A borboletinha

Todos os dias de manhã, Mariana Zanatta Rodrigues, 11 anos e 9 meses, se levantava vestida com o uniforme da escola, com as meias arrastando no chão. Sua companheira Luna, cadela de estimação da menina, acompanhava o trajeto agarrada nos pés. Nara Zanatta, mãe da garota, saia para trabalhar cedo. Na manhã do dia 19 de setembro de 2009 não foi diferente. Ao ver a mãe levantar da mesa, Mariana se agarrou em Nara e a beijou muito, como se quisesse ficar para sempre nos braços de sua mãe.

O pai de Mari, Clóvis Rodrigues, é quem levava a menina todos os dias até o colégio Santa Dorotéia. Sempre que os dois chegavam a escola, Clóvis esperava a filha entrar e depois ia direto para o trabalho. Cerca de 12h15 daquele dia, Mariana faz uma ligação. “Pai, estava aqui conversando com as minhas amigas, perdi o horário e o ‘tio da van’ não me esperou. Posso ir de ônibus para casa?”, Clóvis hesita, mas concorda. Ás 12h45 tudo muda. O celular do pai de Mariana toca novamente: “Não era a Mari, era um homem me perguntando se eu conhecia ela. Não entendi nada. Ele me disse que houve um acidente”, diz. Na ida para o Hospital Cristo Redentor, Clóvis se questionava junto com Nara. “O que deve ter acontecido? Deve ter, no máximo, ralado uma perna ou quebrado um braço.”

No Hospital, os pais de Mariana aguardam por alguma resposta. “Eu perdi a noção do tempo. Só lembro do médico dizer: ela está em coma”, conta. Mariana foi vítima de atropelamento. Ainda em choque, esperam por alguma reação da filha. Até que o médico avisa. “Ela não tem reação nenhuma, não há o que fazer”. Clóvis e Nara desabam. O médico, vendo a falta de reação dos pais, explica: “Nós vamos desligar os aparelhos”. Aos prantos, Clóvis avisa: “Então, vamos doar os órgãos de Mariana”.

“Quando a Mari partiu, eu perdi a função. E agora, o que vou fazer? Não tem mais pra quem ser o super-herói. Eu não vou ser super-herói pra ninguém! A dor de perder um filho é uma coisa inexplicável. Eu não comia, não dormia, só respirava porque isso é natural. Eu e Nara só queríamos partir, acabar com a nossa dor e encontrar nossa filha”, desabafa Clóvis.

Clóvis Rodrigues, pai de Mariana. Foto: Emily Mallorca

Mariana era uma criança sapeca, calma, meiga e parceira. A menina gostava de andar de bicicleta e brincar com o pai. Na hora de estudar, sempre fazia suas atividades escolares com muita calma, o que gerou a frase que mais falava para os pais: “Cada um é do seu jeito”.

Hoje, Clóvis luta diariamente para que a passagem de Mariana nessa vida não tenha sida em vão, avisando as pessoas sobre a imprudência no trânsito. Além da borboleta pintada ao chão para simbolizar a consequência letal do atropelamento, a tragédia que envolveu Mariana fez com que a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) sinalizasse a rua com placas de limite de velocidade e quebra-molas. Clóvis e Nara ainda vivem na mesma rua onde tudo aconteceu, inclusive mantêm o quarto de Mariana intocado. “Nós pensamos em sair dali, mas depois lembramos que esse foi o lugar onde a gente foi mais feliz”, diz Clóvis.

Depois de doar os órgãos, Mariana foi cremada. “Eu não ia ficar o resto da minha vida admirando uma pedra, não queria fazer isso”, explica Clóvis. Os pais ficaram um tempo com a urna em casa, mas depois resolveram libertá-la no mar da praia de Capão da Canoa. “Fomos prestar nossa homenagem, foi libertador fazer ela voar. Ela vai a lugares que nunca foi antes, além disso, ela sempre estará com a gente”, diz Clóvis.