A ANATOMIA DE UM INSTANTE

Na sociedade do espetáculo, ele foi, em todo caso, mais um espetáculo. Mas isso não significa que seja ficção. Ele foi real, e gravou em nossa memória imagens muito densas, transbordantes de histórias e imantadas de verdade: algo desordenado, infeliz e imprevisível, como é a realidade.

Mas esse caso, em particular, foi envolvido por um enigma — cuja solução talvez nem trate do que ninguém viu, e sim o que todo mundo já viu muitas vezes, porém, ainda assim, não descobriu o significado.

Nesse espetáculo, políticas criavam a placenta para gerar o futuro golpe. A oposição parecia trabalhar como nunca para afundar o país, o encanto da democracia parecia ter desvanecido, e nas ruas se sentia-se uma mistura de insegurança, pessimismo e medo.

Sequestrar o governo? Mudar alguma coisa para que ele possa continuar igual? A crise no país é cada vez mais profunda e torna a situação favorável como nunca para uma reviravolta política.

O panorama é alarmante, e se começa a falar em soluções de emergência. A pessoa responsável por isso ocupa a cadeira mais alta e é preciso tirá-la de lá.

Ouve-se um coro de vozes unidas: “queremos um governo forte, que ressuscite a economia, racionalize, devolva a calma ao país”.

Enquanto isso, a persona que representa o governo passeia só pelos corredores. Uma persona perdida e politicamente abatida, contra a qual conspiram toda a classe. Esse é o sentimento de um governante encurralado?

A crise de autoestima do povo àquela altura é a crise de autoestima da pessoa com mais poder no país. Passar mais de quatro anos no poder é tempo suficiente para criar muitos inimigos (apesar de se possível que eles já fossem inimigos bem antes de sua chegada ao poder).

A situação é catastrófica. Até as vozes mais dissonantes concordam que tirar a persona do poder é a única solução possível para as arbitrariedades, embora saibam que a solução não seria completa se logo em seguida não se formasse um governo de concentração ou unidade de participações.

Isso foi tudo. Ou isso é tudo o que sabemos. E isso certamente não significa que durante um outono e meio inverno não tenha existido conspiração a favor de um golpe contra a democracia. Significa que uma forte dose de aparvalhamento intensificou temerariamente o assédio ao presidente legítimo do país e, julgando-se manobrar contra este, acabou-se numa manobra a favor dos inimigos da democracia.

Um complicado coquetel de ideologias díspares, sob marcas eleitorais que parecem improvisadas, ganham adeptos. No que era um momento de plenitude, a persona começa a cair em um tipo de letargia da qual não sairá até deixar a presidência, e seu partido rachar irremediavelmente.

O fenômeno é estranho, mas não inexplicável. Entretanto, não tem uma única explicação, tem várias: o ciúme, as rivalidades e as divergências que proliferam no seio do seu partido. Todos os dirigentes sentem que poderiam substituir o presidente em seu cargo, com vantagem.

A realidade em peso parece conspirar contra a persona no poder (ou a persona sente que todos conspiram contra ela): os jornalistas, os empresários, os economistas, os políticos de direita, centro e esquerda.

E, no fundo, conspiração não é exatamente isso? A aliança de um conjunto de pessoas contra quem está no poder?

Poucos se recusaram a participar dessa bagunça suicida.

Explico. Era segunda-feira. O dia amanheceu ensolarado em Madri, naquele 23 de fevereiro de 1981. Por volta das 18h30 já estava anoitecendo. Bem a essa hora, o tenente coronel Tejero entrava na Câmara dos Deputados no comando de uma tropa improvisada composta por dezesseis oficiais e 170 suboficiais do exército, para tirar Adolfo Suárez da presidência da Espanha.

Vejam só, era o princípio de um golpe.

* Em adaptação livre do ensaio “A Placenta de um Golpe”, de Javier Cercas, do livro Anatomia de um Instante. Maria Emília Zampieri é jornalista e filósofa.