Star Wars Episódio 7 e por que o hype não me pegou — Parte 2, Fanboys

Esse post é parte de uma série, que começou em: Star Wars Episódio 7 e por que o hype não me pegou — Parte 1, o Universo Expandido. Foi massa acompanhar e discutir no facebook com quem foi lendo o meu texto pois vi que alcancei meu objetivo. Isso é um rant, um desabafo meu, de alguém que está insatisfeito com algo e bizarramente a internet e o hype coletivo bate de volta com uma força bem grande. De repente soa errado estar insatisfeito com algo que fez parte da sua vida por tanto tempo. Vamos falar sobre isso.

Sabe como comecei a acompanhar Star Wars? Eu tinha visto bem novo na Globo algum dia à tarde e um dia me levaram para ver o Retorno de Jedi remasterizado no cinema. É na verdade provavelmente a primeira vez que fui no cinema, minhas primeiras memórias se confundem se foi essa vez ou A Pequena Sereia, mas é certo que eu tinha menos de dez anos de idade. Daí ganhei a trilogia original em VHS, e nasceu o pequeno vício… Bonequinhos, posters, revistinhas, jogos, e a cada novo personagem eu ia atrás de tudo que podia encontrar sobre aquilo. O tal Universo Expandido se tornou mais interessante pra mim do que os filmes originais, e eu muito novo nem entendia por que os filmes eram mesmo as obras que eram. Então maior parte da minha infância e adolescência se passou lendo e vivendo esse mundo incrível incansavelmente construído pelos próprios fãs, algo muito maior que George Lucas e o que ele havia pensado pra sua história… e isso se confirmou quando finalmente lançaram a nova trilogia.

Se você não conhece Fanboys, filme sensacional de 2009, ele define muito bem o que eu vivi quando finalmente anunciaram o Episódio 1 — A Ameaça Fantasma. As guerras com fãs de Star Trek, o acúmulo absurdo de lore paralelo, o convívio em comunidades, a participação em grupos de discussão. Pra quem se tornou um fanboy de Star Wars nos anos 90, a notícia de um novo filme foi absurda. Eu não vivenciei aquela loucura dos cinemas nos anos 70, e estaria lá para viver isso no novo lançamento. Gente fantasiada, dormindo na porta do cinema. Compre meu ingresso MESES antes, e cheguei de manhã para um filme à noite no cinema. E aí… a frase final do Fanboys define: “E se o filme for ruim?

Já vimos isso mais de uma vez…

Quando eu vi Ameaça Fantasma meu hype foi tão grande que eu demorei pra sacar o nível de absurdo do quão ruim era o filme. Fiquei embriagado na verdade até pouco depois do Ataque dos Clones, que foi quando percebi que realmente o George Lucas estava doido. Desde então eu simplesmente fiquei razoavelmente imune a hype de Star Wars, ou seria traumatizado?

Ameaça Fantasma não veio às telas à toa. Quantos filmes dos anos 70/80 receberam sequências, prequels, remakes, reboots, spin-offs, etc? É uma prática do mercado: depender da SUA nostalgia para fazer dinheiro. Não importa muito se o filme é bom, você vai se dirigir ao cinema tentando repetir a experiência que teve um dia ou, pior ainda no caso de algo tão grande como Star Wars, a esperança de ter um novo divisor de águas como foi a obra original. O hype faz parte, mas ele não é racional. Ele é completamente emocional e individual… e pra esses caras isso é grana. Muita grana. Um filme ruim de Star Wars certamente dá mais grana que um filme excelente original. É mais garantido e não tem a ver com sua qualidade. Ameaça Fantasma lotou cinemas no mundo inteiro, e hoje é conhecido como um dos maiores abortos da história do cinema. Eu nem vou ficar falando muito mal desse filme aqui porque passei 15 anos fazendo isso, até fazer minha própria versão em Flash no colégio satirizando essa merda. mas vou falar ainda um pouquinho.

George Lucas fora… Menos mal

Melhor filme de Star Wars até hoje? Acho que indiscutivelmente o Império Contra Ataca. E quem dirigiu? Irvin Kershner. As versões remasterizadas dos filmes mostram como o dedo do George Lucas nunca foi bom, mas o cara continuou mexendo nos filmes o tempo todo! Tem muitas listas de absurdos que o cara mudou mas nada me afeta mais que o Hayden Christensen no final de Retorno de Jedi, no lugar do Darth Vader clássico. Putz. Como eu nunca parei de conferir novidades de Star Wars, acho que o George Lucas realmente foi desmanchando minha nostalgia com relação aos filmes clássicos.

Ainda vou falar do JJ Abrams, mas vai ser no próximo post, todinho dedicado a ele. Por hora vamos elaborar mais o fim da minha nostalgia e por que não me arrepia nem um pouco uma aparição do Han Solo no fim do trailer.

Fãs X Elenco Original

Okay, hoje temos Comic Con, temos internet, temos Twitter, mas imagina como foi para estes caras nos anos 70 lidar com a primeira horda de nerds insanos que realmente têm uma admiração quase bíblica por estes seres humanos.

