Um dia de fúria

Hoje fui a selva.

Eu que nasci e cresci em uma cidade com 3000 habitantes, qualquer grande aglomeração já é algo preocupante. Mas vez por outra tenho que engolir o choro e vencer o medo na busca de serviços em uma cidade maior. E o que encontrei hoje não foram muitas pessoas. Na verdade foram muitas, mas não sei o que. A definição de homo sapiens passa longe.

No trânsito é onde tudo ocorre. Com o transporte público precário que enfrentamos os carros se multiplicam e bla bla bla. O negócio é o seguinte. No trânsito o filho chora e a mãe também. Ninguém cede. Ninguém anda devagar. Ninguém pensa e mais nada a não ser em si mesmo.

Existem diversos personagens que encontrei:

1-Thug: normalmente de caminhonete se acha o grandão. Porque é na verdade. Mas o que acontece : por ser grandão o valentão pensa que pode passar por cima de todo mundo, como se estivesse acima da legislação e dos sinais de trânsito. Um paladino da direção ofensiva. Percebemos nele uma descrição Nietzscheniana quase perfeita do anticristo.

2-Grandpa: Sabe aquele corcel II? Ou aquele escort que seu pedreiro usa faz 20 anos pra carregar ferramenta? Então. Conheça o vovô. Sempre andando a 60% da velocidade permitida o vovô transita como se pedisse respeito por todos os anos de serviço prestado.

Voltando pra minha pequena cidade em uma pista dupla de limite de velocidade 110 km/h deparo me com um vovô. Um voyage andando adivinha onde? Pista da esquerda. Com que velocidade? 80 km/h. Eu no meu pequeno 1.0 2014 peço com toda a educação que ele se desloque para a pista ao lado por meio de sinais de luz. Como se dissesse: “amado vovô não quero desrespeitá-lo cometendo uma infração de trânsito ultrapassando-o pela direita. Por favor fique aqui na direita onde é mais seguro” depois de muito insistir, aquele bastião da indústria automobilística da década de 90 vai pra direita e enquanto o ultrapasso ganho do motorista um belo dedo do meio em riste.

3-Inconsequente : a descrição do veículo segue semelhante ao caso anterior. O que muda é o motorista. É como se o vovô estivesse contra o Jean Willis e legalizado maconha e todas as outras drogas. E as usado.

Em um trecho da rodovia em obras é necessário que cruze a pista. Como cruzamento é algo tenso, os operários fizeram um quebra molas para que quem vem da pista a ser cruzada tenha que reduzir a velocidade. No meu caso estava eu lá tranquilo e sereno esperando naquele frenético movimento minha chance de cruzar. Até que apareceu. Tinha um carro vindo, mas ele estava longe do quebra molas. Dava tempo.

Aprendi muito bem com a lição de casa que papai ensinou:

Nada de moleza na vida. Principalmente em cruzamentos. Quando for cruzar. Cruza que nem hominho.

Beleza né. Vamos lá. Acelerei o milzinho que chegou a urrar. Tudo dentro dos conformes. Com exceção do mentecapto que como se sentisse afrontado por eu cruzar a pista, acelerasse o máximo que poderia e pulou o quebra molas…

Sorte que eu não sou mole. Papai ensinou bem. Mas olha. Tirou fina. E me diga. Pra que? Se batesse meu carro tem air bag. O dele não. Ele bateria na traseira do meu veículo. Não me prejudicaria fisicamente. Mas ele. Bem provável que ficasse preso nas ferragens. Me responda por favor. Por que?

Após esses casos que aconteceram em 90 minutos de viagem o único pensamento que me veio a mente foi de um dos irmãos Karamazov do livro homônimo.

Alieksei Karamazov estava no seminário e após uma morte — não sei quem agora. Memória me abandonou . — Se encontra em um estado de revelação interna. Um nirvana. Uma revelação espiritual o atinge e ele exclama: Eu Amo. Amo o mundo. É um momento de entrega espiritual em que ele beija a terra reafirmando sua humanidade. Só pensei nisso. É fácil você amar quem te quer bem. Quem se esforça para não te machucar. Mas quando você lida com desconhecidos que em grande parte só querem te devorar você esquece o amor, carinho, bondade. Atitudes como essa, relacionadas ao lóbulo frontal, parte mais desenvolvida do cérebro, são facilmente trocadas por um comportamento hostil de autopreservação. Somos seres rapinantes. Destrutivos. Ferozes. Por isso hoje entendo esse trecho do livro de uma forma mais plena. Exige muito caráter, muita força interna de autocontrole, e muita superioridade você abandonar o natural que a selva promove e dizer pra quem corre o risco de te matar :

Eu te amo
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