Bar
Não sei das horas mas sei da noite acima.
Sei que já parto, é tarde ao lado, sei do clima:
Nublado.
O copo de cerveja à minha frente já quente.
Fixo o olhar debruçado numa meia dum pé que se balança, à meia dança.
O pé nervoso, o cheiro. O homem de cara fechada olha atento a porta do banheiro, de pernas cruzadas.
A mulher volta. E ele sentando o olho em cima dela
Ela esparrama sua bunda branca e bela,
Se encaixa alcoolicamente naquela cadeira amarela.
Aquele homem se transforma num pé. Remexendo. O pé se balança.
Eu não sei das horas mas tique taco o tempo no metrônomo acelerado do pé que balança.
No tique toco o bolso, sinto a ponta da chave pontiagudando minha coxa, de tanto tempo machucando já deve estar roxa.
Olho o copo dourado, viro contra a cara:
a palma da mão está quente mas o copo a molha. A língua está seca, o amargo seca mais. Olho, agora o copo de um transparente suado. Suado.
Penso no banho, penso na chuva nublada, naquela meia melada e na minha língua que fede.
A renda daquela meia, a fenda da lua cheia. Faço a soma voar, não sei da conta, eu tenho como pagar. Peço outra, e outra.
As pessoas passam por minha mesa, cruzam o bar sem ao menos… eu nem sei delas. Saber, eu não vi as coisas ao meu redor. Desperto.
Se vi foi agora. Amigos à mesa. Quatro pessoas falando ao meu lado, as quatro garrafas no chão todo molhado, foi a garrafa que caiu ou foi a?
Chuva começou, estava nublado.
Começou, e já pressentia, eu não sei da temperatura, sei que tornou mais um dia, já é o outro. Outro dia inicia, frio. Uma gota no meu braço.
Estou febril, sequer ninguém daqui sentiu.
Ao pedir outra ele olha e balança a cabeça, e se vira para buscar - também balançando a cabeça. Ele serve a mesa do homem pé, da meia, o pé também balança. Aquela meia branca. Aquelas ancas. Vão trepar depois do bar. Balançar, suados, molhados, cerveja, chuva. Noto agora chuva lá fora, o suor das ruas escorre, córregos lavam o corpo.
Não importa, pago, vou embora. A chuva na rua nua sem lua. Eu pela rua, balançando.
Eu vejo as ruas despidas, seus perigos, seus olhos, suas ladeiras e as escalo; escapo dos cachorros aos tombos, dos rombos do chão, digo e penso não à luz, vou no escuro: a sombra longa, única e distante da noite me seguia. Deus me perdendo no escuro do Cabo às 3h. Ele estava com todos ali, no bar; bebeu comigo, me serviu, e quando eu olhava para a mesa, meu copo estava sempre cheio, mas vê-lo, não vi; vi a meia.
Já foi. O que importa é agora: e chove. À frente um cão molhado, com pelos ouriçados, feridas, com a cabeça enfiada numa bolsa de lixo. Ele está comigo, me acompanhando e eu agora o noto, estou sozinho, talvez com um demônio de quatro, que me olha, rosna e torna a comer lixo.
Subo e desço outra ladeira.
Chego à porta, estou na chuva, estou em casa, estou no banho, estou no quarto, estou na cama, estou no sonho, estou no bar.
