Fobia social

“Respire. Respire fundo. Inspire, segure por dois segundos. Expire. Repita. Repita. Repita. Pense em coisas boas, coisas que te façam feliz: o sorriso dos seus pais quando presenciam seu progresso, os primeiros raios de sol abrindo caminho pelas nuvens negras após uma tempestade, aquela noite em que o ar estava gélido, seus amigos reunidos e o som do seu próprio riso espontâneo te pegou de surpresa…” Existem vários rituais diários recomendados pelas pessoas que vivem no presente e fora de qualquer tipo de prisão mental, as pessoas que querem ajudar todos aqueles que já estão trancafiados. Mas o que fazer quando nada disso funciona? As memórias daqueles momentos bons estão turvas agora. O riso espontâneo chega, mas ele é exasperado e sempre vai embora em um único segundo, o choque da realidade perversa em que sua mente vive te estapeia na cara — você não pertence àquele lugar. Muitas vezes, quando meu coração bate naturalmente e fica confortável no meu peito, minha mente clareia e eu percebo como estou errada ao dizer que não posso deixar meu medo me controlar. Estou errada porque eu nunca tive escolha. Percebo que, se eu preciso repetir para mim mesma que meu medo não me controla, então ele já está no poder há muito tempo. Eu me sinto como se estivesse perdida em algum tipo de limbo, impedida de avançar mas sem opções para retornar e consertar o que deu errado: a minha habilidade de confiar nas pessoas e em mim mesma ou o que quer que tenha quebrado dentro de mim. E nesse limbo, tudo existe. Menos eu. Os prédios continuam altos e as pessoas são reais, cheias de cor e vida como deveriam ser. A única coisa que não está presente nessa realidade sou eu. É uma sensação que contraria o entorpecimento, já que o mesmo é a ausência do sentir. Na verdade, eu me ausentei como pessoa e me tornei o meu medo. Meus sonhos, minhas vontades e minha própria personalidade foram todos engolidos e estão lentamente desaparecendo, dando lugar às minhas inseguranças e ao meu estado de estagnação. A tal zona de conforto que é tão mencionada como a pior prisão emocional que existe, é simplesmente inexistente no meu mundo. Não existe conforto quando até seu reflexo no espelho te amedronta. Não existe paz e alívio quando se está escondido em um lugar mas querendo desesperadamente estar em outro. E é este o verdadeiro conflito: eu não quero ser invisível e inerte perante a vida, eu não quero morar para sempre nesse limbo. Eu quero ser. Ser notada por algo além do fantasma de uma pessoa que já viveu, ser parte do presente e não do passado irrecuperável, ser livre da ameaça de um futuro não aproveitado. Mas os pontos do relógio continuam avançando, minhas tentativas de voar para longe da inércia foram nulas e mesmo após todos esses anos, ainda me sinto grudada ao chão. O medo tomou conta de mim porque a minha luta incessante me esgotou e eu não consigo mais me sentir integrada ao mundo em que nasci. Mas o que mais me dói não é minha constante desconexão com as pessoas ou o fato de que elas me assustam, e sim a lembrança de quem eu era antes de ter me tornado o que sou. Eu ainda quero meu riso de volta. Não aquele que forço e sustento para sentir que pertenço a algum lugar, mas aquele que escapava de mim e eu não percebia. Só que talvez essa espontaneidade nunca volte, talvez eu tenha me separado da menina que fui um dia e hoje nada mais resta além de continuar. Nada mais resta além de observar o mundo evoluir de longe, enquanto eu permaneço aqui, assistindo cada pessoa ao meu redor atingir as metas que eu poderia estar atingindo. E as minhas metas? E os meus sonhos? E o meu futuro? Deixados de lado. Minhas expectativas se resumem em sobreviver ao dia, tentando mais uma vez fingir uma coragem que falta em mim e sobra em todos que julgam, aconselham, recomendam. Meu único escudo é um mantra, aquele ritual diário já conhecido, mas que nunca será o suficiente.

Respire. Respire fundo. Isso vai passar. Inspire, segure por dois segundos. Você consegue. Você consegue. Expire. Tudo vai ficar bem. Tudo vai ficar bem. Tudo vai ficar bem.

Repita.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.