eu desisto, sabe?

não de mim, não hoje.

decidi abrir mão de tentar encontrar nas pessoas aquilo que falta aqui dentro. seja uma pitada de afeto ou uma atenção legítima e nada inquisidora. no fim das contas, sempre que olho para os lados me vejo só até quando rodeado por pessoas. meus amigos são incríveis, não me entenda mal. mas eles se completam e se transbordam e eu sobro. sobro porque não há canto que me caiba genuinamente. sobro porque a tristeza que escorre pelo meu rosto cansado não é visível o suficiente para que se importem em me manter. eu sobro. sobro como um pedaço de carne esquecido no fundo da panela, quando todos já se saciaram e ninguém aguenta mais sequer olhar para o que ficou ali. é, eu realmente sobro. sobro na fila de entrada para o mundinho dos outros enquanto tento desesperadamente me desprender das trevas do meu.

mas eu desisto, sabe?

não de mim, não mais.

vou abraçar o caos do meu próprio desespero e fazer da solidão que tanto me persegue a minha melhor e mais fiel companhia.

porque sei que sobro quando me falto.

porque sei que falto sobrar em mim.