Minha relação com a arte

Nesta sexta-feira dia 06/01/2017 rolou mais um episódio do Roda da Aventura, uma mesa redonda em vídeo sobre RPG realizada pelo blog RPG Notícias, com o tema “RPG é arte?”. Para esta edição estavam o Kazz, Luiz Falcão, a Cecilia Reis, o Eduardo Caetano (meio que cobrindo para a Nina e a Amedyr que não conseguiram participar), e Encho Chagas, este que aqui vos escreve. Desde antes de começar todos sabíamos que seria um papo cabeçudo, mas eu não sei se esperava ter tido a reação que tive durante minha participação lá. E é em vista desse incômodo que decidi escrever mais sobre o que discutimos.

Se você não assistiu, talvez seja interessante só para contextualizar um pouco minhas motivações. De qualquer forma eu vou falar mais sobre mim e não sobre a discussão, então não se importe em continuar lendo sem as quase duas horas de vídeo entre suas memórias.

Eu, o estudante de arte

Em 2010 eu estava indo já para a minha 5ª tentativa de iniciar um curso superior. Decidi tentar o curso de Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Estadual de MG, interessado em entender mais sobre os conhecimentos das artes mas não exatamente me tornar um artista. Tinha vários amigos que trabalhavam com arte e cursavam Belas Artes (UFMG) ou atendiam à Escola Guignard (UEMG) e todos sem exceção tinham uma crítica constante ao ensino acadêmico de arte: aqui não se criam artistas, apenas críticos. Me fazia sentido à época, afinal quantos grandes artistas não haviam feito faculdade, certo? Fui juvenil e inocente adentrar às minhas primeiras aulas.

O curso de licenciatura na verdade era bastante interessante para mim por sua base pedagógica, e essas certamente eram as aulas que mais me interessavam. Eu era até bastante empenhado nas tarefas mais artísticas, fiz uns projetos em grupo do qual me orgulho muito (principalmente uma certa instalação sobre arte grega tentando explorar os cinco sentidos), mas tinha um rolê social acontecendo em paralelo às aulas que sempre me incomodou. Vou explicar com um exemplo. Era uma quarta-feira e eu estava na agência de publicidade onde trabalhava, estressado e bolado como sempre, preocupado com um exame bastante teórico (não me recordo qual a matéria, mas lembro que eu estava estudando muito para, coisa que eu nunca fiz na vida) que aconteceria no dia. Daí cai um e-mail no grupo Yahoo da sala: “Hoje vai rolar um balé contemporâneo experimental no espaço X. Vamo tentar convencer a professora a adiar o exame?”. Nem entrei na discussão pois pra mim era óbvio: Não existia a chance de adiar a prova pois era fim de semestre, ela já havia sido adiada uma vez, e era uma das matérias mais cabeçudas. A professora ia dar aquela cortada bonita na galera. Resposta: “Nossa! Ela super topou e deve ir junto com a gente!”…

Várias experiências como essa me despertaram um pensamento que hoje faz ainda mais sentido: existe uma área cinza muito delicada entre quem faz algo por um propósito pessoal, quem trabalha com algo, quem estuda esse mesmo algo, e quem tá alí pra fazer parte do rolê. Não é uma exclusividade da arte, mas é muito mais evidente com a arte. Eu falei um pouco sobre essa temática colocando no ambiente dos jogos, dividido em dois vídeos.

Eu, o artista

Mesmo antes da minha passagem pela UEMG eu já havia desistido do sistema acadêmico de adquirir conhecimento. Eu nunca me dei bem com escola alguma por que passei em minha vida, de criança a adulto. Na faculdade de Publicidade eu conversava muito com os professores fora do horário de aulas, alguns tenho contato até hoje e trocamos figurinhas sobre o mercado, sobre a própria filosofia do nosso trampo, etc… e a quantidade de conteúdo que adquiria dessa forma era imensamente superior à que recebia dentro de uma sala de aula. Quando adentrei em 2007 no mercado de jogos comecei a procurar quem trabalhava com isso na minha cidade pra continuar aumentando esse networking, e foi num desses e-mails aleatórios a pessoas do mercado que descolei meu trabalho na O2 Games onde fiz muitos dos meus amigos até hoje, extremamente atuantes na cena indie de desenvolvimento.

