O Amor e o Medo

Passamos esses dias por um grande susto aqui em casa, que acabou se transformando numa grande vivência.

Cauê, no auge dos seus 7 anos de aventuras, estava construindo uma casa na árvore com sua amiguinha Naara, de 6. Ambos exímios escaladores, daqueles que só não nasceram no pé de pau, como diz o baiano, mas passam horas la nas alturas.

Ele acabou caindo e ficou preso num galho pelo sovaco.

Daí pra frente a história foi ganhando contornos dramáticos. Conseguiu sair da situação sozinho, e se encaminhou pra casa, com um corte profundo. Imediatamente saímos pro hospital, que fica a mais ou menos 30 km de casa.

No caminho, eu e meu amigo Hubert tentávamos manter ele ligado na nossa conversa. Meu coração de pai já estava apertadinho, ainda bem preocupado com a gravidade da situação, já que esta região é cheia de vasos e veias. Chegamos em Ilhéus rapidinho, mas para nossa surpresa o trânsito estava parado. Travado. Os carros desligados e os motoristas pra fora, tentando entender o que acontecia. Nunca vi isso nesses 10 anos que moro aqui.

Um minuto de silêncio e a tentativa de organizar o pensamento. No meio disso, minha mente foi até a Amma, onde meu coração se conforta nas horas de aperto e se deleita no amor incondicional também. Um pedido simples de socorro: me ajuda Mãe Divina.

Voltei à situação real e perguntei: Hubert, e agora? Antes que ele pudesse responder, passou a mil ao nosso lado um carro dos Bombeiros, que retornava de uma missão delicadíssima contra o fogo, que pasmem vocês, está queimando nossa Mata Atlântica, a beira mar, há dias. Tempos intensos esses de hoje!

Sem nem pensar em mais nada sai em disparada atrás do carro, adrenalina a mil. Logo adiante uma contenção policial impedia qualquer movimento para qualquer lado. E um pouco mais adiante, visualizamos a banda da Polícia Militar em plena apresentação. Contei ao bombeiro que dirigia o carro o que se passava, e na hora ele mudou o semblante e disse para que o seguíssemos.

Então a banda parou! Passamos pelo meio dos músicos atônitos (eles e nós) e seguimos estilo perseguição policial até a sede do Corpo de Bombeiros, quando pensei: pronto, eles vão nos atender aqui. O tenente desceu primeiro e veio direto ver o Cauê. Uma rápida olhada e nos mandou imediatamente para o hospital. O conforto se transformou em mais angústia num olhar.

Passei junto com o Cauê para o carro dos bombeiros e Hubert assumiu nosso carro. Aqui vale ressaltar que Hubert chegou na região há dois meses, não conhece nada de Ilhéus. Advinha? Em duas quadras já estávamos separados, e ele perdido na cidade, com o carro quase sem gasolina, sem telefone e sem saber para onde fomos.

Chegamos no hospital regional e entramos junto com os bombeiros. Enquanto eu fazia a ficha o Cauê já foi levado imediatamente pra mesa de cirurgia por um dos bombeiros. Opa, acho melhor eu mudar essa nomenclatura. Não eram bombeiros, eram anjos. Anjos que a Mãe Divina colocou no nosso caminho na hora certa. Como toda mãe que ama faz.

O hospital estava lotado. Os corredores cheios de pessoas em condições lastimáveis. Um cheiro de urina inacreditável. Em cada olhar eu via uma história de muito sofrimento. A compaixão emergiu do coração e dentro do meu estado de espírito, já frágil diante daquela situação, eu queria ter o dom de com um toque transformar aquele lugar num lugar limpo, digno, como um centro de cura deve ser.

Entrei na sala de cirurgia e o Cauê estava deitado, quase em choque. Não era um choque de dor, ou pela perda do sangue. Era um choque de humanidade, que eu li no seu olhar ao primeiro encontro de nossas retinas. Ficamos de mão dadas, em silêncio, enfrentando nossa dor e a de todos que ali estavam.

O médico chegou, nossos anjinhos se despediram e foram continuar sua missão. Mesmo no meio desse caos politico e social eu vi que há esperança nas instituições, se pensarmos que elas são feitas de seres humanos, e que nossa essência é o amor. Seremos eternamente gratos a esses 3 servidores da causa divina!

O procedimento incluiu 15 pontos e um raio x. Mais uma oração silenciosa de agradecimento aos médicos e por não ter ocorrido nada de mais grave. Tenho certo para mim que o mais chocante pro Cauê não foi a dor do machucado, foi o choque de realidade diante da condição daquelas pessoas no hospital.

Demoramos mais algum tempo para conseguir dar uma risada. Tomamos um sorvete de limão pra lembrar da leveza da vida. E voltamos pra casa. Ele para descansar, e eu para tentar entender tudo isso que se passou em 3 horas.

Sabe. Muitas vezes o medo vai chegando e se a gente deixar, ele toma conta. Crescemos numa sociedade em que ele foi valorizado. Mais do que isso. Numa sociedade em que ele é uma das ferramentas de dominação.

Enfrentar o medo não significa ter coragem. Significa ter amor. Amor Incondicional. Venci o meu medo nesse dia ao me conectar com a Amma, que é minha referência do Amor Divino na Terra. Bastou pensar nela para que o nosso drama se transformasse numa sequência de milagres. Todo o medo de que ele desmaiasse, tivesse perdido muito sangue, ou que o hospital não tivesse condições de atendê-lo imediatamente se desfez num pensamento de amor.

Ah, o Hubert! Pois é, parou o carro e pediu ajuda. Um anjinho que passava ali levou ele até o hospital (poderia ter sido um hospital, outro, ou ainda outro, mas foi exatamente onde estávamos). E quando eu sai para tentar encontrá-lo, ele estava na porta, nos esperando.

Gratidão Mãe Divina, cuide de todos nós!