Boa, mas não o bastante

Emily Amaral
Nov 2 · 3 min read

“Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu” C.L.

Recentemente uma situação aparentemente boba serviu de gatilho para que eu acessasse uma parte adormecida e dolorosa de mim mesma. Do meu ser e estar no mundo. Uma parte sem nome e sem endereço, que eu não conseguia entender ou enxergar, só sentia a presença, como uma espécie de entidade que me acompanhasse desde sempre, mas que talvez só agora eu pudesse enfrentar com maturidade psicológica e sensatez política.

Somos corpos políticos, afinal de contas, e é preciso também fazer esse recorte para que possamos entender nossa trama.

Era um evento de arte. Me vi fora do eixo nesse local, num contexto diferente do meu lugar-comum. Me vi assim não por achar que eu não podia ocupar aquele lugar, mas porque há qualquer coisa de nocivo que paira sobre a atmosfera dos cenários da classe média alta, branca e detentora do capital cultural que incomoda, sufoca e oprime em nuances. Ainda que não tenha sido dita uma palavra a mim e que não tenha havido conflito direto dentro desse espaço, percebi que a minha presença de mulher não-branca, periférica e fora do padrão estético foi o ponto-chave para que eu me distinguisse das demais presentes. Me senti incomodada com o meu corpo ali, como se meu único instrumento de contato com o mundo fosse impróprio e não desejado.

Me olhei no reflexo do vidro… Por que eu não merecia estar ali? Por que ainda que sob o uso dos mesmos códigos de conduta, o meu corpo não cabia ali dentro?

Até então nunca tinha feito um recorte de gênero, raça e classe direto sobre mim de um jeito tão cru. Foi uma experiência catártica que me levou a lugares das minhas vivências e sentimentos que cruzou, definitivamente, um limite pessoal, de vulnerabilidade e dor.

Fui até minha infância, revisei minha história e, principalmente, meus relacionamentos. A pergunta que ainda me martela a cabeça e me corta o peito é: por que me sinto preterida por mulheres brancas, magras, de cabelo liso, traços finos e de classe superior à minha? Por que me sinto inferior a essas mulheres? Essas são questões que a desconstrução lenta e gradual da militância feminista ainda não me preparou para lidar. É mais profundo.

O combate a determinados padrões ainda não é capaz de acessar as nossas dores – essas são intransferíveis.

Sinto que posso ser PhD, assumir posições de poder, colocar silicone, ficar malhada, emagrecer 20kg ou ganhar na loteria… a imagem dessas mulheres ainda me fere de alguma forma inominável.

Olhei para um passado recente de rejeição e para o meu histórico de relacionamentos: por que os homens com os quais me envolvi nunca foram capazes de me assumir publicamente? Será que eu não sou digna de afeto tanto quanto as mulheres que me substituíram? Será que eu não mereço um amor que me dê a mão no shopping ou me leve ao almoço de família no domingo? Será que eu não sou boa o suficiente? Será que eles têm vergonha de mim? Me dói profundamente verbalizar essas angústias… mas se eu não compartilhasse, poderia morrer sufocada qualquer dia desses.

Posso olhar no espelho e tentar me convencer que sou uma mulher incrível, mas como eu disse no texto anterior: “quando não nos amamos o suficiente para convivermos com nós mesmos – ou sequer sabemos a definição de amor próprio – acabamos por terceirizar esse ato”. O outro se torna um tipo de redenção das nossas dores e traumas, um depósito involuntário de expectativas extrapessoais.

Ainda que eu e você não consigamos adentrar o universo privado do outro para entendermos o que se passa, que não saibamos quais são os conflitos e dores que as pessoas enfrentam diariamente e suas lutas internas, temos que realizar um puta esforço mental pra sair desse bueiro que é a autossabotagem, sobretudo porque não temos o direito e nem a capacidade de irmos a esses lugares.

A nós cabe lidar com o que é nossa responsabilidade: ações e palavras. Esse é o limite.

O inferno são os outros.

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