LITERATURA & REDES SOCIAIS: BEM-VINDOS À CULTURA DA CONEXÃO

Sobre meu histórico problemático com redes sociais & sobre o quanto elas são mais e mais uma ferramenta importante para a produção literária

N o texto da semana passada, eu refleti um pouco a respeito de literatura e conexão a partir da experiência com a book tour de Guanabara Real. Mais e mais fica claro pra mim que produzir literatura no Brasil — ou em qualquer parte do mundo — é mais sobre conexão humana do que sobre exemplares vendidos. Nesta semana, dois acontecimentos me fizeram parar alguns minutos para refletir sobre a utilização das redes sociais por parte daqueles que trabalham com literatura em nossa país.

Confesso a vocês que eu nunca fui grande fã de computadores e redes sociais, apesar de ter em meu currículo uma formação técnica em Informática e Programação (!), além de em Contabilidade (!!), tudo isso antes de “cometer” — como me falaram na época — Letras (!!!). Quando então fiz minha conta no Facebook, em 2011, foi mais para postar fotos para familiares — eu estava fazendo um estágio na Inglaterra na época e parecia ser o melhor modo de enviar fotos sem entupir a caixa de e-mails deles.

Ilustração de Janusz Kapusta

Apesar do meu preconceito inicial, com o passar do tempo e pela interação com amigos, conhecidos e colegas, fui percebendo que no caso desta rede social o que eu tinha era uma incrível ferramenta de diálogo, interação e contato. E não só isso: uma incrível ferramenta de trabalho. Ainda antes de enveredar pelo sonho antigo de trabalhar com literatura, eu já tinha percebido para organização de eventos acadêmicos, cartazes impressos impactavam 20 pessoas enquanto artes digais poderiam chegar a 2000, senão mais.

Assim, quando a LeYa Brasil promoveu o concurso Fantasy! em 2014 e pediu, além do manuscrito — obviamente — o resumo da trama em um Tweet e uma entrevista via Skype para justamente saber a opinião dos finalistas sobre redes sociais e afins, minha suspeita se confirmou: utilizando a internet eu não só não precisaria sair da minha cidade — no interior do Rio Grande do Sul — para trabalhar com literatura em nível nacional como também teria nas redes sociais um grande auxílio para minha carreira como escritor.

Contos de Brasiliana Steampunk com arte de Poliane Gicele & Conto na Trasgo com arte de Karl Felippe

Desde o lançamento de A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, primeiro volume de Brasiliana Steampunk, o livro vencedor do concurso supracitado em agosto de 2014, eu comecei a utilizar especialmente o Facebook para divulgar as ações relacionadas ao livro e aos projetos transmídia que o sucederiam. E lá se foram quase três anos de trabalho praticamente diário com a ajuda dos muitos artistas que transformaram o elenco da série em cartões postais (Karl Felippe), artes promocionais e mapas (Jessica Lang), cardgame (Bruno Accioly), tarot (Marcus Lorenzet), pastiches de pinturas do século 19 (Diego Cunha) e retratos 3 x 4 inspirados em Preacher (Poliane Gicelle), entre outros colaboradores. Obviamente, nenhuma dessas ações teria um décimo do alcance que teve sem as redes sociais e justamente o que as torna divertidas & interessantes: pessoas!

Nesta semana, dois acontecimentos ilustraram a importância das redes sociais quando se trabalha com literatura no Brasil. Primeiro, atingimos a marca de 5 mil seguidores da página oficinal da série no Facebook. Isso significa um alcance bem positivo, apesar das limitações que hoje qualquer página enfrenta pelos nada simpáticos — porém necessários — algoritmos criados pela empresa de Mark Zuckerberg. Comemoramos muito essa marca com uma postagem de agradecimento a todos que contribuíram para o alcance de Brasiliana Steampunk enquanto série literária e transmídia.

Neste meio tempo — num timing perfeito — estava rolando uma outra postagem, essa feita pelo portal literário Academia Literária DF, que perguntava à LeYa Brasil quando sairia o segundo volume da série. Depois de mais de 200 compartilhamentos e dezenas de comentários e curtidas, a editora respondeu ao pedido dos criadores do Academia, não apenas agradecendo pela interação de todos e pelo carinho dedicado aos heróis de Porto Alegre dos Amantes, como anunciando para 2018 a sua continuação.

5 Mil Seguidores de Brasiliana Steampunk no Facebook & Postagem do Academia Literária DF

A resposta da editora Leya evidencia um respeito e uma consideração bem especial aos seus leitores e leitoras. Mas ela também demonstra uma percepção apurada do mercado, percepção já notada lá em 2014 quando buscou um autor que compreendesse a importância das redes sociais para a divulgação de uma obra literária. E o que significaria isso em números?

Os 230 compartilhamentos da postagem do Academia Literária DF tiveram um alcance de mais de 22 mil pessoas: e isso, sem pagar nada ao Facebook. Ou seja, milhares de pessoas usando uma rede social para discutir livros, histórias e personagens. E por mais que isso seja uma fração do que rola diariamente nessa rede — gostando-se ou não — é um marco importante especialmente em um país que necessita de mais leitores e mais cultura.

Eu insisti no texto da semana passada e insisto hoje na palavra “conexão” porque relações humanas, livros, histórias… são sobre isso: pura e simples conexão. Seja em eventos literários presenciais ou em ações virtuais, o que importa de tudo isso são as conversas, as experiências, o carinho e a possibilidade de conversarmos uns com os outros.

A expressão que dá título ao texto desta semana, “Cultura da Conexão”, foi cunhada por Henry Jenkins, um teórico norte-americano que está interessado nesses fenômenos midiáticos contemporâneos e no seu impacto sobre nossas vidas e nossas profissões. Seus dois livros sobre o assunto — Cultura da Convergência e Cultura da Conexão foram publicados no Brasil pela Editora Aleph e podem ser facilmente encontrados. Neles, Jenkins demonstra de que modo uma cultura tradicional e verticalizada, centrada nas instituições legitimadores está pouco a pouco sendo substituída por uma cultura ampla e mundial, da qual todos nós fazemos parte como produtores e consumidores.

“Cultura da Convergência” e “Cultura da Conexão” (Editora Aleph) - de Henry Jenkins

Finalizo este texto dizendo que eu ainda tenho muito o que aprender e a estudar sobre a utilização dessas redes tanto em nível profissional quanto pessoal. Confesso que já estou adorando o Instagram mas que ainda apanho — e muito — para compreender e utilizar o Twitter. O que me lembra de que preciso tuitar agora uma mensagem sobre o que estou sentindo: “Apesar da escrita ser uma atividade solitária, é incrível como se está conectado a tantas pessoas diferentes quando se cria uma história!”

Sim, em menos de 140 caracteres!