SIRVAM NOSSAS FAÇANHAS DE MODELO A TODA TERRA?

Melhor não.

Pra quem ainda não sabe, mais uma edição do casamento coletivo organizado pela Justiça de Santana do Livramento iria ocorrer no sábado, desta vez, em um CTG que cedeu o espaço. A cerimônia contaria com 30 casais, sendo 28 casais hetero e dois casais homo. Pela pressão da sociedade e do movimento tradicionalista, um dos casais homo não resistiu e desistiu. O outro casal, Solange e Sabriny, seguiu firme, com o amparo da juíza da cidade, do patrão do CTG e das resoluções que permitem, já há um ano, em todo o território nacional, o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

- Mas que audácia dessas gurias!
- Não tenho nada contra, mas CTG não é lugar para essas coisas.
- Esses viado e essas sapatão acabarão com a família tradicional!
Esperneia a sociedade de Livramento, cidade também chamada de “Fronteira da Paz”.

O patrão do CTG e a juíza foram ameaçados. Receberam a mensagem de que iriam “acabar com a cerimônia, nem que para isso tivessem que dar um pau nesse tal de xepa, dar um jeito na juíza e botar fogo no CTG”. E botaram fogo mesmo! Gente que faz isso é da mesma laia dos que mataram o jovem João Donati em Goiás, ontem, e dos tantos casos de homofobia letal que ocorrem neste país (e nestas querências) todos os dias. 206 casos de homofobia só neste ano.

Incêndio atingiu agremiação na madrugada desta quinta. Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Não vou me alongar, mas vou lançar aqui 4 questionamentos:
1. Como curar esta sociedade gaúcha profundamente doente, machista, racista e homofóbica, que, entre tantos sintomas, sequer hesita antes de chamar os outros de macaco, vadia e gaymista? (parênteses: vi muita gente na minha timeline queimando em praça pública a tal guria racista, mas que na semana anterior não tinha constrangimento algum em chamar gremista de gaymista).

2. Até onde eu sei, o gaúcho pilchado era muito, MAS MUITO mal visto e mal falado na sociedade gaúcha em meados do século passado, antes de Paixão Cortes e do movimento tradicionalista. Não seria de uma incoerência brutal o movimento tradicionalista insistir em não evoluir e em não permitir em suas instâncias que gays, essas pessoas tão “mal vistas e mal faladas”, vivenciem a cultura gaudéria e usufruam do espaço tal como fazem os heteros? (parênteses: eu mesmo adorava minha época de invernada quando pequeno, e meu namorado era, anos atrás, professor de dança gaúcha em um CTG. Ser gay não é sinônimo de ser avesso às tradições culturais de sua região, muito pelo contrário).

3. Até quando vão deslegitimar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, que só foi garantido neste país ano passado pela pró-atividade poder judiciário? Vejam bem, eu não falei união civil, eu não falei união estável, eu não falei união de bens e nem falei cerimônia religiosa. Eu falei CA-SA-MEN-TO-CI-VIL. (Alô Marina, alô Dilma, prestem bem atenção, já que a primeira tem bastante dificuldade de entender esses conceitos e essas diferenças, e a segunda entende muito bem, mas é, de todas as pessoas públicas neste país, a que mais colabora com a deslegitimação do casamento igualitário e de tantas outras causas LGBT). O casamento tem como objetivo selar uma união afetiva, marcar com um símbolo muito forte a trajetória de vida de duas pessoas (para elas mesmas, e para o círculo de pessoas que estão à sua volta), e — muito importante — garantir direitos que são de ordem prática e que influem muito no cotidiano e no plano de vida do casal.

4. Quando a bancada NÃO fundamentalista vai finalmente deixar de ser medrosa e conivente e peitar de vez o casamento civil igualitário como pauta no Congresso para que ele finalmente esteja na lei? Vocês ainda são maioria, poxa.

Um casamento entre pessoas do mesmo sexo e, em especial, sua cerimônia, não devem jamais serem tratados como casamento e cerimônia de segunda classe, algo a ser escondido, algo que é melhor estar longe das criancinhas e dos gaudérios de Livramento.

Solange e Sabriny (de azul) concederam entrevista coletiva no Fórum de Livramento. Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Por isso, e também pelo desejo pessoal de que, quando eu casar, não quero passar pelo constrangimento que as pombinhas Solange e Sabriny estão enfrentando agora, peço que todos vocês reflitam:

SERÁ QUE DESSE JEITO A SOCIEDADE GAÚCHA TEM ALGUMA FAÇANHA PRA SERVIR DE MODELO A TODA TERRA?

Lutarei para que um dia, de fato, tenha!

Endrigo Valadão

Publicitário, gay e militante LGBT Socialista. Mais infos sobre mim, clique aqui.

Links sobre o episódio em Santana do Livramento:
CTG que vai sediar casamento gay é incendiado em Santana do Livramento

Solange e Sabriny formam o primeiro casal gay que trocará alianças em CTG

“A ideia é garantir os direitos da minoria”, diz juíza

O polêmico casamento gay em um CTG de Livramento

Padronização nas regras do casamento gay completa um ano

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