Bissexualidade, pansexualidade e mono dissidência

Bandeira bissexual (à esquerda) e pansexual (à direita). ❤

Olá, internauta com interesse no meu ativismo!

Este texto é uma tentativa importante de reunir todas as informações que absorvi até hoje sobre os temas do título (enquanto mulher cis e bissexual), e por isso é importante primeiro deixar claros (porque dúvidas não são motivos de vergonha) os pequenos termos que talvez não sejam tão comuns assim ainda — e fica o aviso que durante o resto eu também vou explicitar o significado de muita coisa — pra alguém que tenha chegado até aqui + uma descrição didática, com um leve posicionamento meu:

Antes de mais nada, galera… NADA DISSO QUE VEM A SEGUIR É OPÇÃO, TÁ? Nasce/se desenvolve natural e espontaneamente.

Orientação sexual ou sexualidade corresponde à forma de classificar e explicar por que grupo de pessoas você se vê atraído/mantém ou manteria relações sexualmente. Essa não é a única forma, no entanto, de descrever o seu envolvimento com outros seres humanos, pois são passíveis de auto interpretação ainda a atração física (que define a sua interação e percepção íntima com os outros, sem ser estritamente sexual) e romântica (por que grupo de pessoas você é capaz de desenvolver laços românticos/se apaixonar). Pode acontecer dessas três se alinharem (como acontece comigo) ou não, e isso é totalmente normal, mesmo que a sociedade muitas vezes restrinja a normalidade a ser heterossexual e ponto.

Obs.: A assexualidade é uma auto-definição tão válida quanto qualquer outra e pode servir como termo guarda-chuva pra todo o conhecido espectro assexual (que designa pouca ou inexistente atração sexual), o qual abrange diferentes áreas e outras definições comuns. (E nenhuma delas impede essas pessoas de se masturbarem.) Além disso, uma pessoa assexual pode ainda ter ou não atração física e/ou atração romântica. (Então, a partir de agora, nada de falar que tu queria ser assexual pra não sofrer no amor, baby.)

Identidade de gênero é um outro tipo de identidade, que corresponde à sua propriamente dita auto concepção de gênero. Uma pessoa cis se sente confortável com o gênero que designaram a ela ao nascer, intimamente ligado ao sexo biológico. As denominações de gênero além do conceito biológico incomodam por negar a ultrapassada noção de que toda mulher tem vagina e todo homem tem pênis, e que é isso que define o que cada um deve usar, gostar, fazer e ser pelo resto da vida. Se eu posso te dar um conselho agora, eu digo: ABANDONE ESSA NOÇÃO.

Obs.: Mas beleza ser cis! A única coisa que esse parágrafo quis explicar foi o fato de que isso te dá um certo privilégio em relação a quem não é, o que veremos a seguir.

O “oposto” de cis é, cientificamente, trans. Portanto, uma pessoa transgênero foge do padrão de gênero imposto a ela ao nascer, se encaixando numa outra identidade (NÃO NECESSARIAMENTE A DITA COMO OPOSTA). Existem, mais especificamente, pessoas trans não-binárias que, além de ter uma identidade de gênero que foge do padrão imposto, também não se encaixam na ideia de homem/mulher, ou, como é chamada, no binarismo de gênero. O binarismo é o progenitor daquela mesma noção anteriormente mencionada, pouco questionado e discutido justamente por ser vigente. Há, definitivamente, pessoas que se classificam como mais do que apenas homem e mulher e, logo, é impossível simplesmente ignorar que existem mais de dois gêneros na nossa sociedade.

Não podemos deixar de lado, também, a intersexualidade, que é TÃO POUCO FALADA que já foi NEGADA pelo meu PROFESSOR DE BIOLOGIA (adoro ênfases, foi mal). A intersexualidade parte de um princípio genético de diferenciação biológica, sendo confundida com “hermafroditismo”, e esse é um dos motivo dela estar aqui. Pra vocês lembrarem que é errado patologizar qualquer uma dessas definições.


