolado” que é digno de receber o poder. Não um Cristo triunfante, magnânimo, mas um simples cordeirinho, frágil. As vezes queremos fazer da Missão de Deus nossa própria missão, e queremos fazer isso com toda pompa e circunstância. Entretanto, a missão de Deus é simples, frágil aos nossos olhos!

Notem que não só homens que cantam as glórias do Cordeiro! Todas as criaturas o fazem, e por isso nós anglicanos somos tão preocupados com a Criação em nosso redor. Quando a Floresta Atlântica foi derrubada pela Araupel para dar lugar a árvores daninhas que visavam apenas lucro, milhares de pés de araucária deixaram de dar louvor a Deus em sua beleza! Milhões de animais perderam seus ninhos, rios deixaram de ter peixes…

Essas cinco marcas são indícios de como nossa igreja se posiciona diante da grande tarefa que é contribuir com sua parte da Missão de Deus. Nas leituras de hoje somos, nós mesmos enquanto anglicanas e anglicanos, confrontados com a seriedade dessa tarefa, que para alguns tem o custo da própria vida. Que todo sangue derramado ao longo desses dois mil anos de seguimento de Jesus seja para nós semente de fé e ânimo! Que possamos deixar nossos barcos e seguir até a praia, cear com o Mestre e então sair pelo mundo, como filhas e filhos amados, experimentando a alegria de servir a missão de nosso Pai e Mãe. Amém!

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