Sir Alec Guinness, Obiwan Kenobi, oficialmente sempre odiou ter feito o filme. Carrie Fisher tem uma boa relação com os fãs, mas sempre odiou o bikini metálico que marcou sua personagem para sempre, como descreveu em sua biografia, Wishful Drinking, onde ela inclusive fala da complicada relação que tinha com George Lucas. Mark Hamill sempre foi uma figurinha carimbada do mundo nerd, indo a eventos até antes do filme realmente sair. Mas nem sempre somente pelo seu papel de Luke Skywalker. Ele é o dono de uma das melhores vozes que o Coringa já teve(é, o inimigo do Batman), que está em uma pancada de animações e jogos, inclusive os mais recentes. Mas Star Wars? “Meu trabalho está pronto, e o George Lucas me garantiu que eu nunca mais precisaria fazer isso de novo”, ele disse numa entrevista quando anunciaram os novos filmes. Ele realmente já estava de saco cheio de ter que pelo menos a cada 10 anos ter que responder as mesmas perguntas de sempre, e quando chamaram ele para esse filme ele jurava que teria algo a ver com um versão em 3D ou algo assim, e pra ele já era demais… ainda assim aparentemente a Disney tinha uma cartada final que acabou convencendo o cara. Hoje ele já desmente muita coisa, pressão contratual provavelmente, mas é fácil achar notícias dos últimos anos com ele afirmando que se sentia forçado em fazer parte do novo projeto, que não tinha escolha mesmo não sendo seu objetivo a essa altura da vida. Essa entrevista dele é a mais clássica, e que mais demonstra o quanto ele já vinha de saco cheio de ter que trabalhar com Star Wars novamente: só clicar.

http://www.businessinsider.com/star-wars-episode-vii-mark-hamill-felt-forced-into-returning-2015-4

Até agora eu não estou exatamente fazendo um rant, né? Só evidenciando algo que sempre soube e me incomodava profundamente sempre que ouvia alguém falando sobre “remakes” de SW. “Cara, esquece! Eles não querem, e já é cheio de boas histórias dos personagens deles!” Isso provavelmente sempre foi uma informação fixa que os fãs sempre tiveram, tipo todo ano se sentir responsável em explicar que o Delorean chega no futuro em Outubro de 2015 e aquela imagem era fake de novo. Nerds fanboys são os adevogados da ficção, e os demais são civis. É como funciona. Os atores de Star Wars raramente apareceram em JediCons, StarWars Celebration days, e isso inclusive sempre foi um argumento forte dos fãs de StarTrek. “Nossos ídolos nos respeitam, os seus não! Nhênhênhê! Mimimi.” Mas ninguém sempre deixou mais claro o quanto NÃO queria fazer isso quanto o astro, o ídolo, o mito… Harrison Ford.

Harrison Ford. Um capítulo só pra ele.

Tá, agora sim começa meu rant porque maior parte dos suspiros e arrepios sempre vêm por conta desse cara em tudo o que ele faz… e tudo o que ele faz há ANOS é cocô. Na verdade me pergunto se ele já foi um bom ator um dia e apenas foi extremamente sortudo. Ainda assim não consigo imaginar outro rosto para Indiana Jones.

Ele já tinha 35 anos quando pegou o papel no Star Wars, e era um desses atores coadjuvantes em séries de TV. A lenda diz que ele tava tentando, de novo, conversar chegar até o Copolla pra tentar convencê-lo a contratá-lo já que não passava em nenhuma entrevista, quando um agente da Fox perguntou se ele não animava ao invés disso fazer uma ficção científica e caiu no Star Wars. Foi a escada perfeita que ele precisava para finalmente chegar no papel que queria, que conseguiu em Apocalipse Now, mas o fantasma do Han Solo o perseguiu pra sempre. Cara, as caras que ele faz nas entrevistas da época sobre Star Wars, e como ele sempre reage quando perguntam se ele é fã de Buck Rodgers ou algo scifi e ele… “nah, não gosto, mas gosto de Star Wars, claro”. Claro. Eu talvez acredite no interesse dele por Indiana Jones, que ele realmente parece mais empolgado quando fala sobre, mas Indy foi personagem que começou a série infinita de acidentes no set de filmagens do Ford. Durante o restante da carreira possivelmente ele se acidentou em todos os filmes em que atuou, e isso sim é algo do que ele fala com muito orgulho. Sabe quando a gente fala que o ator só tem um papel? Harrison Ford. Mas ele nem faz a ele próprio, porque acho que ele mesmo se personificou para sempre no Indy.

