“20 Years of Product Management in 25 Minutes” por David Wascha @ Mind the Product San Francisco 2017

As 12 lições óbvias (ou nem tão óbvias) de um Gerente de Produtos

Publicado originalmente em Linkedin em 15 de agosto de 2017

Na última sexta-feira, Martin Eriksson publicou no blog do Mind the Product a palestra feita pelo David Wascha, Chief Product Officer da PhotoBox, um Gerente de Produtos com mais de 20 anos de experiência. A talk aconteceu de maneira bem descontraída no Mind the Product Conference @ San Francisco, onde o PM (Product Manager) do Internet Explorer versão 4.0 compartilhou algumas dicas-chave que ele daria a si próprio 20 anos atrás.

Se você entende inglês razoavelmente, vai para o vídeo da palestra e dá o play lá: são 30 minutos de vídeo onde você vai ver alguns exemplos práticos do que resumirei aqui embaixo. Depois volta aqui que coloquei alguns aprendizados que tive da palestra.

1. Ouça sempre o seu cliente

Na palestra, David usa o termo customers, que traduzi aqui como clientes, mas considere isso como uma categoria que inclui os clientes (que realmente pagam) e os usuários do produto.

Aprendi no primeiro momento do curso de certificação CSPO (Certified Scrum Product Owner) que a missão do Product Owner é “encantar o cliente”. Como o papel do PO no time Scrum tem correlação com o papel do Product Manager dentro da organização, a missão do PM é também encantar o cliente. A única forma de fazer isso é entendendo o seu mundo, suas dores e suas expectativas.

O PM é especialista em resolver problemas, e, para identificá-los (sem interferir), é preciso estar em contato com o seu cliente constantemente. David destacou que em suas conversas por aí, o PM se envolve com muitas outras atividades e esquece o mais importante: ouvir os clientes.

“Quando você não entende completamente o problema dos seus clientes, você cria soluções para problemas que eles não tem.”

2. Não escute tudo o que o seu cliente diz

Ao mesmo tempo que a coisa mais importante é ouvir e compreender os problemas dos clientes, a segunda coisa mais importante é não ouvir os clientes sobre as soluções para seus problemas.

David reforça que, se nós considerarmos todas as soluções que os clientes dão, então eles definitivamente não precisam de você. Na verdade, se eles te procuram, eles esperam que você possa dar soluções melhores. Então: quando falar com um cliente, foque em seus problemas reais para conseguir entregar uma solução que funcione.

“Criar soluções para o problema dos clientes é o trabalho do Gerente de Produtos, e não dos clientes.”

3. Esteja atento ao mercado

O mercado é o verdadeiro spoiler do que realmente funciona para os clientes. Os concorrentes (diretos e indiretos) estão dando dicas o tempo todo do que está acontecendo e do que vai acontecer com o mercado. Saiba entender esses movimentos para ser mais assertivo. Podemos aprender muito com a forma com que os clientes se sentem com as soluções já existentes.

4. Não se preocupe tanto com o mercado

Se você perde muito tempo olhando para a concorrência, tendências, novas tecnologias ou novas features, você estará gastando menos tempo com o que realmente importa: os problemas dos clientes. Além disso, é extremamente importante que você tenha discernimento para julgar se as soluções concorrentes realmente resolvem os problemas, ou se existem formas melhores de resolvê-los.

5. Seja um “ladrão”

Seu papel como PM não é dar as melhores ideias. Acho que até já falei que seu papel como PM é resolver os problemas dos clientes. E se alguém tiver uma ideia melhor que a sua, não tenha receio de “roubar essa ideia”.

Vale a pena dar uma folheada no livro Roube como um artista na Amazon: “Verdadeiro manifesto ilustrado de como ser criativo na era digital, Roube como um artista, do designer e escritor Austin Kleon, ganhou a lista dos mais vendidos do The New York Times e figurou no ranking de 2012 da rede Amazon ao mostrar — com bom humor, ousadia e simplicidade — que não é preciso ser um gênio para ser criativo, basta ser autêntico (…)”.