Você deve estar, talvez, se perguntando: mas, ué, pra que todo esse negócio, por que não é só gostar das pessoas, ser quem você é e acabou, Emilinha? Não sou eu quem deveria responder, mas vou tentar…

Bom, teoricamente, nas melhores famílias, pode ser assim mesmo (estamos lutando pra que todos tenham essa liberdade algum dia). E segue o baile. E viva o bonde. E deixa acontecer naturalmente, então, pô… Porque, aproveitando, não deixa de ser importante lembrar que muita gente prefere nem se classificar como algo — principalmente durante a adolescência, quando há dificuldade em se ver realmente descrito por alguma dessas auto-definições. E tudo bem. Se pá, tudo muito ótimo pro resto da vida em não se rotular; acontece que nenhum tipo de termo aqui citado foi criado no objetivo direto de limitar experiências e reduzir a expressão individual, e sim por uma razão mais forte: organização social, representatividade política e militância LGBT+ contra a repressão estrutural, que é o preconceito estratégico e em larga escala estimulado pelo nosso sistema pouco inclusivo. Mais especificamente, a causa LGBT+ luta contra ambas a heteronormatividade e a cisnomartividade (essas, sim, agregam alguns dos conjuntos de regras responsáveis por limitar a sexualidade e a expressão individuais, respectivamente, na nossa sociedade atual e, como falado antes, impõem um padrão a ser seguido pela população), promovendo união entre pessoas marginalizadas, alvo desse preconceito.

Porém, por incrível que pareça, o ambiente LGBT+ não é livre de divergências (tem gente que não vai concordar nem com o + que eu tô colocando, sabe…): Por exemplo, o ataque a qualquer um de nós é aceitavelmente chamado de homofobia, mesmo que, claramente, ela se refira apenas à aversão a pessoas homossexuais — muitas vezes, com as pessoas equivocadamente limitando a homossexualidade a homens gays. Sendo assim, termos como bifobia, lesbofobia, transfobia e etc caem quase em desuso, mesmo abrangendo conceitos muito diferentes de ódio e ALVOS também distintos. Na minha visão, a principal problemática nisso é que a opressão não recai sobre todos nós da mesma forma.

Mas, queridos internautas, o motivo real de eu ter chegado a QUERER passar horas da minha vida escrevendo esse texto é um muito relevante: se tiver 5 links (sem considerar um único idioma) que solucionam as dúvidas infinitas do povo sobre qual a “diferença” entre ser pansexual e bissexual ou QUALQUER UM sobre mono dissidentes no geral, em toda essa internet que consumimos diariamente, eu acho é muito! E resolvi reunir o que eu tenho de legível na minha mente pra acabar com essa palhaçada, afinal ninguém aqui é ativista por esporte. Mesmo que às vezes todo o alcance que você tenha, feliz ou infelizmente, venha de redes sociais, é importante aproveitá-lo.

Bora:

Monossexualidade

Monossexualidade é a atração por um só gênero. Uma pessoa heterossexual é monossexual porque se atrai apenas pelo gênero oposto, assim como uma pessoa homossexual, que se atrai apenas pelo mesmo gênero.

Por outro lado, a não-monossexualidade ou mono dissidência é se atrair por mais de um gênero OU por nenhum (daí fica incluso parte do espectro assexual, muitas vezes esquecido no churrasco), ou seja, é a “inadequação” a se atrair por um só gênero, algo que não deixa de ser um certo padrão social que dá privilégios — principalmente a pessoas heterossexuais — e leva a preconceitos como a bifobia, detalhada mais à frente.

Obs.: Não tem nada a ver com monogamia, que é uma forma de relacionamento.

As orientações multi

Existem muitas orientações sexuais e atrações (qualquer tipo, pra não esquecer o espectro ace no churrasco) que incluem mais de um gênero. É, internauta, surpreendentemente não existe só ser bi ou pan — mesmo que seja o nosso foco aqui, além do significado da mono dissidência que vem com isso… São muitas formas de se entender mesmo! Tem mais do que as que eu já ouvi falar na minha vida inteira, como a polissexualidade, ou que já li na internet; todas elas se encaixam no termo “multi” e merecem respeito.

Obs.: Ah, ter interesse em trocar experiências com mais de um gênero não significa, necessariamente, que você vai querer estar ao mesmo tempo com geral; espero que cês já tenham desconstruído saporra aê. Se não, cá embaixo tem tópicos especialmente pra isso.