Porém a minha razão de produzir jogos eu encontrei mesmo em 2010, uma ligação muito forte com o conteúdo que recebi dentro de sala de aula na Licenciatura em Artes, e a tal instalação multi-sensorial… como transmitir a um estranho uma experiência que eu desenvolvi? Essa é uma discussão de pouco interesse ao mercado de jogos, mas essencial no estudo das artes. Foi no estudo da história da arte que eu passei a curtir o trabalho de alguns artistas de vanguarda do início do século XX, em especial os expressionistas, que antes eu achava só uns borrões bizarros de tinta. Foi ao perceber as peças artísticas como diferentes tentativas de transmitir uma intenção, em oposto a representações de coisas observáveis, que fui entendendo essa conexão e finalmente começando a apreciar uma gama maior de obras. Algumas correntes, colocando como exemplo a Latrina do Duchamp, eu nunca consegui compreender o “valor artístico” estético (seja lá o que seja isso) mas consigo entender a crítica implícita na obra. Existe uma intenção, uma mensagem, e isso conecta com a minha razão de ser.

Daí nascem alguns comentários meus que são frequentemente mal-interpretados. À mim não vem nenhuma razão para criar jogos que o mercado demanda, mas sim os jogos que transmitem as mensagens que quero dizer. Não há de minha parte um genuíno interesse em agradar jogadores, mas sim propor a eles experiências que eles talvez não tenham de outra forma. E nos jogos eu tenho uma mídia muito mais eficiente de fazer isso do que um livro, uma pintura, um violino, onde talvez eu não precise ser gênio como eram esses caras para gerar uma catarse minimamente significante para a pessoa. Isso também não tem a ver com a quantidade ou qualidade de diversão que meu jogo tem o potencial de gerar, o que pra mim mata aquela afirmação clichê de que “pra ser um jogo bom tem que ser divertido”. Aliás o que diabos é isso de jogo bom? Arte boa? Boa pra quem?

No final das contas não faz absolutamente nenhuma diferença tanto para mim como para o meu público se o que eu faço é arte ou não, porém eu consigo encontrar respostas para várias das minhas dúvidas quando comparo a minha jornada profissional com a jornada do artista. Outras tantas não encontro em lugar nenhum. Uma das questões mais recentes foi um suposto bloqueio criativo que tive nos últimos meses. Conforme fui tornando isso mais público, começaram a chegar as “receitas” da galera para solucionar o problema. Os artistas sugeriam descanso, esquecer um pouco o “trabalho”, atividades físicas. A galera corporativa me sugeriu “fazer sem pensar” (seja lá o que é isso), trabalhar em lugares públicos, trabalhar enquanto conversa e discute com uma galera, pra ajudar nessa soltura. No desespero, tentei de tudo. No final o que parece estar ajudando? Meditação. Não só ficar na posiçãozinha e fazendo ooohhmmmm não. Uma constante observação e análise sobre como meus pensamentos se organizam, o que parecia estar realmente bloqueado e o que precisava de vazão. Daí começaram alguns desabafos públicos, descobri esse interesse em fazer vídeos sobre game design que se opõem a muito do ensino clássico, e à duras penas encontrei uma motivação nova para trabalhar em antigos projetos meus.

