Perdão, mas estupro não é sexo não!

É deprimente que, em menos de seis meses eu esteja escrevendo sobre (quase) o mesmo assunto. É inaceitável o fato de estarmos no século XXI e precisarmos tanto discutir sobre um assunto que já é pauta há mais de 100 anos na sociedade. É incoerente como, depois de tanta luta (principalmente através do movimento feminista), ainda estejamos sujeitas a ouvir barbaridades sobre sexo não consensual.

A situação é crítica: Em nosso país, numa pesquisa feita pela revista Época (onde, pasmem, 66% dos entrevistados eram mulheres) no ano de 2013, 58,7% das pessoas disseram que ocorreriam menos estupros “se as mulheres soubessem como se comportar”. 26% dos entrevistados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em pesquisa feita em 2013 e divulgada em 2014 concordam com a afirmação “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. A culpa, portanto, seria da vítima. Em contrapartida, 70% dos casos de abuso sexual no Brasil têm como vítima crianças e adolescentes. Incoerência, sim ou claro?

Já em uma pesquisa realizada em 2014, pôde-se concluir que a cada 11 minutos um caso de estupro é notificado no país e, no mesmo ano, o Datafolha constatou que 64% da população teme sofrer abuso sexual, número que chega a incríveis 90% quando se trata apenas das mulheres. Também segundo o Ipea, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. É aí que entra um outro assunto muito importante.

Para muitas pessoas, sexo não consensual dentro de um relacionamento não é considerado estupro. Ou seja, o parceiro poderia, quando bem entendesse, forçar sua companheira a manter relações sexuais com ele sem que isso fosse considerado um abuso. É importante esclarecer que caracteriza-se estupro mesmo que não haja agressão física ou verbal. Caríssimos, pressão psicológica também constitui como violência; insistência até a vítima “ceder” também configura estupro. Me perdoe, mas se a moça se nega a prosseguir, já começou errado. Não insista, quando um não quer, dois não transam.

Enquanto nossa população pensar que roupas e atitudes justificam violência, que em um relacionamento pode haver sexo sem que uma das partes esteja disposta, que assédio verbal é legal (e que as mulheres gostam disso), que perseguição e insistência é romantismo; continuará sobre nós a nuvem negra da cultura do estupro.

Vi muita gente repercutindo sobre o termo na época em que postei o meu texto explicando o que ele significa, entretanto, abordando o assunto de forma errônea. Em síntese, a cultura do estupro não é literalmente o que o termo aparenta ser, mas sim quando atitudes como as descritas acima acontecem e a sociedade julga como normalidade.

Cultura do estupro se dá quando a maioria da população acredita que a roupa e o comportamento da vítima implicam no abuso. Quando uma mulher é abusada pelo seu próprio parceiro. No momento em que crianças são cada dia mais sexualizadas e marginalizadas em nossa sociedade. Ocorre no ímpeto de acontecimentos diários que são omissos porque as vítimas têm medo de denunciar os seus pais, irmãos, tios, primos, namorados e maridos.

Que a sociedade me perdoe, mas só não enxerga a realidade quem se recusa. E quem, de alguma forma, reproduz discursos como estes e negam que esta seja a nossa real situação, está sendo conivente de tudo.

Você, caro leitor, é vítima, agressor ou cúmplice desta cruel história? Não feche os seus olhos para o problema, entre na luta conosco. Sexo não é estupro, denuncie.

Disque Violência Contra a Mulher, ligue 180.

Todas as pesquisas citadas no texto são de inteira responsabilidade de seus idealizadores.