Gygax Day, e minha relação com D&D

Hoje é o Gary Gygax Day, um dia dedicado à homenagem do criador de Dungeons & Dragons.

Eu honestamente não sou particularmente fã do trabalho do cara, mas é difícil imaginar como teria sido o hobby sem a primeira versão de Dungeons & Dragons. Não sou fã porque quando eu entrei pelo hobby já peguei uma evolução do trabalho dele. Essa minha relação com ele acho que é muito parecida com minha relação com Beatles… não curto as músicas deles mas é inegável sua influência em várias das bandas que eu curto, e toda outra banda tocando Beatles sempre me toca de alguma forma.

Mas é interessante investigar a trajetória e as falas do Gygax ao longo de sua carreira. Principalmente para quem estuda e desenvolve mecânicas para o jogo, entender as motivações do “pai de todos” pode dar um insight único sobre as mecânicas destes jogos, e separar um pouco nosso estudo de game design da ladainha purista do “jogo perfeito”. Mais do que isso, comparar a cena de desenvolvimento do cara nos anos 70 à nossa, tantas décadas depois.

Gygax era um apaixonado por war games, táticas de combate e principalmente números. Começou a escrever jogos por não encontrar em outros no mercado as dinâmicas que queria para suas partidas. Depois de não encontrar uma editora que tratasse seus jogos com o carinho que julgava necessário, resolveu criar com os amigos a TSR, Tactical Studies Rules, que veio a se tornar um gigante do mercado de jogos. Além de produzir jogos, ele focava grande parte de seu tempo na criação de publicações discutindo game design e divulgando o trabalho de companheiros desenvolvedores, e principalmente organizando eventos e encontros de jogadores e produtores. Não é muito similar à história de vários de nós aqui no Brasil?

A história dele é muito massa pra gente entender que o que fazemos não é algo novo, mas provavelmente a única forma possível frente ao caráter “underground” do RPG… e talvez estudar as motivações que levaram o Dungeons & Dragons a tomar o rumo que tomou em busca de um mercado cada vez maior.

Eu separei aqui um link com um trecho do texto escrito por Gary Gygax em 1978 para a revista The Dragon n.26, aonde ele discute o papel de D&D e AD&D enquanto jogos (http://grognardia.blogspot.com.br/2010/02/gygax-on-od-and-ad.html). O texto completo também deixo linkado lá no final. Esse texto é sensacional, pois ele desconstrói completamente o mito criado em torno de si próprio e da própria criação, e apresenta um conteúdo muito bacana pra gente entender a relação do artista com sua obra mais popular, que já àquela altura havia saído completamente de suas mãos e tomava outros rumos nas mãos de seus fãs e, principalmente, os novos executivos da TSR. Em 1985 Gygax sofreria um golpe e seria removido de sua própria companhia, agora sob uma direção completamente diferente já que Don Kaye havia morrido em 75, Arneson deixou a empresa em 76 entrando com processo para manter direitos sobre sua obra e os Blume haviam vendido toda sua participação.

No trecho em questão ele coloca D&D, a primeira versão, como um não-jogo, ou seja, um punhado de regras soltas que poderiam atender aos desígnios de um jogador como uma ferramenta de se criar histórias mas que por si só não possuía características suficientes que o definiam como um jogo. Jogadores de lugares diferentes liam o mesmo texto e tinham compreensões completamente diferentes. Eu até discordo do Gygax no ponto em que ele diz que AD&D resolveu isso, já que até em vários outros sistemas mais ou menos simulacionistas ainda se mantém o fato de grupos diferentes jogarem jogos diferentes, seja pela influência e metodologia do mestre ou as “house rules” do grupo. Mas concordo que definitivamente foi quem definiu o rumo de como os jogos narrativos de aventura seriam jogados dalí em diante.

Hoje, quase 40 anos depois dessa publicação, ainda discutimos tais aspectos e ainda é tão difícil criticar um diamante bruto como D&D, tendo em vista a polêmica levantada há alguns anos atrás quando John Wick resolveu criticar o jogo. O Gygax já levantava essa discussão desde o princípio de sua obra, e essa sim é uma das razões pelas quais acho que o cara merece sua notoriedade.

Eu posso não jogar D&D, ou não gostar de praticamente nenhum livro de sua autoria, mas é inegável minha admiração pelo cara. A minha motivação é muito parecida com a dele… na verdade é a mesma. Mais do que criar o jogo que quero jogar, quero criar a cena em que quero viver, e acima de qualquer coisa fomentar a discussão inclusive sobre o meu próprio trabalho mesmo que outros insistam em “proteger” seus jogos favoritos sobre um escudo covarde de “intocável”.

Link para a revista The Dragon n.26 COMPLETA online (O trecho em questão está na página 30): http://annarchive.com/files/Drmg026.pdf