Casa nova — Parte 1

Eu sempre tive o desejo de morar em uma casa diferente de onde meus pais vivem. Não é bem morar sozinha, pois não tenho problema em dividir o espaço com outras pessoas, desde que elas respeitem o meu. O negócio seria morar longe da minha mãe.

Para entender melhor, voltarei mais de uma década no tempo, na época em que morava em uma pequena cidade do interior e fazia faculdade em outra. Nunca exigi — nem deveria — que meus pais me dessem as coisas. Mas, meu pai preferia que eu fizesse faculdade no interior mesmo, e não na capital, pois ele desejava que eu ficasse perto.

A faculdade era particular e ele também pagava o fretado, pois obviamente saía mais barato do que pagar um aluguel para eu morar perto da faculdade. Estudava em período integral e era cansativo demais: saía umas 6h30 de casa e só chegava depois das 19h.

Sair de casa às 6h30 todo dia, estudar e chegar após as 19h

Eu chegava e estava tudo pronto: janta, casa limpa, ambientes organizados. Minha tarefa era estudar e, nos finais de semana, ajudava a colocar a casa em ordem. Eu era habituada a fazer minha parte e ajudar, apenas não tinha tempo de segunda a sexta.

No meu último ano da faculdade, meus pais estavam se separando. Minha mãe saiu de casa e alugou um apartamento na mesma cidade. Eu e minha irmã fomos junto, afinal não queríamos morar na casa, que era longe de tudo e me fazia ser dependente — já que não dirigia e não dirijo até hoje.

Nesse apartamento, passei a me virar ainda mais e a cuidar da casa. No último ano de faculdade, apenas um dia da semana era em período integral, nos outros aproveitava o tempo para fazer coisas da casa e meu TCC.

Fazendo o TCC como se não houvesse amanhã

Nesse período, “deu a louca” na minha mãe e ela saiu do apartamento também. Tipo, passava alguns dias de semana lá com a gente e os outros na capital. OK, eu tinha paz para estudar e fazer meu trabalho, pelo menos.

Quando me formei, já tinha decidido morar e trabalhar na capital. Minha mãe já estava praticamente lá e eu não tinha o que fazer no interior. Minha irmã também decidiu ir, pois era adolescente e preferia ficar perto de mim. Meu pai ficou no interior mesmo, onde vive até hoje.

Ter pais separados é bem foda, especialmente quando querem manipular os filhos e sempre ter razão, até mesmo nas decisões burras e atitudes cagadas. Minha mãe parecia querer aprovação para o que fazia. Mas era adulta, acho que só queria ter atenção mesmo.

Filha de pais separados que não se falam

Morar com ela sempre foi difícil. Por um lado, queria dar conta de tudo e ser a dona de casa que sempre tinha sido. Por outro, era revoltada por ser a dona de casa e jogava as coisas na nossa cara. Eu era mais na minha e gostava de limpar a casa e cuidar das coisas no meu momento, e não na hora que ela queria que ajudasse. Até hoje sou assim, se não tô a fim de fazer algo, prefiro deixar pra depois.

Um dia, comentei que estava a fim de sair de casa. Lá, dividíamos todas as contas. Ela respondeu algo como “se você for sair, me avisa logo para eu ver como vou fazer para pagar as contas”. E isso de maneira bem ríspida. Notei como ela queria ter a gente sempre por perto e ter um certo controle sobre nossas vidas. Eu me sentia sufocada com isso.

Eu esperava ter um emprego onde ganhasse um pouco mais e pudesse me sustentar sozinha, mas antes queria viajar e fazer intercâmbio. Uma coisa ou outra, não daria para ter as duas tão logo. Preferi ir para fora do Brasil.

Quando achei que daria certo sair de casa, eu desanimei com os valores. Pensei em dividir um apartamento ou casa, mas tinha receio, pois ninguém que eu conhecia estava na mesma pegada e eu tinha medo de morar com desconhecidos. Fui guardando dinheiro.

Contando o dinheirinho e achando que vai dar pra pagar um aluguel

Um dia, meu pai disse que compraria um apartamento para a gente. Vivíamos em uma casa alugada e ele queria que morássemos em um lugar nosso. Minha mãe bateu o pé que não iria se mudar, mas quando ela percebeu que não conseguiria se sustentar sozinha, foi junto. Péssima decisão, pois ela iria continuar mandando na gente e controlando a casa.

O dinheiro que eu estava juntando, resolvi investir numa pós-graduação, pois era uma das minhas metas. Morando num apartamento próprio, as despesas seriam bem menores e eu conseguiria voltar a estudar.

Mas a situação em casa foi ficando cada vez mais insustentável. Faço terapia desde 2013 e fui notando tudo que era tóxico na minha vida. Demorou um bom tempo até eu perceber que não era apenas meu jeito de ser, meu emprego bosta ou o namoro abusivo: a situação familiar e a difícil convivência eram igualmente prejudiciais para mim.

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