Quando Deus sente prazer…

“Bather” (1908–09), Pablo Picasso. Óleo s/tela, 129.8 x 96.8 cm. MoMa.
“σὺ εἶ ὁ υἱός μου ὁ ἀγαπητός, ἐν σοὶ εὐδόκησα.” (Lucas 3:22, Nestle-Aland28)

Domingo, 10 de janeiro de 2015, ano C. Festa do Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo

Isaías 43:1–7; Salmo 29; Lucas 3:15–17,21–22.

este é o meu filho, o amado, n’ele eu tenho prazer”.

Há algumas semanas, enquanto ainda estávamos atarefados com os preparativos para o Natal e correndo atrás dos últimos dias de 2015, este Ano Litúrgico nos apresentou João Batista, no deserto, “preparando o Caminho” (cf. Lucas 3:1–18, leituras do 2º e 3º domingos do Advento, Lecionário Comum Revisado). Neste domingo nos despedimos de João, posto na prisão por ordem de Herodes (Lucas 3:20), mas não sem antes cumprir sua palavra e servir ao Messias prometido, batizando-o junto com todo o povo.

A Tradição da Igreja insere a Festa do Batismo no primeiro domingo após a Epifania de Nosso Senhor Jesus Cristo; de fato, o que o texto lucano nos narra é uma verdadeira epifania! Trata-se da primeira manifestação bíblica da Trindade.

O Filho se coloca humildemente, junto com todo o povo, nas mãos do Batista, acorrendo à Palavra do Senhor que vinha sendo pregada no Jordão. Jesus, contudo, vai além. “Ele também foi batizado”, nos diz o texto grego, “e orava e o céu se abriu”. A oração, lugar onde nos aproximamos de Deus, é um tema caro ao Evangelho de Lucas, que começa justamente com a oração do povo que levou o Anjo do Senhor a anunciar o nascimento de João a Zacarias (Lucas 1:10). Jesus orava e o céu se abriu. E, do céu desceu um corpo como o de uma pomba, era o Espírito prometido pelo Batista! Também do céu se ouviu uma voz, a do Pai. Pai, Filho e Espírito, juntos pela primeira vez num só versículo bíblico!

“Against The Current” (1919), Anders Zorn, gravura em papel, 11.5 x 16.5 cm.

Mas, antes de olharmos de perto essa cena e seus significados, não podemos nos perder do contexto que a própria cena evoca!

A voz do Pai, que se dirigiu a Jesus no Batismo também se manifestou a outras e outros, a muita gente ao longo da História da Salvação. Ao profeta Isaías, por exemplo… conforme o texto que a Liturgia de hoje nos faz recordar: “Assim diz o Senhor, aquele que te criou, aquele que te formou: Não temas, pois eu te redimi, eu te chamei por teu nome, tu és meu.” (Isaías 43:1–2, Bíblia do Peregrino)

O batismo é, antes de tudo, um gesto de entrega, de reconhecimento da soberania de Deus sobre nossas vidas. No Rito do Batismo, o celebrante unge o candidato com óleo, proclamando as palavras santas: “estás selado pelo Espírito Santo com o sinal da Cruz. És de Cristo para sempre.” (Livro de Oração Comum, p. 559). O Deus da perícope de Isaías é bastante consciente desta posse, ele nos toma para si mesmo! “Você é meu!”, tanto é que alguns manuscritos ocidentais do Novo Testamento, como o Codex Bezea, leem Lucas 3:21 à luz do Salmo 2:7 e em consonância com este trecho de Isaías, em que a voz de Deus diz: “você é meu filho amado, hoje eu te gerei” (e.g., Bíblia de Jerusalém e Tradução Ecumênica da Bíblia). No Batismo somos “gerados” por e em Deus, nos tornamos participantes da natureza divina (cf. 2ª Pedro 1:4) e o mais importante, somos filhas e filhos de Deus! (cf. Romanos 8:14–21; Gálatas 3:26; 1ª João 3:1–10).

A liturgia de hoje é, portanto, sobre sermos filhas e filhos de Deus. A profecia de Isaías prossegue: “te aprecio e és valioso, e eu te amo; …; não temas, pois estou contigo” (34:4–5).

