Bar

Emmanuel Pedro
Nov 2 · 3 min read

Não sei das horas mas sei da noite acima.

Sei que já parto, é tarde ao lado, sei do clima:

Nublado.

O copo de cerveja à minha frente já quente.

Fixo o olhar debruçado numa meia dum pé que se balança, à meia dança.

O pé nervoso, o cheiro. O homem de cara fechada olha atento a porta do banheiro, de pernas cruzadas.

A mulher volta. E ele sentando o olho em cima dela

Ela esparrama sua bunda branca e bela,

Se encaixa alcoolicamente naquela cadeira amarela.

Aquele homem se transforma num pé. Remexendo. O pé se balança.

Eu não sei das horas mas tique taco o tempo no metrônomo acelerado do pé que balança.

No tique toco o bolso, sinto a ponta da chave pontiagudando minha coxa, de tanto tempo machucando já deve estar roxa.

Olho o copo dourado, viro contra a cara:

a palma da mão está quente mas o copo a molha. A língua está seca, o amargo seca mais. Olho, agora o copo de um transparente suado. Suado.

Penso no banho, penso na chuva nublada, naquela meia melada e na minha língua que fede.

A renda daquela meia, a fenda da lua cheia. Faço a soma voar, não sei da conta, eu tenho como pagar. Peço outra, e outra.

As pessoas passam por minha mesa, cruzam o bar sem ao menos… eu nem sei delas. Saber, eu não vi as coisas ao meu redor. Desperto.

Se vi foi agora. Amigos à mesa. Quatro pessoas falando ao meu lado, as quatro garrafas no chão todo molhado, foi a garrafa que caiu ou foi a?

Chuva começou, estava nublado.

Começou, e já pressentia, eu não sei da temperatura, sei que tornou mais um dia, já é o outro. Outro dia inicia, frio. Uma gota no meu braço.

Estou febril, sequer ninguém daqui sentiu.

Ao pedir outra ele olha e balança a cabeça, e se vira para buscar - também balançando a cabeça. Ele serve a mesa do homem pé, da meia, o pé também balança. Aquela meia branca. Aquelas ancas. Vão trepar depois do bar. Balançar, suados, molhados, cerveja, chuva. Noto agora chuva lá fora, o suor das ruas escorre, córregos lavam o corpo.

Não importa, pago, vou embora. A chuva na rua nua sem lua. Eu pela rua, balançando.

Eu vejo as ruas despidas, seus perigos, seus olhos, suas ladeiras e as escalo; escapo dos cachorros aos tombos, dos rombos do chão, digo e penso não à luz, vou no escuro: a sombra longa, única e distante da noite me seguia. Deus me perdendo no escuro do Cabo às 3h. Ele estava com todos ali, no bar; bebeu comigo, me serviu, e quando eu olhava para a mesa, meu copo estava sempre cheio, mas vê-lo, não vi; vi a meia.

Já foi. O que importa é agora: e chove. À frente um cão molhado, com pelos ouriçados, feridas, com a cabeça enfiada numa bolsa de lixo. Ele está comigo, me acompanhando e eu agora o noto, estou sozinho, talvez com um demônio de quatro, que me olha, rosna e torna a comer lixo.

Subo e desço outra ladeira.

Chego à porta, estou na chuva, estou em casa, estou no banho, estou no quarto, estou na cama, estou no sonho, estou no bar.

    Emmanuel Pedro

    Written by

    Nonada