Eu, o designer

Uma das falas mais clássicas na faculdade de design é a divisão claríssima que é estabelecida entre design e arte. Design precisa ter função. A própria palavra vem da mesma origem etimológica, ‘desígnio’. Eu nunca consegui entender isso, e já passei boas horas batendo boca com professor a respeito além de várias mesas de boteco. Nunca consegui ver o trabalho do designer como não-arte, e isso ficava ainda mais confuso quando comparava à arquitetura. Pô, as minhas discussões com arquitetos sempre foram extremamente mais alinhadas do que minhas discussões com artistas, mas ainda assim não há discussão (pelo menos não fora da faculdade de arquitetura) de que se trata da 5ª arte quando se intensificou a discussão sobre a autenticidade artística do cinema. Note, na numeração ela ainda vem antes da literatura, que é a 6ª.

Por quê a representação do seu ambiente não é uma função? Pode não ter função para quem observa a obra depois (além de decoração), mas ao artista sim. E a representação de um sentimento obscuro? Quer função mais razoável que essa, aliviar uma questão pessoal através de forma pessoal e abstrata já que palavras não encontram expressão suficiente? E por quê não sentar no Davi de Michelangelo?

Toda vez que uma discussão entra no “isso é isso, aquilo é aquilo” me parece que sempre os fatores históricos e sociais são mais revelantes que a praticidade da definição e linguagem. Há uma crítica antiga e duríssima com relação à massificação e comercialização da arte. Quando vem uma galera que pensa diferente, nasce o conflito… e a forma mais razoável é de fato cada um ficar no seu canto. Me parece que é mais fácil pro artista vender seu trabalho se ele não chamar ela de arte. É design, design pode. E, claro, o designer pode criar uma infinidade de conteúdo intitulado “design” adaptando o que já temos de conteúdo de arte. De certa forma isso é uma experiência aparentemente libertadora. O designer passa a poder discutir a eficiência de suas técnicas, principalmente para fins comerciais, sem os escrutínios dos críticos de arte. Nasce uma nova comunidade, com seus novos críticos e discussões, porém NADA é mais chato que um crítico de arte.

Eu, … quem?

Se você me perguntar assim direto: “Encho, você se considera um artista?”. Sim, me considero. Provavelmente minha percepção não vai bater em diversos pontos com o constante estudo acadêmico de arte. Mas minha forma empírica de adquirir conhecimento e entender o mundo à minha volta na verdade é bem simples. Tem dente pontudo? Só sai à noite? Foge da cruz? Pra mim é um vampiro. Eu puxei várias características minhas e uma das poucas galeras cuja definição bate realmente são a dos artistas. Mas se quem estuda arte não considera o que eu faço arte ou que minhas definições são equivocadas… bom, depois de dizer que não tô preocupado nem com a diversão de quem joga minhas criações não sei nem se é necessário dizer o que penso sobre constatarem que o que eu faço é arte ou não.

Minha maior preocupação, e essa uma questão que eu não vejo nas discussões de arte, é sobre a acessibilidade do trabalho. Isso é muito mais profundo do que apenas acesso físico à obra. Voltando à Latrina do Duchamp… não é todo mundo que entende. Nem tem porquê ou como entender. A obra só faz sentido dentro daquele espaço, dentro de um contexto, e a uma galera específica. Honestamente pouco importa a mim se é arte ou não, mas para o meu trabalho esse é um exemplo do que NÃO fazer. Eu curto discutir um monte sobre arte moderna, mas porque entendo um pouquinho e não fico tão perdido no assunto. Segregação por assunto é algo inevitável? Certo que sim. É elitismo? Com certeza. Precisa ser? Não, não precisa. Eu estou aprendendo ciência de foguetes através de um joguinho de computador. Real rocket science. Por quê algo tão mais simples e fundamentalmente atrelado à comunicação e expressão, precisa ser tão rebuscado? Tão difícil? Em um nível estou me referindo à leitura dos meus jogos, mas eu me empenho também no acesso às ferramentas e técnicas que utilizo para fazê-los. Não foi justamente com outros desenvolvedores que adquiri mais conhecimento? Pois trabalho para que esse número de pessoas cresça e assumo, eu, a responsabilidade por simplificar a linguagem. Não pressuponho que assunto algum seja complicado demais. Apenas que minha técnica de comunicação ainda não é suficientemente eficiente.

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