Casa nova — Parte 2
No texto anterior, dei um panorama sobre como é ser filha de pais separados e morar com um deles nessa fase. Se ainda não leu, leia aqui.
Quando eu descobri que minha vida poderia ser melhor se eu fosse morar em outra casa que não fosse a mesma onde minha mãe vive, a ansiedade se acentuou. Afinal, eu já pagava muitas contas em casa e tinha responsabilidade na manutenção e conserto daquilo que quebrasse.
Por exemplo, o condomínio, a conta de internet/telefone, conserto de geladeira, de registro, de descarga… minha irmã morou quase dois anos fora do Brasil, então eu não dividia com ela. Às vezes, minha mãe pagava metade de alguma dessas coisas, mas eu me ferrava sozinha com a maioria — tipo os consertos mais caros.
Nessa época, eu já tinha saído do emprego bosta e estava fazendo home office, trabalhando por conta própria. E ainda pagava minha pós. Imagine só quantos gastos eu tinha por mês e ainda aturar minha mãe cobrando. Quebrou a geladeira? Lá vou eu pagar o conserto de “apenas” R$ 250.
Eu nem vivia no luxo: quase não viajava e economizava o máximo com coisas pra mim, incluindo lazer. Não sabia como seria o próximo mês, pois meus pagamentos atrasavam ou os trabalhos eram incertos. Isso me dava ansiedade: a certeza de que deveria sair de casa e a incerteza se conseguiria me bancar sozinha.
Percebi que precisaria mesmo de uma renda fixa. Adeus vida de home office. Mandei muitos CVs e investi no meu networking. Surpreendentemente, o trabalho que consegui não foi por indicação, mas por meio de um longo processo seletivo.
Eu estava tão aliviada por poder pensar mais seriamente em me mudar! Comecei a pesquisar coliving, ou seja, compartilhar casa. No melhor esquema de alugar quarto individual e dividir a moradia com outras pessoas, escolhi o bairro dos meus sonhos. Seria uma ótima experiência saber como poderia ser morar lá.
Em menos de um mês no trabalho novo, eu me mudei. Esforcei-me muito para conseguir isso. Eu pensava em como iria facilitar minha ida e volta do trabalho, fazendo com que eu chegasse em casa mais cedo e pudesse fazer meus jobs ocasionais e incrementar a renda.
Nem faz uma semana que estou na casa nova, mas já posso afirmar que era disso que eu precisava: um espaço meu, ainda que com outras pessoas — que, aliás, mal vejo, pois passo o dia todo fora e, quando chego, vou cuidar das minhas coisas e da minha vida.
Eu me sinto mais à vontade por saber que não tem a minha mãe a me encher a qualquer momento, com suas discussões inúteis. E não desconto em ninguém também quando estou irritada e não devo satisfações se quero ficar fechada no quarto — ou se preciso, já que trabalho depois que chego em casa.
Além da independência, tenho o dever de respeitar os espaços dos outros, inclusive no quesito limpeza: já estou me habituando a lavar a louça cada vez que utilizo, coisa que nunca fiz em casa e esperava juntar mais e lavava quando queria.
Não sei por quanto tempo ficarei nesta casa nova. Só posso afirmar que precisava muito disso no momento.