Ele sempre fugiu de fãs de Star Wars, se esquiva de perguntas sobre os filmes, quando falava fazia questão de fazer alguma piada sobre nerds, stalkers, etc. Mesmo com tantos filmes cultuados no currículo, possivelmente todos os dias de sua vida por 40 anos ele ainda deve ser perguntado sobre Star Wars. Ele NUNCA havia pisado em um evento nerd seja Star Wars, Comic Con, ou qualquer coisa relacionada, e os fãs mais puristas sempre o trataram como persona non grata… até que um dia, por obrigação contratual, claro, ele vai à Comic Con 2013 por conta de Ender’s Game (um filme MUITO merda). Por favor, acompanhem comigo a vontade que esse cara tem de responder perguntas sobre Star Wars, algo inevitável para esse cara em qualquer lugar que vá:

Na real eu acho essa reação genial, e genuína. Eu sinto a dor dele. Olha a expressão de “puta merda” que ele faz quando escuta os dizeres “Han Solo”, tipo como se a alma dele tivesse saindo do corpo, descrente que ainda terá de responder mais uma pergunta do personagem, 35 anos depois. A aparição dele na Comic Con desse ano pra falar do SW7 é tão constrangedora quanto essa de 2013.

E daí o cara entra para mais um filme. Bom, é o que o Hamill disse… esses caras já não têm muitas escolhas. Uma coisa é recusar um papel qualquer, outra recusar Star Wars. O ódio, a fúria, o lado negro é real. Mas vamos focar no Senhor Ford e ver a carreira recente do cara, tentar entender exatamente o que ele anda fazendo. Alguém viu Ender’s Game? Cowboys vs Aliens? Mercenários 3? Ele conseguiu ser apático até em Mercenários 3!!! Como pode? Eu nem sou tão hater de Indiana 4, apesar de que acredito que o Spielberg mandaria muito bem e fizesse o filme sozinho sem o George Insano Lucas. Mas aí são mais profissionais presos pela pressão dos fãs ao longo dos anos e se cansando ao ponto de topar os convites polpudos dos estúdios. É meio que uma armadilha mesmo.

Os reais protagonistas

Então temos um casting cansado, insatisfeito e… que não são mais o foco da história! Eu imagino como se fosse a reunião de Full House onde todos os membros do casting são as gêmeas Olsen, saca? Nós temos o que aparentemente pode ser uma excelente história independente destes personagens. Um ex-stormtrooper, uma Skywalker de saia, um Sith que num é Sith… PRA QUÊ fritar no casting antigo? Por quê não lançar o filme STAR WARS: FORCE AWAKENS, sem esse lance de Episódio 7, como lançam todas as revistas, jogos, livros? Não é mais a história daqueles personagens! Mas isso é pra vender, claro, pra pegar o cara que não é aquele fã maluco e fazer mais grana. Pra mim isso se torna algo extremamente frívolo, sem coração, e sem sentido. Um universo tão rico, tão grande, criado e mantido por fãs durante DÉCADAS e é sério que querem me convencer que a única forma de um novo filme de Star Wars fazer sucesso é forçando esses atores a retornarem, que hoje nada querem e nada mais têm a ver com seus personagens icônicos?

Ser nerd está na moda, e Star Wars é um símbolo da nerdice. Mas enquanto eu vejo a galera pirando nestes personagens reaparecendo, eu me sinto manipulado. Ou ao menos estão tentando me manipular, me puxando para o cinema não em cima do que é mas em cima do que foi Star Wars, há muito muito tempo atrás numa galáxia muito distante. Mas eu cresci com novas histórias e aventuras e muitos outros personagens. Eu já havia superado estes personagens, estes atores, coisa que grande parte dos fãs menos freaks não experimentaram. Até porque os episódios 1, 2 e 3 ao invés de completarem a Saga na verdade deixaram um final amargo para uma história tão icônica, e na batalha das franquias e dos grandes estúdios, sendo Star Wars o caça-níqueis que é, acabaria recebendo invariavelmente continuações.

Fui criticado no meu último post por odiar prematuramente uma história que nem conheço. Bom, primeiro que não odeio, eu odeio o fato de anunciarem que a história que eu amo não pode mais ser avançada por questões de Trademark da Disney, a empresa que muda a legislação americana para que o Mickey não caia em domínio público, que manipula com maestria seu público e na real caga gigante e fortemente para sua contribuição e construção coletiva. Eu vou ver o filme, mas talvez não na estréia e talvez nem no cinema. Vou conversar com vários “fãs”, uns que vão dizer que é uma merda porque mudou tudo que pra ele é Star Wars, outros que amam e é o melhor filme do ano que ele já viu na vida e duas semanas depois vai estar pedindo desculpa por ter proferido erroneamente que era melhor do que Mad Max Fury Road. Isso eu já posso garantir: nunca serão.

Mas existem ainda mais razões para eu não gostar desse filme, e isso vai ficar para o próximo post aonde vou falar sobre um dos meus mais odiados diretores do cinema moderno e suas tentativas fracassadas de reproduzir clássicos: JJ Abrams. Você pode conferir a parte 3 clicando aqui:

https://medium.com/@enchochagas/star-wars-epis%C3%B3dio-7-e-por-que-o-hype-n%C3%A3o-me-pegou-parte-3-jj-lens-flare-6191e2c922cf#.wotlibhzi