VEM COMIGO
Quando eu tinha 9 anos conheci Mariana, que na época tinha uns 17. Nós utilizávamos o mesmo meio de transporte para irmos para a escola — perua da Tia Marli — e, por um motivo que até hoje não entendo, engatamos em algum tipo de amizade. Talvez porque sentássemos uma ao lado da outra, as seis da manhã, e compartilhássemos os mesmos solavancos que só quem ja andou muitos anos de kombi na Zona Leste conhece. Há uma espécie de cumplicidade que apenas o asfalto da periferia cria entre as pessoas.
Apesar de provavelmente ser mais alta do que Mariana, independente do nosso age gap considerável, eu a via como um belo exemplo de superioridade e, principalmente, desenvolvimento. Aquele era o meu primeiro contato com alguém mais velho mas não adulto, e Mariana parecia quase impossivelmente distante, rodeada de símbolos que a Emige-de-9-anos levava extremamente a sério: ela não usava mochila para ir para a escola, e sim bolsa; ela usava brincos; ela usava maquiagem; ela usava sutiã. A lista era interminável.
Mariana se formou e foi embora, mas a marca que ela deixou na minha imaginação foi enorme. De repente, eu concluí, ter 17 anos parecia uma coisa incrível, porque durante todo um ano letivo eu tinha convivido e interagido com um exemplar dessa madura e impressionante espécie, alguém claramente superior. Em meio a um turbilhão de problemas e dúvidas que pipocavam na minha cabeça, a esperança dos 17 foi, por anos, uma âncora à qual me agarrei com todas as forças. Sem perceber, eu conquistei tudo aquilo que admirava na Mariana: o sutiã, a maquiagem, os brincos e a bolsa — e com indiferença deixei isso de lado, sempre a procura daquele mais tão abstrato que fizera a figura de Mariana tão impressionante.
Desabei nos 17 anos, tão perdida que era difícil entender se o semáforo estava aberto ou fechado.
Não, sério, vem comigo. De noite eu fechava os olhos e pensava no que tinha dado errado. Alguma coisa obviamente se perdera no caminho — “não cumpri todas as etapas”, pensava com raiva. Eu não era nem sombra da pessoa bem-sucedida, bonita, feliz, incrível, insiraaquiadjetivoexagerado que era a Mariana. Mas caralho, deixa eu falar: sempre fui organizada. OK, então deu tudo errado, mas agora vai dar certo, ou pelo menos era o que eu dizia. E com o passar dos anos projetei minhas expectativas nas mais diversas pessoas que estavam ao meu redor — pessoas mais velhas, pessoas-arquétipo, pessoas imaginárias descritas em perfis do Perez Hilton. Talvez eu tivesse perdido o primeiro pit stop rumo à calmaria da maturidade, aquele pit stop que Mariana me mostrara tão bem anos atrás, mas eu estava decidida a não deixar os próximos passarem.
Já chega de crises existenciais! A vida adulta é como saltar de asa delta da Pedra da Gávea no dia mais bonito do ano. E quando tudo dava monumentalmente errado, quando eu sentia como se tivesse tropeçado no ar e rolado Everest abaixo, provavelmente sendo chutada por sherpas no caminho, eu me perguntava quando seria a hora de flutuar, sentindo-se leve como uma mulher em comercial de absorvente, a vida com Bossa Nova de trilha sonora.
Ei, vem comigo.

Certa vez alguém de quem eu gostava muito me disse que meus problemas logicamente iam sumir quando eu arranjasse alguma coisa para fazer. Eu pensei, ta aí. Essa é a resposta. Essa é a marca que nos torna adultos. A carteira assinada é melhor do que qualquer psiquiatra. E, provavelmente porque não tenho amor próprio, resolvi que todo e qualquer conflito que eu tinha poderia ser eliminado caso eu fizesse duas faculdades e um estágio ao mesmo tempo, ou trabalhasse 14 horas por dia, ou ficasse 3 meses sem dormir. A produtividade traria a minha liberdade.
Ainda hoje, fecho os olhos e tento entender o que está acontecendo, e penso na Mariana, e tento refazer meus passos, todos eles, ainda tento entender onde foi que eu errei, mas a verdade é que talvez não haja nada de errado além do fato de acreditarmos que um dia as coisas magicamente mudam.
Talvez se tornar adulto signifique entender que tudo permanece exatamente o mesmo.