Considerações finais: Balanço geral da interdependência

De acordo com os dados levantados, o grupo chegou ao consenso de que a interdependência, evidentemente presente na relação energética Rússia e União Europeia, mostra-se profunda e intensa, visto que se trata de uma dependência capital-energética, na qual implicações de segurança econômica (por parte do fornecedor, a Rússia) e de segurança energética (concernindo o consumidor, a União Europeia) são imensas. Evidenciamos a assimetria da interdependência, uma vez que a capacidade da Rússia de utilizar suas riquezas energéticas para inserir-se no cenário internacional em muito há superado as tentativas do bloco europeu em afrouxar suas amarras das importações de energia russa.

Seguindo a análise da vulnerabilidade da União Europeia, atribui-se tal característica às dificuldades em diversificar suas fontes importadoras de matéria energética, grande marco disto é o fracasso do projeto de construção do gasoduto Nabucco (2009), o qual visava a redução da dependência com a Rússia a partir da importação de gás natural não-russo do Cáucaso e da Ásia Central, iniciando nas fronteiras turcas com a Geórgia e o Iraque e terminando em Baumgarten, na Áustria, a partir de onde se ligaria a outros gasodutos. Fatores importantes contribuíram para a não realização do gasoduto em questão, apontamos aqui, além da instabilidade político-social das regiões do Oriente Médio e do norte do continente africano e os custos de financiamento, a falta de coesão e integração do bloco europeu que, sem uma política energética integrada, testemunha países de relevância como Alemanha e Itália oporem-se ao projeto devido suas boas relações econômicas com a Rússia. Nesse sentido, apesar de a EU buscar alternativas para o fornecimento energético, não é interesse de todos os países-membros do bloco reduzir a dependência das fontes russas.

Apesar do país ex-socialista possuir maior vantagem na relação de interdependência com o bloco europeu — por ser, afinal, o grande exportador de energia -, ele dispõe de alguns pontos de fragilidade. Um dos primeiros fatores condicionantes da sensibilidade russa é a questão de toda a renda gerada pelas exportações de petróleo bruto e gás natural para a União Europeia, tendo-se conhecimento de que em torno 70% do petróleo e 69% do gás natural russo tem como destino principal o bloco europeu. Adiciona-se a dependência russa perante países do Leste Europeu para o transporte do gás natural para a UE, principalmente da Ucrânia, território estratégico por onde transita em torno de 80% do gás natural em direção à União Europeia. Esta situação, causa de tantos distúrbios ao longo de anos recentes, é do que a Rússia busca livrar-se,utilizando de iniciativas que envolvam o transporte do gás por rotas alternativas, como é o caso do gasoduto Nord Stream, citado neste trabalho.

Os últimos avanços em acordos energéticos com países euro-asiáticos, suas relações diplomáticas com países estratégicos como Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Turcomenistão e, principalmente, a forte aproximação comercial com a China sustentam as intenções russas e asseguram a ela uma saída viável para a minimização dos efeitos da dependência.

A dependência da União Europeia com relação à importação de gás natural e petróleo russo demonstra uma fragilidade em seu setor energético e aponta a desagregação do bloco, que encontra dificuldades de atuação ao não conseguir alinhar os interesses de seus Estados-membros e lidar com a questão energética de forma unida e homogênea. Com o intuito de chamar os países do bloco para uma ação coletiva, Günther Oettinger, Comissário Europeu para a energia (Euronews, 2011), afirma:

“ Energy is the life blood of our societies. The well-being of our people, industry and economy depends on safe, secure, sustainable and affordable energy. […]The energy challenge is thus one of the greatest tests which Europe has to face. It will take decades to steer our energy systems onto a more secure and sustainable path. In the European Union, the energy challenges facing us are too overwhelming to be resolved by Member States individually. We are stronger acting together.”

Conclui-se que, no curto e médio prazo, com a manutenção de uma conjuntura estável e semelhante à atual, sem grandes rupturas ou mudanças de paradigmas (nosso trabalho não tem respaldo na tese de Arrighi e Silver (2011) sobre a mudança do paradigma econômico — e energético — do século XX), a tendência é uma relação de interdependência balanceada, com as perspectivas russas sendo mais otimistas, e por conseguinte, com o prosseguimento da instrumentalização de seus recursos energéticos como forma de maximizar seu poder e firmar-se internacionalmente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARRIGHI, Giovanni; SILVER, Beverly. The End of the Long Twenieth Century. In: Business as usual: the roots of the global finantial meltdown. New York: New York University Press, 2011.

CANEDO, Sílvia Helena Guilherme -Rússia e o gás natural: um importante instrumento de política externa, PUC Minas, 2006.

Euronews, (2011), Comissão Europeia: Gás, disponível em http://pt.euronews.net/2010/05/14/gunther-oettinger-a-questao-do-nabucco-seradecidida-ate-ao-final-do-ano/ Consultado a 20 de Maio de 2010. Emrj|”

OETTINGER, Gunther, (2011), “Speech of Commissioner Oettinger at the South Stream event”, Brussels.

https://www.youtube.com/watch?v=5-hQ9K0iYP0

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