Análise Crítica

Analisar o tema da interdependência energética entre a Rússia e a União Europeia a partir de um viés mais crítico e acadêmico e com o auxílio de conceitos de grandes estudiosos é o intuito deste texto. O ponto de partida da análise é o conceito de interdependência complexa de Joseph Nye, que se aplica à situação de dependência europeia dos recursos energéticos russos e de dependência russa da renda gerada pelo fornecimento do gás ao bloco europeu utilizando-se de um viés antirrealista, no qual os agentes transnacionais ocupam papéis de destaque e a manipulação econômica e a atuação de instituições internacionais são valorizadas. Refere-se ao intenso relacionamento econômico entre os dois atores, levando ao surgimento de uma relação de dependência mútua. Esta, influenciada pelo sistema capitalista desigual e pelos jogos de poder, assume caráter assimétrico. As assimetrias são verdadeiras fontes de poder que tornam a sensibilidade e a vulnerabilidade de alguns atores mais latentes. No caso analisado, pode considerar-se que ambas as partes são igualmente sensíveis, uma vez que “ a dependência é uma rua de dois sentidos “ (Waltz, 1979) e todos são impactados pelas ações dos demais. Já com relação à vulnerabilidade — elemento qualitativo da dependência e relacionado às assimetrias -, a EU mostra-se mais vulnerável por ser a que, em um primeiro momento, sofreria sérios problemas em caso de uma ruptura da relação de interdependência e por não ter tantas opções viáveis para reduzir a dependência como aquelas disponíveis à Rússia.

Para que seja possível mensurar o poder dos atores centrais analisados neste estudo é preciso aprofundar-se, inicialmente, nas formas em que o poder se apresenta. Segundo os passos de Nye, o poder pode anunciar-se como recurso, neste caso o uso da matéria energética russa como recurso de poder. Este recurso de poder encaixa-se em um contexto de relativa estabilidade devido à interdependência, sendo caracterizado por uma simultaneidade de ações: enquanto a EU, mais vulnerável à dependência e insegura por possíveis cortes no fornecimento de gás natural, busca saídas, a Rússia procura acordos com potências asiáticas. A habilidade do poder mostra-se mais evidente na Rússia, que se apropria do contexto de interdependência assimétrica para manipular os comportamentos e a agenda europeus, utilizando-se do contexto de forma habilidosa e acondicionando-o a seu favor. O governo russo sabe que a posse de recursos energéticos é uma hábil ferramenta de coerção e possibilita elevado e eficiente poder de retaliação. O poder relacional, ainda parte da tese de Nye, é a outra face do poder. Esta, quando aplicada, relaciona-se à capacidade russa de exercer, entre outras coisas, comando de mudança, ou seja, utilizar a vantagem que apresenta no campo energético para controlar as ações da EU, que entende sua posição desvantajosa. Deste modo, a Rússia é capaz de utilizar-se de ameaças e recompensas para manipular o bloco europeu — deixar de fornecer gás por um determinado período de tempo (ameaça, indício de hard power) ou diminuir o valor do gás (recompensa). Ter controle das agendas é algo sobre o qual as duas partes dependentes podem atuar, tendo, contudo, mais espaço no comportamento russo, uma vez que a EU é consciente de que suas ações e estratégias podem ser direcionadas de acordo com o arbítrio e capacidade cooptativa da Rússia. Desta forma, a margem de ação do bloco na seara energética é restringida e ele busca opções para evitar retaliações e grandes prejuízos. Devido ao alto nível de interdependência entre EU e Rússia, todas as faces do poder relacional podem ser exercidas também pela EU sobre a Rússia, porém em menor intensidade e com maior prejuízo para a União.

Em termos de soft power e hard power, as duas partes utilizam-se das duas estratégias de ação, apesar de alguns comportamentos serem característicos de cada um deles. O bloco europeu, tendendo mais ao soft power, atua por meio de políticas que normalmente se desenrolam via acordos e tratados. Nesse sentido, Joseph Nye afirma: “Europe has successfully used the attraction of its successful political and economic integration to obtain outcomes it wants”. A potência energética — potência sendo aqui utilizada como “capacidade que tem uma coletividade de impor sua vontade a uma outra” (Aron, 2002) — também se utiliza de meios cooptativos de ajuste de agenda e persuasão provenientes de seu controle sobre os recursos energéticos para conduzir a EU a ações e políticas que tragam à Rússia resultados desejosos, mas apresenta, em seu histórico, um comportamento marcado por atos de hard power, como a interrupção no fornecimento de hidrocarbonetos — caso em 2006, contra a Ucrânia, e em 2009- e outras políticas de retaliação.

Por Luísa Locatelli

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARON, Raymond. Paz e guerra entre as nações. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.

FUSER, Igor. Energia e relações internacionais. São Paulo: Saraiva, 2013.

NGÔ, Christian. Energia. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2011.

NYE, Joseph S. Cooperação e conflito nas Relações Internacionais. São Paulo: Editora Gente, 2009.

NYE, Joseph S. The future of power. The Perseus Books Group: Nova York, 2011.

SÉBILLE-LOPEZ, Phillipe. Geopolíticas do petróleo. Lisboa: Instituto Piaget, 2006.

WALTZ, Kenneth Neal, 1924. Teory of International Relations/New York : McGraw-Hill, c1979.

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