6. Busque a monetização

Essa dica já é muito conhecida pra quem lê sobre empreendedorismo pós-bolha de 2000. A melhor forma de validar a solução para um problema é fazer com que o cliente pague por ela. Muitos PMs adicionam features e mais features, e muitas vezes esquecem de se perguntar: será que os clientes vão realmente pagar para ter acesso a essa solução?

O exemplo que ele traz da antiga tabela de preços do Evernote é muito interessante para entender como é tão fácil se desligar do real problema do cliente que estamos resolvendo para focar nos nossos problemas enquanto criadoras da solução.

7. Não se preocupe sempre com monetização

Nem sempre a melhor métrica para uma feature é financeira. Em muitos casos é difícil conseguir um ROI interessante apenas com uma pequena alteração de funcionalidade. Além de requisitos funcionais, o PM deve estar preocupado em criar relações de confiança com os seus clientes, através das suas necessidades emocionais, focando na experiência daquele produto.

Eu adoro essa apresentação sobre os elementos de um Minimum Loveable Product (Produto Mínimo Amável) que fala sobre como criar essa relação de confiança e amor do seu cliente pelo seu produto. Lembre-se lá da missão do Product Owner: encantar o cliente.

8. Tome decisões com mais velocidade

David repete algumas vezes: sempre que você atrasa uma decisão, você está destruindo mais um pouco o seu valor. Sempre surgirão motivos para atrasar uma tomada de decisão, mas você deve estar atento ao custo de atrasar os resultados daquela decisão (Cost of Delay).

Não espere por “cerimônias” para tomada de decisão, elas devem ser tomadas a todo momento.

“Quanto mais demora para uma feature ser entregue, menor será o seu valor.”

9. Diga NÃO

Para tomar as decisões mais rapidamente é preciso estar focado, e “focar é abdicar, abdicar é perder” (como diria Murilo Gun). Seu papel não é deixar todo mundo feliz, é resolver o problema do cliente da melhor forma possível. Portanto, apenas mantenha em seu backlog itens que realmente tem valor para o cliente, não para o time de vendas atender a um cliente específico, ou para massagear o ego do CEO da empresa.

10. Pare de dizer NÃO

Mas David faz um alerta: não diga NÃO para proteger o time. Seu papel não é proteger o time, é proteger o cliente. Sempre que disser NÃO, tenha um motivo na ponta da língua.

11. Não seja um “visionário”

A menos que você seja um PM de uma empresa de Elon Musk, você não precisa ser um visionário. Um PM deve ser obcecado por entender o problema do cliente e resolvê-lo. Já temos muitos problemas não solucionados hoje (oportunidades), para focar em problemas que ainda não existem (visionários).

12. Você não é o cliente do seu produto

Muitas vezes enfrentamos problemas que já passamos anteriormente, ou pior, nós como PMs fazemos parte do público-alvo do produto. Isso é perigoso, porque você pode deixar passar várias emoções e situações desconhecidas por você.

É a famosa “zona de conforto” do PM, onde ele se esquiva da tarefa de precisar ouvir o cliente, já que ele considera que tem as respostas para as perguntas que ele precisaria fazer.

“Um PM que acha que conhece e entende completamente seus clientes é como um ginecologista homem.”

11. Seja ignorante quando necessário

Quando você se coloca em uma posição de quem não tem todas as respostas, você aumenta consideravelmente as chances de realmente obtê-las. Abrindo mão de pré-conceitos, você conseguirá de fato se desvencilhar de padrões de mercado e construir soluções cada vez melhores. O PM deve sempre trazer a perspectiva do cliente para dentro da organização.

Se você tiver algo a acrescentar ou discorda de algumas dessas dicas do David Wascha, eu gostaria também que você deixasse um comentário nesse post.

Em tempo: eu me inscrevi na newsletter do Mind the Product, 1x por semana eles compartilham aproximadamente 10 links sobre gestão de produtos. Recomendo demais!

Eduardo Pires

Gerente de Produto @ Roadmapp