O Salmo 29 pede que as filhas e os filhos de Javé aclamem sua glória e poder (Edição Pastoral) e segue com uma longa de lista de momentos em que podemos ouvir a voz de Deus. Sobre as águas, o trovão, o fogo, o deserto. “A voz do Senhor multiplica a vida” (Livro de Oração Comum). A voz do Pai, hoje, está tentando nos dizer que não tenhamos medo! Não devemos temer; somos suas filhas, seus filhos, porque Ele, o próprio Deus, nos ama! Se no Batismo nos entregamos a Ele, sua contrapartida é nos acolher, sem distinção, sem fazer perguntas, simplesmente nos acolher e nos amar!

Como as palavras de Deus em Isaías estão distantes de nossas vidas! Como é difícil ouvir a voz do Pai dizer que nos ama, que cuida de nós, que não precisamos ter medo, mesmo quando tudo estiver difícil!

O tempo do Natal, das festas, acabou. Muitas vezes nos resta o vazio e a falta de coragem em pensarmos no ano que se inicia. Tantos caminhos a trilhar, tantas escolhas a fazer, dificuldades a enfrentar! E a Igreja, não alheia a tudo isso, nos confronta com esses textos e o relato do batismo logo no início do ano! Mais que isso, a Liturgia nos lembra que nós mesmos um dia fomos batizados e que esse ato não é desprovido de sentido e muito menos de significado prático em nossas vidas cotidianas!

O batismo de João era para remissão de pecados, mas ele fez questão de ressaltar que o Messias iria além disso; Jesus batizaria com o Espírito Santo e com fogo. O batismo não nos imerge na natureza divina para que vivamos uma espécie de transe perpétuo de santidade, tocando harpas com os anjos nos céus. No batismo somos preparados para viver nesse mundo, somos tocados de maneira única e definitiva pelo amor de Deus. Nossos pecados? Ele os esquece, os lança nas profundezas do mar (cf. Miqueias 7:19). O batismo nunca é sobre os dias de ontem, sobre o passado, mas sobre nossos corações no dia de hoje, e nossas almas cheias de coragem para enfrentar o futuro ao lado de um Deus que nos ama e nos protege!

Com esse Deus que é todo-amoroso em mente, podemos finalmente voltar para João e seu batismo, para a cena da epifania trinitária. Jesus vai até João, no meio do povo, junto com o povo, como qualquer pecador, e se deixa batizar. A esse gesto de Jesus toda a Trindade responde! E responde em voz audível:

“σὺ εἶ ὁ υἱός μου ὁ ἀγαπητός, ἐν σοὶ εὐδόκησα.” (Lucas 3:22, Nestle-Alland28)

Numa tradução literal: “este é o meu filho, o amado, n’ele eu tenho prazer”.

Qual foi a última vez que você se permitiu ouvir essas palavras de Deus? Ou, ainda, alguma vez na vida você conseguiu se imaginar como fonte do prazer de Deus?

Voltando ao texto e ao contexto da liturgia de hoje, o que de tão extraordinário Jesus fez para “merecer” (se é que podemos falar de merecimento aqui!) ouvir estas palavras? Jesus tão somente seguiu seu caminho, no meio do povo, trilhando sua jornada humana! Muitas pessoas procuram no batismo ou na igreja uma forma de se tornarem pequenos deuses, em seus nichos de santidade, acusando tudo e todos que não são santos como elas do terrível pecado da humanidade… fora das igrejas, nesse mesmo espírito hedonista de busca pela perfeição, temos vários pequenos deuses surgindo, sejam os da beleza, do dinheiro, do poder… mas o próprio Deus aqui parece tomar um caminho muito diferente da divindade. Jesus caminha em nossa direção, na direção dos humanos pecadores, se deixando batizar como qualquer um. Jesus não é melhor do que ninguém e nem procura ser, e é justamente nesse momento que o Espírito vem até ele e o Pai lhe diz: “te amo, tenho prazer em você”!

