O primeiro porre

Comecei a beber tardiamente, com 20 e poucos anos. E, ainda assim, apenas algumas vezes, geralmente bebidas adocicadas, como batidinhas de frutas e chope com groselha.

Eu não gostava de cervejas, mesmo porque só conhecia as marcas famosas da época. Hoje, penso que atentado seria beber chope com groselha, não sei como gostava daquilo!

O fato é que, mesmo quando passei a conhecer outras cervejas e a beber coisas mais fortes, só fui ter meu primeiro porre aos 28 anos, uma semana antes de chegar aos 29. Antes disso, eu já tinha ficado bêbada, mas nada se compara a esse dia fatídico.

Aquele drink docinho que quase te leva pra cova depois

Na época, eu estava saindo com o ex que me abusou (vou passar a chamá-lo de P., daqui pra frente) e foi antes de virarmos namorados. Eu lembro bem: estava tomando um antidepressivo forte, mas eu tinha tomado só dia no anterior.

Fomos a um pub e pedi uma Guinness, que desceu deliciosamente bem. Depois, quis diversificar e pedi um Cosmopolitan, para voltar aos tempos de drinks adocicados. A terceira bebida eu já nem lembro o que era, mas algo doce também. Talvez tenha existido uma quarta, mas sinceramente não lembro.

Tudo começou com uma Guinness

Só sei que, na hora de ir para o caixa pagar, eu nem conseguia andar. Ele teve que me apoiar até lá. Mas o pior ainda estava por vir. Tivemos que andar algumas quadras até o metrô e eu me esforçava muito para ficar em pé.

Chegamos e eu estava mal pra caramba. Entrei no vagão. Ainda tinha uma baldeação, da qual nem lembro. Só sei que comecei a passar mal, minha pressão despencou e acho que desmaiei. “Acho” porque apaguei, não sei o que aconteceu. Pra piorar, eu vomitei dentro do metrô.

Eu juro, foi um dos momentos mais constrangedores da minha vida — senão o mais. Imagine estar saindo com um cara que nem é seu namorado e passar mal com ele, ainda por cima vomitar ao lado dele. E dentro do metrô.

Fiquei tipo assim

Foi tão horrível que eu comecei a chorar de vergonha. Eu falava “coitada da mulher que vai fazer a limpeza do metrô”, e imaginava uma senhora simples tendo que limpar aquela nojeira. O P. já não sabia se eu estava chorando porque passava mal ou de vergonha — era de vergonha mesmo.

Daí comecei a pensar nele, o pobre ser humano que me apoiou, me segurou me acompanhou até em casa… Chegando na estação que desceríamos, eu sentei na escadaria da parte externa. Não conseguia andar, só chorava. O P. teve que me deixar ali por alguns minutos para comprar água no supermercado.

Fiquei ali, meio suja de vômito e chorando com a cabeça abaixada. Várias pessoas passavam por mim e perguntavam se estava tudo bem, e eu respondia “a pessoa que está comigo foi comprar água e já está voltando”.

Bêbada e chorando na escadaria do metrô que nem nessa cena de The Godfather

Eu não tinha condições de pegar ônibus da estação até minha casa — apenas 5 minutos, mas não dava mesmo. Bebi água e fui me acalmando, até que concluímos que tinha que ser táxi. Ele estava preocupado ainda de eu passar mal no táxi e termos que pagar uma “multa”, mas foi tudo bem até chegar onde moro.

Quando finalmente entrei em casa, minha preocupação era arrumar o quarto e tomar banho. Nem lembro quem ajeitou a cama, só sei que fui pro banheiro chorando muito, entrei debaixo daquele chuveiro como se estivesse morta por dentro. Não lembro se passei mal em casa, só que saí do banho, me vesti e capotei na cama.

Lembro de alguns detalhes sórdidos, que naquela época eu ignorei, mas tempos depois me toquei do quanto eram absurdos. OK, a gente já estava saindo há algumas semanas e já tinha rolado “algo a mais” outras vezes, mas eu estava naquela situação e o P. ainda transou comigo.

O cara cuida de você e depois se aproveita

Não me insinuei nem nada, nem tinha condições, foi algo inconsciente. Lembro de ter acontecido e de não ter negado, mas também não aceitei. Tipo, como assim depois de me ver naquela situação, o cara ainda quer transar?

Ainda por cima, me senti toda culpada no dia seguinte, pedi desculpas ao P. e contei que nunca tinha passado por nada parecido com aquilo. Disse que não sabia se ter tomado o remédio no dia anterior me causou esse efeito ou se foi a mistura de bebidas tão diferentes — acho que a bomba foi pelas duas coisas.

Ele me apoiou naquela situação toda, cuidou de mim. Porém, durante a madrugada, aproveitou-se da minha fragilidade e abusou de mim. Não era para ter acontecido, ele tinha que me deixar quieta dormindo. Mas, esta sou eu em 2017 dizendo isso, naquela época ignorei o fato de ele ter transado comigo, mesmo eu estando naquelas condições.

Porre, passar mal, chorar, sofrer abuso, ter ressaca…

Tive outros porres menores depois disso, mas nada se compara a ter passado mal daquele jeito. Passei a repeitar meu limite e a parar de beber antes de chegar nele. Eu sei que sou fraca para bebidas alcoólicas, se for para exagerar, prefiro que seja sozinha e em casa.

Agora estou tomando remédios e seguindo o tratamento à risca. Para falar a verdade, eu nem sinto vontade de beber, seja o que for: cerveja, vinho, drink… nada me apetece e eu acabo preferindo água, suco, chá gelado ou refrigerante.

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