Bissexualidade

Bi é, geralmente, o termo guarda-chuva (o nome que as pessoas querem usar pra tudo) pra todas as orientações multi, o que gera apagamento. Por isso que fica esse TANTO de gente sem saber a diferença entre bissexualidade e pansexualidade, por exemplo.

Como surgiu o movimento bissexual?

Historicamente, o pessoal bi começou a comunidade sem nem saber o que era ou se considerar alguma coisa (o auge era o termo queer pra se definir como não-hetero, que ainda é usado), mas contra o estilo de vida heterossexista da sociedade. Resumindo, todo mundo que não era hetero nem homo se reunia e uma hora, na década de 60, estourou o movimento bissexual com a ideia de atração por homem e mulher. O movimento era, até então, limitado ao binarismo de gênero — que conseguia ser ainda mais forte na época. A transfobia foi muito presente até o começo de discussões não-binaristas. Foi aí que começou uma luta diferente dentro do próprio movimento bi, que tinha como objetivo incluir outros gêneros.

O que é ser bissexual, então?

Foi depois da inclusão de outros gêneros no nosso movimento que dizer “sou bissexual” deixou de significar “me atraio sexualmente por homem e mulher” e passou a significar “me atraio sexualmente por dois ou mais gêneros”. Porque foi ali também que mais de dois gêneros começaram a ser reconhecidos e a transfobia “acabou” no entendimento da bissexualidade, marco importante e largado de mão ATÉ HOJE pelos desavisados.

Mas ser bissexual, internauta, não significa se atrair na mesma porcentagem ou do mesmo jeito por cada gênero, longe disso! E você não se torna menos bi ou válido por algum desnivelamento, ou se só teve experiências com um gênero, ou se teve mais com um do que com o outro, ou se não teve foi nada. Todos tem razões pra se enxergarem como x coisa. Muita gente se vê melhor no termo bi porque enxerga, sim, preferência em se atrair por homem ou mulher. E adivinha? Nada de errado nisso. Tá tudo certinho… Errado é essa ideia de porcentagens iguais passando pelo movimento LGBT+ e o pessoal apagando o B da sigla, que fez e faz parte da militância como o L ou o G.

Inclusive, relembro que quem faz parte do T pode, também, ser bissexual sem nenhum problema.

Pansexualidade

Pan quer dizer “tudo” ou “todos”. A pansexualidade foi a orientação criada pra explicitamente incluir pessoas de todos os gêneros. Por isso, hoje em dia, ela tem o mesmo significado da bissexualidade.

O que as difere, entretanto, é a origem e a auto definição.

E o movimento pansexual, de onde veio?

A ruptura no movimento bissexual, nas décadas de 80/90 e principalmente nos anos 2000, deu força ao surgimento da identidade pansexual paralelamente à luta dos bissexuais na derrubada da transfobia dentro do movimento bi. Era como um movimento bissexual não-cissexista.

O que é ser pansexual, então?

Ser pansexual sempre significou ser passível de atração por todos os gêneros, já que o movimento foi criado como uma “resposta” à transfobia dos bissexuais cisgênero. E, do mesmo jeito da bissexualidade, isso não define uma porcentagem igual de atração e também não quer dizer que todos os trans não-binários precisam se classificar como pan, ao invés de bi.

Hoje em dia, muita gente confunde pansexualidade com umas coisas totalmente desconexas e nojentas, como zoofilia, por causa do efeito da mono dissidência e da ideia de que a pessoa sujeita a atração por mais de um gênero nunca se verá “completa” com apenas um, ou com apenas uma pessoa. Até hoje, vários preconceitos são agregados à invalidação de alguém numa orientação multi.

Entendeu a diferença?

A diferença entre as identidades pan e bi deixaram de ser contrastantes e sobre inclusão da transgeneridade há muito tempo. Existem pessoas que se encaixam em ambas, e também não há problema, pela similaridade entre elas e pela pluralidade de atrações dentro de uma orientação que já foi comentada. Apesar de terem o mesmo significado, não é válido dizer que só a bissexualidade existe por servir como termo guarda-chuva pra todas as outras identidades multi. Ser pan é válido desde o momento em que o indivíduo se identifica com essa denominação, com um marco histórico também importante. E ser bi não significa mais ser cissexista, como muitos gostam de pensar.

E é isto, então, internauta ❤