Fora da Bíblia essa palavra, o verbo εὐδοκέω, significa ter prazer, satisfação, deleite, felicidade em algo ou alguém (TDNT, EDNT, LS). O Novo Testamento o coloca sempre nas palavras de Deus para Jesus (Mateus 3:17; 17:5; Marcos 1:1; Lucas 3:22; 2ª Pedro 1:17). Trata-se do pai testemunhando seu prazer pelo Filho. É desse testemunho fundamental que deriva toda a missão de Jesus (cf., e.g.: João 5:32; 8:18), de modo que estamos diante de um ponto crucial de seu ministério!

Deus sente prazer! A primeira leitura que fiz desse texto me fez pensar que Deus sente tesão! Talvez não no sentido tabuístico desta palavra, não no sentido sexual… mas quem sabe no sentido literal, de tensão indicando aquilo a que se dirige o desejo! Nossa sociedade costuma definir prazer e satisfação em termos sexuais, como se a sexualidade fosse a finalidade de nossas vidas e não uma parte, importante, mas, ainda assim, uma parte de nosso viver e bem-viver.

O verbo grego dá a noção da intensidade da satisfação que o Pai tinha para com Jesus, essa intensidade é clara até mesmo pela maneira como Deus se dirige: “Este é o meu filho, meu filho amado”. Qual pai não tem prazer em seu filho? Qual mãe não se deleita com as pequenas coisas, com o sorriso bobo, com as alegrias cotidianas de suas eternas crianças? Quantas vezes não nos esquecemos que Deus é nosso Pai, e tem prazer nas nossas vidas!

O Salmo 151 trás uma agradável visão do que agrada a Deus… na pequena história em versos, Davi fala de si mesmo, lembrando que é pequeno, um pastor das ovelhas de seu pai, sem muitas habilidades além das músicas que tocava para Deus… seus irmãos, contudo, eram altos e lindos… mas Deus não tinha prazer em sua beleza! O Salmo 51 diz que Deus igualmente não tem prazer nos sacrifícios oferecidos… então não é sobre beleza, nem sobre uma aparente piedade religiosa… o prazer de Deus definitivamente não está nas aparências!

“Bathing boys” (1920), Pyotr Konchalovsky. Óleo s/ tela, 140 x 157 cm. Museu Russo, São Petesburgo.

Jesus, de sua humildade em abraçar totalmente a condição humana, contudo, chamou a atenção do Pai, trouxe sobre si o Espírito e fez daquele pedaço do deserto da Judeia um pequeno céu naquele dia em que foi batizado!

O batismo não é um ato de renúncia sobrenatural a nossa humanidade em favor de uma essência divina desprovida de sentido prático. O batismo, o batismo de Jesus, com o Espírito Santo e com o fogo, nos conduz para o mundo com alegria e humildade, não nos diviniza! Antes, purifica e impulsiona nossa natureza humana para que possamos trabalhar pelo Reino de Deus que está no meio de nós!

Deus nos ama, tem prazer em nossas vidas pelo simples fato de sermos filhas e filhos d’Ele! Não é num esforço sobre humano para tentarmos ser o que não somos que vamos encontrar sua voz amorosa dizendo o quão orgulhoso está de cada um de nós! Não é oferecendo sacrifícios ou tentando o impossível para agradá-lo! Mãe e Pai algum tem prazer no sofrimento de seus filhos e todo bom filho sabe que tudo o que seus pais precisam é de seu sorriso e seu abraço!

Que nesta manhã nós possamos ir ao encontro de Deus, em oração, como Jesus o fez logo após ser batizado. E que, nesta oração, de coração aberto diante do Pai, possamos ouvir sua voz dizendo:

“Não importa quem você é, de onde você veio, o que você faz, quem você ama, como você ama… nada do que é importante para os homens importa para mim! Você é minha filha, você é meu filho, eu sou teu Pai e Mãe, teu Deus que te ama e que tem orgulho de você! Sua mera existência me dá prazer, todos os dias!”

Esse é o significado do Batismo, e isso equivale a se saber ser filha, ser filho de Deus! Que as palavras do Pai no Evangelho e em Isaías nos protejam durante todos os dias desse ano, encorajando-nos a uma vida digna do amor e da confiança que Ele depositou em nossas vidas. Amém.

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